O
ser psicanalista, sua ética e ação em um mundo ainda hostil a
psicanálise.
Jorge
Generoso do Nascimento1
Colocação
do problema
O
presente trabalho faz parte das atividades própria do curso
Especialização em Filosofia e Psicanálise e Educação da UFES-ES,
e terá como objetivo discutir a situação do psicanalista diante de
sua própria condução ética enquanto sujeito e suas relações com
o outro, considerando que jamais será um sujeito passivo diante de
sua formação e continuidade dos estudos, acrescido do agravante,
citado aqui apenas um, mas que abarca toda uma situação que pode
ser tornar constrangedora, que é a de ser um praticante da
psicanálise nascida com Freud e que ainda não é tida ou aceitada
totalmente como ciência nos nossos dias. Portanto, não acreditada
nesse crivo, o psicanalista é um sujeito que também pode ser visto,
por extensão, como o astrólogo em relação a astrologia, como um
embusteiro defendendo uma falsa ciência2.
Em outras palavras, o psicanalista depende da certeza do conhecimento
de Freud ampliado pelos seus seguidores.
O
ambiente, quem é e qual a formação do psicanalista
Se
o discípulo segue o mesmo caminho do mestre, então deverá sofrer o
mesmo que o mestre sofre e, portanto, não deve ficar horrorizado
quando sempre vê, ameaçador no horizonte, os que distratam o
mestre. Algo como estar em Nápoles, Italia, aproveitando da vida e
da encantadora região, mas e de qualquer ponto da cidade, ver o
sempre vigilante e imprevisível vulcão Vesúvio, que se não
destrói a cidade ali perto, por não ser tão poderoso assim ou a
cidade ter aprendido a se defender, frequentemente na história
cobrou o seu preço de terror e malignidade. Assim agem os detratores
da psicanálise ao atacarem Freud3,
não no sentido de elucidação, mas sim de desacreditar. Dai
atacarem suas descobertas, vida sexual, de ser um embusteiro, entre
outras coisas.
O
psicanalista não é nada além do que é sua humanidade como todos
os seus em volta: é um sujeito que precisa somente ter seus
processos mentais de ilação normais, daí não precisaria ter
formação acadêmica obrigatória, qualquer um pode se tornar um
psicanalista. Mas dai advém as necessidades éticas baseadas em
comportamentos e crenças sociais, portanto, obriga a formação
psicanalista às normas sociais de seu meio. A formação
psicanalítica então passa ser uma oferta da academia, mas mitigada
na forma de pós-graduação ou mestrados e doutorados de Psicologia
como pesquisa psicanalítica. Não existe, portanto, uma simples
“graduação em Psicanálise”. Portanto, seria um profissional
apartado, em princípio, do meio acadêmico oficial e dito
científico.
Os
requisitos básicos então nessa nova formação, ou seja, a partir
da pós-gradução em diante, será o de uma graduação em área de
humanas ou afins, a inscrição em uma escola que forneça legalmente
uma pós-graduação, dentro de um curriculum básico, avaliações,
professores qualificados, os quais passarão aos seus alunos o básico
de Freud e de seus seguidores (ampliado em Escolas Próprias, como
por exemplo, a Lacaniana).
Nesse
aspecto, o psicanalista estará contribuindo na sua ação com o
conhecimento das neuroses, a construção do ego, a construção de
vínculos sócias; estabelecimento da identidade, de humanização, e
da civilidade. Terá como objetivo o alívio do sofrimento, do
desenvolvimento humano, do aprimoramento da educação; de motivar a
geração de cultura; da compreensão do simbolismo da arte, entre
outros.
Portanto,
o psicanalista é um sujeito titulado por escola psicanalítica
reconhecida e também um analista que detém conhecimentos
específicos e cultura reconhecidos, como a maturidade dos
conhecimentos psicanalíticos, cultura humanística, capacidade
testada de convívio e de disponibilidade.
Já
na sua ação, o ato da psicanálise é sustentado pela consideração
de confiança entre o analista e o seu paciente. Essa ação não
pode ser orquestrada em uma não neutralidade, portanto, o sujeito
psicanalista não é alguém além, acima de qualquer vicissitude
humana ou moral ou mesmo ética, não é um Totem que recorda um algo
anterior, muito menos um Tabu da qual pode se originar uma religião.
Se
o psicanalista é, como dito, “… nada além do que é sua
humanidade como todos os seus em volta”, então deverá ser
estruturado da mesma forma: ou na neurose; ou na psicose ou na
perversão. Mas, se ele também não é um sujeito passivo, como será
colocada a questão da transferência e da contra-trasferência, a
primeira, necessária ao exercício de sua função, quando será
objeto de amor e ódio do analisando? Como solucionará a questão da
Ética que aplica ao seu desejo e dos mecanismos que isso impede de
realização? Tudo isso considerado um ambiente que não é muito
favorável ao reconhecimento da psicanálise como uma ciência.
Falando
sobre um comportamento Ético.
Não
haverá processo psicanalítico sem a existência do par
psicanalítico, formado pelo analisando e o analista. O analisando é
alguém que procura um esclarecimento sobre seus sintomas, e
procurará um analista para que este o ajude a enxergar suas causas,
e a partir dai o analisando poderá elaborar uma situação que
objetive sua vida, considerando suas neuroses. Procura isso em um
analista que é alguém que é herdeiro tanto do conhecimento de
Freud, como um ombro-a-ombro com Freud e seus seguidores em suportar
a carga que se joga contra a psicanálise na tentativa de a
desqualificar classificando-a como uma falsa ciência. E esse
analista tem que estar conscientizado dessas realidades que, além de
ser um analista, também é e deve ser um defensor do legado
Freudiano, exigindo-se dele atitudes e procedimentos próprios da
ortodoxia psicanalítica, pois ficará difícil defender uma ciência
na qual o seu próprio executor demonstrar ambiguidades fora do
entendimento Freudiano ampliado por seus seguidores, no tratamento a
que se propôs com seu analisando. Aqui se preconiza uma ortodoxia.
O
procedimento ético do psicanalista aqui é o de se submeter primeiro
aos princípios psicanalíticos, abrangendo a formação, a
continuidade dos estudos, a participação dos eventos próprios da
psicanálise, mas e principalmente, o cuidado na sua própria
análise, que podemos dividir em dois entendimentos, na qual um
complementa o outro da seguinte forma: o psicanalista tem que estar,
para atender o outro, com suas situações de vida examinadas por
outro psicanalista e, de forma complementar, se apropriar do seu
conhecimento no seu próprio entendimento. É desnecessário aqui
explicar essa situação, apenas será citado o conselho Evangélico
de primeiro limparmos a nossa visão para depois limpar a do outro 4
Concluímos
entendendo que existe também esse outro objetivo a ser perseguido
pelo psicanalista, que não somente o exercício do seu mister, mas
também defender e ampliar sua herança freudiana diante de um mundo
hostil; esse conjunto de situações regulam a ação pessoal do
psicanalista, que em primeiro, deve aliviar o outro de suas
tribulações neuróticas; segundo, considerando sua posição no
mundo que acredita e ao mesmo tempo tenta desmerecer a psicanálise e
a partir de sua própria condição, não relaxar na sua formação
na discussão; no seu processo constante de análise individual, de
forma que, amplificado por todo esse conhecimento, o aproprie no seu
próprio auto-conhecimento.
Portanto,
dentro de uma perspectiva que na psicanálise o psicanalista tem que
ser primeiro analisado, de forma capacitá-lo para se autorizar ao
atendimento, é lícito e ético que isso seja complementado pela
apropriação do seu conhecimento em iluminar sua própria análise,
seu auto-conhecimento, pois a formação de um psicanalista envolve,
além dos conhecimentos, herdar métodos ou situações de
consultório também como formação no seu próprio processo
analítico.
Dessa
forma, nutrido seu conhecimento pelo estudo e também pela sua
experiência pessoal de análise e auto-conhecimento, ele estará
perfeitamente adequado a aplicar e defender a psicanálise contra
todos aqueles que, por razões que somente poderiam ser
compreendidas se fizessem sua própria análise psicanalítica,
lançam-se na desventura de tentar acabar com a psicanálise.
Referencias:
A
Ética na Psicanálise a Partir de seus Conceitos Centrais e sua
Relação com a Terapêutica . Disponível em <
https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/a-etica-na-psicanalise-a-partir-de-seus-conceitos-centrais-e-sua-relacao-com-a-terapeutica
> Acessado em 24 de março de 2018.
DUNKER,
C. I.L - Nova biografia investe violentamente contra imagem de Freud.
Disponível em <
https://revistacult.uol.com.br/home/dunker-biografia-freud/
>. Acessado em 24 de março de 2018.
DUNKER,
C.I.L – Riscos Próprios e Riscos Impróprios da Formação
Psicanalítica. Intervenção no Fórum do Campo Lacaniano , São
Paulo, 2007. Disponível em <
http://stoa.usp.br/chrisdunker/files/1967/10630/2007+-+Riscos+Próprios+e+Impróprios+da+Formação+Analítica.pdf
> Acessado em 24 de março de 2018.
Eksterman,
Abram. Desafios atuais para a prática psicanalítica. Disponível em
<
http://www.medicinapsicossomatica.com.br/doc/desafios_atuais_pratica_psicanalitica.pdf
>. Acessado em 24 de março de 2018.
MOURA,
Joviane Aparecida de . A Ética na Psicanálise a Partir de seus
Conceitos Centrais e sua Relação com a Terapêutica. Disponível
em: <
https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/a-etica-na-psicanalise-a-partir-de-seus-conceitos-centrais-e-sua-relacao-com-a-terapeutica
>. Acessado em 24 de março de 2018.
1Psicanalista
com formação pela Associação Brasileira de Psicanálise Clínica e
cursista da especialização Filosofia, Psicanálise e Educação –
UFES 2018.
2É
do conhecimento pessoal do autor um sujeito que toma como próprio
para si todo o discurso contrário a psicanálise. Mas uma das
respostas para isso é que tal atitude funciona como um mecanismo de
defesa, na obtenção de uma parede que o isole da dor psíquica de
admitir quem na realidade é, situação essa já revelada pelo
trato psicanalítico.
3Christian
Dunker fala de mais um livro nesse sentido, em reportagem da UOL
(https://revistacult.uol.com.br/home/dunker-biografia-freud/)

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