EDUCAÇÃO E HUMANIZAÇÃO NA
ATUALIDADE MODERNIZADA
Jorge Generoso do Nascimento
“Então Javé Deus expulsou o
homem do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado
(Gênesis, 2-3).”
Resumo: A humanidade encontra-se nos
dias atuais dominada por forças e ações que ainda usam dos
processos de negação da “humanização” como forma de
apropriação dos resultados do trabalho produtivo; é proposto uma
reflexão sobre essas realidades, bem como do advento da mediação
dos meios virtuais na concepção social e a educação como
mediadora da transição necessária em recuperar o homem a sua
importância central humanizada.
Abstract: Humanity
is today dominated by forces and actions that still use the processes
of denial of "humanization" as a form of appropriation of
the results of productive work; it is proposed a reflection on these
realities, as well as the advent of the mediation of the virtual
means in the social conception and education as mediator of the
necessary transition in recovering the man its central humanized
importance.
Palavras chave: Educação,
humanização, dominação, transformação.
Key words: Education, humanization,
domination, transformation.
1.Introdução
A aurora do homem começa em dois
momentos. O primeiro, acontece nos processos naturais que o
direcionaram na escala evolutiva, dotando-lhe dos meios biológicos
necessários para o desenvolvimento da capacidade de ser senciente.
Nesta fase que marca o início o segundo momento, adquire a
capacidade de fazer ilações, e esta nova situação de vida permite
a criação do que pode ser resumido no entendimento do que é
“humanidade”, ou seja, o marco principal da sua capacidade
de não se submeter totalmente a ordem
natural, como os demais membros da criação.
Esta nova situação, cujo início se
perde na noite do tempo, tendo registros arqueológicos
que permitem uma visão desse desenvolvimento, tanto nas diversas
linhagens de hominídeos que surgiram, como naquelas que se
extinguiram. Mas o resultado disso tudo, depois da invenção da
escrita, é o resultado civilizatório ou não que vivemos hoje como
herança, mas que teve um elemento organizador de sua estrutura,
objeto de várias considerações de como se formou esse pensamento
humano.
Com a invenção da escrita, a
história, os atos e os fatos, passam a serem registrados, e a
educação, antes uma simples transmissão de saberes, em particular
relativos a sobrevivência, também cria, através da palavra e de
seu registro, condições para pensar o seu existir, inovar.
Objetiva-nos aqui o contribuir no
entendimento de como toda essa herança chega aos nossos tempos, como
se processa hoje sua nova inscrição a vista do desenvolvimento
tecnológico, do virtual e das forças que se valem disso, ou seja,
na modelagem do que se entende por “humanização” e de sua alma
preletora, a educação.
Para tanto, examinaremos
constituições filosóficas disponibilizadas sobre a nossa era, bem
como suas ilações sobre a nossa linha estruturante e, no final,
consideraremos sobre a Educação e a Humanização no tempo que
vivemos.
2. Fomos constituídos fora do Jardim
do Éden?
A metáfora da expulsão do homem do
Jardim do Éden não pode deixar de ser interpretada também a luz da
organização do homem em suas relações sociais, a partir da
organização do trabalho, que estrutura essas mesmas relações
sociais.
Ou seja, recorremo-nos ao pensamento marxista, onde nos é lembrado
que, se a lógica dialética é permeada no movimento do pensamento,
o fator material da história é permeado de como os homens se
organizaram em sociedades no seu desenvolvimento natural, e como isso
se relacionou construidamente durante essa mesma existência. No
pensamento Marxista, esse relacionamento é entendido dentro de uma
categoria centralizadora, que é o trabalho, considerado muito além
do simples do seu senso comum de produção ou transformação, mas
sim na sua situação filosófica que amplia em muito o entendimento,
sendo no meio dos homens a sua atividade vital, vitalizadora,
centralizadora desse sentimento de humanidade. O trabalho entendido
em Marx é o que garante a sobrevivência pela qual a humanidade
conseguiu produzir e reproduzir a vida humana. Na metáfora,
organizamos nossa civilização quando nos separamos de forma
acentuada dos ciclos naturais, ou seja, da simples coleta para a
produção de excedentes.
3. O Educar e a Educação.
Ou a educação e o educar?
Educação, como bem expressado no material de apoio do curso EAD
UFES-ES,
“... Provisoriamente poderíamos dizer que ela, a educação, é
uma atividade mediante a qual os saberes, conhecimentos e valores
inventados pelos homens são transmitidos.” e em outra ilação a
partir da consideração de que o que produzimos como saber não tem
caráter de eternidade, mas sim, de uma transitoriedade que é o
tempo que se presta a ser resposta a uma situação exigida no
decorrer em dado momento da história, e também de que a novidade só
pode ser concebida baseada na herança de conhecimentos recebida,
“ ..Talvez
agora possamos acrescentar um componente novo à definição de
educação sugerida anteriormente. Ela não é apenas transmissão do
legado passado, mas preparação para a criação, para busca de
caminhos novos a partir dos desafios do presente.”.
Não podemos deixar de inferir que,
não houvesse o processo da educação, a humanidade não teria
existido como a conhecemos hoje. O “educar”, tomado como ato,
promove a educação, abarcando todos os processos que almejam fazer
transmitir, difundir os conhecimentos, padrões de comportamento,
tendo então como final a continuidade da cultura de uma sociedade.
Ampliando essa consideração, educar é socializar, contribuindo na
capacitação do indivíduo viver na sociedade, deste a sua infância.
Por fim, é também estimular o sujeito nas suas capacidades, sendo o
suporte para a produção e a transmissão de conhecimento.
4. Humanidade e humanização.
A humanidade é a reunião do que se
apresenta inerente a natureza humana, reconhecida na benevolência,
respeito no trato com outra pessoa, e, principalmente, quando se
refere a aldeia humana, hoje composta por cerca de oito bilhões de
indivíduos, distribuídos de forma desigual na face da terra, mas
tendo como características relevantes o seu fracionamento em nações,
essas cada uma com sua língua, costumes e cultura próprias.
Humanizar, portanto, refere-se ao enquadre do sujeito humano nessa
humanidade, e desumanizar, refere-se a extração do homem das
práticas de humanidade.
Nesse caminhar da humanidade, os
aspectos escolares e não escolares de educação, do ensino e do
treinamento, estão sujeitos a cargas de poderes e forças que as
moldam de acordo com suas orientações ou respeito humanizadores ou
não. Mas devemos reconhecer que essas cargas e forças são
políticas, e política pode ser entendida como a consciência dessas
forças e cargas que exercemos ou sofremos, sendo essa a arena da
própria da política.
Portanto, as ações humanas estão
no âmbito das ações políticas, por serem carregadas de forças,
poderes, sendo que a “humanização” se caracteriza nesse meio
como força moderadora dessas forças, poderes.
Fica então impossível não
considerar que a “educação” dentro dessa “humanidade” que
tem seus valores como sede daquilo que entendemos como “humanização”
é uma ação política, e que sob a influência desses poderes,
forças, a educação pode ser emancipadora ou reprodutora de
sistemas de opressão; podem produzir avanços e ações retrógradas
5. Considerações sobre a época que
vivemos
Falamos no início que, segundo o
marxismo, o elemento de clivagem das relações sociais, elemento
esse centralizador, é o trabalho o qual, como semente, gera toda uma
estrutura de acontecimentos no meio da sociedade. Também dito que o
trabalho deve ser entendido no seu contexto mais amplo. Com
consequência, devemos ter com pensamento que se a educação deve
ser um meio de humanização, é o trabalho que deve aparecer como
princípio educativo. E devemos como consequência, também examinar
as contradições que são características da organização do
trabalho em nossa sociedade, em particular a questão do desemprego
estrutural, da divisão de classes no processo produtivo capitalista,
que gera situações desumanizadoras.
Mas o que mais chama atenção nos
dias de hoje é o progresso (não como fator humanizante ), das
ciências, das descobertas e dos usos e reusos da herança
cultural-científica da humanidade: a humanidade desenvolveu-se em
meio a descontinuidades, não de maneira uniforme e, entretanto, a
situação moderna e o como vivemos, fruto da chamada
contemporaneidade, é distinta de todas as formas de ordem social já
vistas e passadas pela humanidade.
Hoje há atores, como por exemplo, a
imprensa, que tolda, molda, fica junta e misturada a todas as formas
de manipulação, dentro de um contexto chamado de mundo globalizado,
agindo na desrealização da humanidade a aqueles que se apegam a
verdade matemática ou ao rigor do lúdico operado pela informática,
ampliando a miserabilidade humana; essas tecnologias de
virtualização, concebe um caráter de pseudoconcreto ao imaginário
que preenche hoje o universo da humanidade.
Por conseguinte, o mundo hoje se
reduz a passos largos ao sedutor, fascinante, ao mesmo tempo causador
de terror, de caráter excludente e muito cruel, a qual tem como
resultado o processo de “privatização” da riqueza nas mãos de
poucos e a “socialização” da pobreza no restante.
Tudo isso é gerido por sistemas
econômicos que dependem disso para a sua sobrevivência, no qual o
capital associado a evolução da microeletrônica e informática,
desnaturalizou todas as fronteiras geográficas, globalizou tudo,
deste o emprego, capitais de ordem não produtiva direta, estes
último, que circulam sem nenhuma barreira moral ou ética na
dilapidação das economias nacionais alvos de seus ataques.
Sobressai ai o mote neoliberal formatado na “nova era do mercado”,
mostrado como a via central da sociabilidade humana transformada e
apropriada no sujeito individualista e utilitarista.
Nesse aspecto, a educação e a
formação profissional, que são também constituídas e
constituintes das relações sociais, ficam cercadas nos ditames do
economicismo do emprego e da figura da empregabilidade, eficiência,
da eficácia, da competitividade, da produtividade, tudo distanciado
da formação humana, humanizadora.
6. Conclusão
Aprendemos que a técnica é a
extensão orgânica do homem, e nesse século isso se mostra de
maneira avassaladora, assustadora. Mas, na consideração de sua
raízes, Heidegger nos diz que “o produzir nos leva do ocultamento
para o descobrimento”
. A questão da educação e da humanização na nossa época atual,
produzidas como elementos estruturantes das trocas sociais, junto com
o trabalho, que é a sua centralidade, também enfrenta os rigores de
um inverno neoliberal que não produz ou reproduz a humanidade pelo
efeito do trabalho, mas sim na sua redução ao produzir um homem
para consumir seus próprios produtos e avanços. Além disso, ainda
poderá ser discutida realmente, diante dos avanços da informática
e seus poderes mediadores da chamada realidade virtual, se o trabalho
ainda é o elemento centralizador das relações sociais, como
acreditado em Marx.
Partindo do conceito que humanizar é
colocar o homem e seu trabalho na centralidade do que se chama
humanidade, esta o conjunto de todas as realizações – trabalho -
de homens, respeitando-o na sua individualidade, na sua forma de
pensar, na sua obra e no seu trabalho, e que desumanizar é a negação
dos valores da moral, ética, bondade, respeito, o que temos hoje é
apenas a remissão de um sistema que começou nos seus primórdios em
um caminho de progresso baseado principalmente nos conceitos da
desumanização, no momento que homens tomaram homens como escravos,
como não libertos na sua condição de homens e, para tanto, criando
sistemas e crenças que se tornaram a própria pedagogia da repetição
exaustiva de modelos de opressão. Vemos isso hoje no fundamentalismo
religioso, na questão da evocação constantes do moralismo, do
preconceito, xenofobia, da perseguição por causa dos elementos
constitutivos da sexualidade, tudo isso como forma de perpetuar a
exploração, a escravização dos indivíduos aos sistemas
econômicos que precisam “moldar” o homem as suas necessidades,
ou seja, negar a humanização da humanidade, tratada aqui apenas
pelo que pode responder pela arte laboral reduzida ao um sistema de
classe de produção, e não no trabalho que mede, produz e faz
aflorar toda a transformação das relações sociais em suas
necessidades pensantes, evolutivas, progressistas, que caminha
inevitavelmente no sentido de sua emancipação definitiva do ciclo
natural. Para que essa última ocorra, ou seja, da existência do ser
pensante, há necessidade de que tenhamos o homem desperto, de
pensamento crítico, emancipado, que produza um educar e uma educação
que não repita modelos de perpetuidade das dominações, mas sim,
que se auto examina e permita e de condições para que suas
concepções sejam atualizadas como resposta aos novos tempos em sua
necessidade de liberdade, progresso constante, mesmo porque, na
continuidade de tudo isso que ai está, com certeza esgotaremos todos
os nossos recursos naturais, levando-nos a extinção através de
guerras pela disputa de espaços e meios de subsistência e
contaminações pela degradação do meio ambiente e redução da
capacidade planetária em manter a vida como a conhecemos hoje.
Portanto, que a educação não seja somente o meio para o
tecnicismo, mas também e principalmente, que seja o elemento
encorajador da humanização, “revelador e verdadeiro” do retorno
do homem ao seu estado central na criação, fato distante das
crenças neoliberais desse tempo que vivemos.
Realmente fomos constituídos quando
expulsos do paraíso da coleta simples dos produtos da natureza para
a sua domesticação, produção de excedentes e bens que simbolizam
o montante da riqueza, tendo como forma de execução a própria
desumanização do homem. Considerando o nosso futuro que se
apresenta com riscos a nossa existência, não temos outra saída: ou
temos uma educação descompromissada, desnaturalizada dos sistemas
de dominação para uma situação de libertação que coloque em
prática os valores da humanização, ou simplesmente nos
extinguiremos como habitantes desse mundo, quiças deixando esse
nicho para uma outra espécie que, depois de longo caminho de
evolução biológica, tenha as condições de se humanizar como nós
e faça escolhas mais corretas. A herança desse mundo, se não
mudarmos, não será nossa!
Notas:
Referencias: