A LINGUAGEM É ESTRUTURANTE DA CIVILIZAÇÃO
A palavra como seu meio!
8 Javé Deus disse: «Não é bom que o homem esteja sozinho. Vou fazer para ele
uma auxiliar que lhe seja semelhante».
9 Então Javé Deus formou do solo todas as feras e todas as aves do céu.
E as apresentou ao homem para ver com que nome
ele as chamaria: cada ser vivo levaria o nome que o homem lhe desse.
20 O homem deu então nome a todos os animais, às aves
do céu e a todas as feras. Mas o homem não encontrou uma auxiliar que
lhe fosse semelhante. (Genêsis, cap. 2)
Tratamos aqui do entendimento o que é cultura, observando exatamente o texto do
Professor Antonio Vidal Nunes (1) além de nos valermos também de Nietzsche .
Questionaremos como a linguagem é entendida pelo autor, bem como o que é
educação, além de qual a relação existente entre o conceito de linguagem e educação;
em que sentido a educação pode ser entendida como processo criativo? E que conclusões
podemos tirar da narração dos Índios das Seis Nações e os governos da Virgínia e Maryland?
É necessário um contexto para que possamos nos abrir ao entendimento de tudo isso.
No primeiro momento, nossa existência humana foi marcada pela evolução de uma vida
menos complexa para uma existência mais complexa, o que permitiu a ter os circuitos
neurológicos para a memória, a ilação, o aprendizado. Essa primeira parte é chamada
de hominização. A segunda parte, a partir do resultado da evolução, nos permite a
humanização, ou seja, a produção da cultura, e a linguagem foi a invenção tecnológica
suficiente para a conservação, a memória dessas descobertas. Esse processo está
embutido nas necessidades civilizatórias, pois a linguagem é a forma como nomeamos
o mundo, criamos os símbolos, ou seja, um continuidade que permite a representação,
dai sua facilidade de transmissão pela palavra. O texto bíblico acima, escrito há muito
tempo, corrobora essa ideia e a amplia na medida que ele transmite o fato de que,
com a linguagem e seu sucedâneo a palavra, ao nomear, também faz o homem se
apropriar da coisa. Esse se apropriar é elemento também constitutivo da educação,
uma vez que, essa é entendida como aquela que transmite o que se já se sabe ou foi
organizado como saber, forma as novas gerações nos conhecimentos e práticas sociais,
de forma que através da edução, o novo homem nascido é integrado a sociedade e
seus ditames. A linguagem e educação estão entrelaçadas, pois a primeira permite a
transferência da cultura adquirida, transformando-se ai em sua memória; a segunda,
reproduz o que já se sabia, dando condições ao ser humano de ter as bases necessárias
a modificação do recebido ou criação do novo, na medida que as respostas aprendidas
não são suficientes para atender as necessidades que se apresentam, pois a cultura
responde as épocas que foram requeridas, não tem caráter de perenidade, inobstante
ser base para novos desenvolvimentos e expressões. Nesse aspecto, a educação se
torna modelar quando não tole, antes exige, que se crie novos aspectos de cultura, de
conhecimento que respondam as novas necessidades. Evidentemente, isso cria
idiossincrasias muito graves na nossa existência, uma vez que, inobstante haver
educação na política e a política ser também educação, somos dominados por uma
hierarquia econômica que tende a responder o que não foi perguntado, antes, tentar
criar um homem que necessite do que foi produzido, fabricado, isso levanto a exploração
irracional do meio que vivemos, colocando em dúvidas a nossa capacidade de
sobrevivência nesse mundo, exatamente pelo esgotamento dos recursos.
A questão dos Nativos Norte-Americanos (2) revela o atentado que se faz contra a
humanidade, quando a cultura, impositiva, é colocada sem a necessária abertura para
a inovação a partir de um colonizador, por ser achar o mais sábio ou que é mais civilizado,
que não se abre a palavra do outro, a escuta do outro, não tem domínio do efeito que a sua
cultura, transmitida através da educação vai causar na capacidade de sobrevivência do
colonizado. A realidade disso é o extermínio de grupos ou sua total desestruturação, de
forma que com o tempo, não há mais vestígios ou estão tão diluídos, que já não fazem
mais sentido ou são totalmente incompreensíveis. Em outros termos, a cultura é de
quem se apropria dela no sentido de suas necessidades, mas está em compasso de
mudança para as inovações que ajudem a aprimorar esse processo .
Mas, não destoante do tema geral, o filósofo Nietzsche (3) nos propõe as transformações
que passamos, a vista de nossas próprias idiossincrasias. Ou somos feitos para o dever
ou nos rebelamos contra isso e mudamos nosso estado de coisa, na perspectiva que
nos tornemos como crianças para tudo iniciar. Nesse aspecto, nomeia três situações:
a do camelo que, como animal de carga é enfeitiçado pelo porvir de uma crença que lhe
tira a capacidade de dizer não, e com isso, perde sua dignidade; depois, em um dado
momento, transforma-se no leão, que quer ser dono da sua história, mas que, nessa
rebeldia não tem a ciência de se re-inventar, por isso, a necessidade do ser como
criança, que pode abandonar tudo e novamente começar. Assim, nessa metáforas,
podemos ver a educação que só eterniza a submissão; como também aquela que
mostra o contexto, mas impede a re-invenção, e por último, aquela que transmite o
passado, contextualiza o presente, mas sabe incentivar uma nova abordagem da
situação.
(1) Fundamentos filosóficos da educação. Antonio Vidal Nunes. Recurso eletrônico.
UFES. Vitória-ES, 2017. Disponível em:
<< http://www.especializacao.aperfeicoamento.ufes.br/pluginfile.php/30537/mod_resource/content/1/material_didatico_fundamentos_filósoficos.pdf >> Acessado em 10 de Outubro de 2017.
(2) Ibdem. “sentido da ação educativa. No século XVIII, foi assinado nos Estados Unidos
um tratado de paz entre os Índios das Seis Nações e os governos dos Estados de Virgínia
e Maryland. Desejando oferecer umaprova de amizade e de boa convivência, as
autoridades americanas enviaram uma correspondência aos chefes indígenas
colocando à sua disposição algumas vagas em escolas de suas comunidades
para serem ocupadas por jovens índios. A resposta à gentileza dos brancos veio
através de uma carta assinada pelos chefes dos povos indígenas.Em um de seus trechos,
encontramos as seguintes considerações: Nós estamos convencidos, portanto, que os
senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo coração. Mas aqueles que
são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e,
sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que vossas idéias de educação
não são a mesma nossa [...]
Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam
toda a vossa ciência. Mas quando eles voltaram para nós, eles eram maus corredores,
ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome.
Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam
nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros,
como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e,
embora não possamos aceitá-la, para mostrar nossa gratidão, ofereceremos aos nobres senhores de
Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos,
e faremos deles, homens”.
(3) NIETZSCHE, F. Os discursos de Zaratustra. Das três metamorfoses. In:
Assim falava Zaratustra. São Paulo: Hemus, 1977, p. 19-21.
Parabéns Jorge pelo seu texto, mostrou que houve leitura e entendimento daquilo que foi proposto.
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