segunda-feira, 2 de julho de 2018

O ser psicanalista, sua ética e ação em um mundo ainda hostil a psicanálise




O ser psicanalista, sua ética e ação em um mundo ainda hostil a psicanálise.


Jorge Generoso do Nascimento1


Colocação do problema


O presente trabalho faz parte das atividades própria do curso Especialização em Filosofia e Psicanálise e Educação da UFES-ES, e terá como objetivo discutir a situação do psicanalista diante de sua própria condução ética enquanto sujeito e suas relações com o outro, considerando que jamais será um sujeito passivo diante de sua formação e continuidade dos estudos, acrescido do agravante, citado aqui apenas um, mas que abarca toda uma situação que pode ser tornar constrangedora, que é a de ser um praticante da psicanálise nascida com Freud e que ainda não é tida ou aceitada totalmente como ciência nos nossos dias. Portanto, não acreditada nesse crivo, o psicanalista é um sujeito que também pode ser visto, por extensão, como o astrólogo em relação a astrologia, como um embusteiro defendendo uma falsa ciência2. Em outras palavras, o psicanalista depende da certeza do conhecimento de Freud ampliado pelos seus seguidores.


O ambiente, quem é e qual a formação do psicanalista


Se o discípulo segue o mesmo caminho do mestre, então deverá sofrer o mesmo que o mestre sofre e, portanto, não deve ficar horrorizado quando sempre vê, ameaçador no horizonte, os que distratam o mestre. Algo como estar em Nápoles, Italia, aproveitando da vida e da encantadora região, mas e de qualquer ponto da cidade, ver o sempre vigilante e imprevisível vulcão Vesúvio, que se não destrói a cidade ali perto, por não ser tão poderoso assim ou a cidade ter aprendido a se defender, frequentemente na história cobrou o seu preço de terror e malignidade. Assim agem os detratores da psicanálise ao atacarem Freud3, não no sentido de elucidação, mas sim de desacreditar. Dai atacarem suas descobertas, vida sexual, de ser um embusteiro, entre outras coisas.
O psicanalista não é nada além do que é sua humanidade como todos os seus em volta: é um sujeito que precisa somente ter seus processos mentais de ilação normais, daí não precisaria ter formação acadêmica obrigatória, qualquer um pode se tornar um psicanalista. Mas dai advém as necessidades éticas baseadas em comportamentos e crenças sociais, portanto, obriga a formação psicanalista às normas sociais de seu meio. A formação psicanalítica então passa ser uma oferta da academia, mas mitigada na forma de pós-graduação ou mestrados e doutorados de Psicologia como pesquisa psicanalítica. Não existe, portanto, uma simples “graduação em Psicanálise”. Portanto, seria um profissional apartado, em princípio, do meio acadêmico oficial e dito científico.
Os requisitos básicos então nessa nova formação, ou seja, a partir da pós-gradução em diante, será o de uma graduação em área de humanas ou afins, a inscrição em uma escola que forneça legalmente uma pós-graduação, dentro de um curriculum básico, avaliações, professores qualificados, os quais passarão aos seus alunos o básico de Freud e de seus seguidores (ampliado em Escolas Próprias, como por exemplo, a Lacaniana).
Nesse aspecto, o psicanalista estará contribuindo na sua ação com o conhecimento das neuroses, a construção do ego, a construção de vínculos sócias; estabelecimento da identidade, de humanização, e da civilidade. Terá como objetivo o alívio do sofrimento, do desenvolvimento humano, do aprimoramento da educação; de motivar a geração de cultura; da compreensão do simbolismo da arte, entre outros.
Portanto, o psicanalista é um sujeito titulado por escola psicanalítica reconhecida e também um analista que detém conhecimentos específicos e cultura reconhecidos, como a maturidade dos conhecimentos psicanalíticos, cultura humanística, capacidade testada de convívio e de disponibilidade.
Já na sua ação, o ato da psicanálise é sustentado pela consideração de confiança entre o analista e o seu paciente. Essa ação não pode ser orquestrada em uma não neutralidade, portanto, o sujeito psicanalista não é alguém além, acima de qualquer vicissitude humana ou moral ou mesmo ética, não é um Totem que recorda um algo anterior, muito menos um Tabu da qual pode se originar uma religião.
Se o psicanalista é, como dito, “… nada além do que é sua humanidade como todos os seus em volta”, então deverá ser estruturado da mesma forma: ou na neurose; ou na psicose ou na perversão. Mas, se ele também não é um sujeito passivo, como será colocada a questão da transferência e da contra-trasferência, a primeira, necessária ao exercício de sua função, quando será objeto de amor e ódio do analisando? Como solucionará a questão da Ética que aplica ao seu desejo e dos mecanismos que isso impede de realização? Tudo isso considerado um ambiente que não é muito favorável ao reconhecimento da psicanálise como uma ciência.


Falando sobre um comportamento Ético.


Não haverá processo psicanalítico sem a existência do par psicanalítico, formado pelo analisando e o analista. O analisando é alguém que procura um esclarecimento sobre seus sintomas, e procurará um analista para que este o ajude a enxergar suas causas, e a partir dai o analisando poderá elaborar uma situação que objetive sua vida, considerando suas neuroses. Procura isso em um analista que é alguém que é herdeiro tanto do conhecimento de Freud, como um ombro-a-ombro com Freud e seus seguidores em suportar a carga que se joga contra a psicanálise na tentativa de a desqualificar classificando-a como uma falsa ciência. E esse analista tem que estar conscientizado dessas realidades que, além de ser um analista, também é e deve ser um defensor do legado Freudiano, exigindo-se dele atitudes e procedimentos próprios da ortodoxia psicanalítica, pois ficará difícil defender uma ciência na qual o seu próprio executor demonstrar ambiguidades fora do entendimento Freudiano ampliado por seus seguidores, no tratamento a que se propôs com seu analisando. Aqui se preconiza uma ortodoxia.
O procedimento ético do psicanalista aqui é o de se submeter primeiro aos princípios psicanalíticos, abrangendo a formação, a continuidade dos estudos, a participação dos eventos próprios da psicanálise, mas e principalmente, o cuidado na sua própria análise, que podemos dividir em dois entendimentos, na qual um complementa o outro da seguinte forma: o psicanalista tem que estar, para atender o outro, com suas situações de vida examinadas por outro psicanalista e, de forma complementar, se apropriar do seu conhecimento no seu próprio entendimento. É desnecessário aqui explicar essa situação, apenas será citado o conselho Evangélico de primeiro limparmos a nossa visão para depois limpar a do outro 4
Concluímos entendendo que existe também esse outro objetivo a ser perseguido pelo psicanalista, que não somente o exercício do seu mister, mas também defender e ampliar sua herança freudiana diante de um mundo hostil; esse conjunto de situações regulam a ação pessoal do psicanalista, que em primeiro, deve aliviar o outro de suas tribulações neuróticas; segundo, considerando sua posição no mundo que acredita e ao mesmo tempo tenta desmerecer a psicanálise e a partir de sua própria condição, não relaxar na sua formação na discussão; no seu processo constante de análise individual, de forma que, amplificado por todo esse conhecimento, o aproprie no seu próprio auto-conhecimento.
Portanto, dentro de uma perspectiva que na psicanálise o psicanalista tem que ser primeiro analisado, de forma capacitá-lo para se autorizar ao atendimento, é lícito e ético que isso seja complementado pela apropriação do seu conhecimento em iluminar sua própria análise, seu auto-conhecimento, pois a formação de um psicanalista envolve, além dos conhecimentos, herdar métodos ou situações de consultório também como formação no seu próprio processo analítico.
Dessa forma, nutrido seu conhecimento pelo estudo e também pela sua experiência pessoal de análise e auto-conhecimento, ele estará perfeitamente adequado a aplicar e defender a psicanálise contra todos aqueles que, por razões que somente poderiam ser compreendidas se fizessem sua própria análise psicanalítica, lançam-se na desventura de tentar acabar com a psicanálise.
Referencias:
A Ética na Psicanálise a Partir de seus Conceitos Centrais e sua Relação com a Terapêutica . Disponível em < https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/a-etica-na-psicanalise-a-partir-de-seus-conceitos-centrais-e-sua-relacao-com-a-terapeutica > Acessado em 24 de março de 2018.
DUNKER, C. I.L - Nova biografia investe violentamente contra imagem de Freud. Disponível em < https://revistacult.uol.com.br/home/dunker-biografia-freud/ >. Acessado em 24 de março de 2018.
DUNKER, C.I.L – Riscos Próprios e Riscos Impróprios da Formação Psicanalítica. Intervenção no Fórum do Campo Lacaniano , São Paulo, 2007. Disponível em < http://stoa.usp.br/chrisdunker/files/1967/10630/2007+-+Riscos+Próprios+e+Impróprios+da+Formação+Analítica.pdf > Acessado em 24 de março de 2018.
Eksterman, Abram. Desafios atuais para a prática psicanalítica. Disponível em < http://www.medicinapsicossomatica.com.br/doc/desafios_atuais_pratica_psicanalitica.pdf >. Acessado em 24 de março de 2018.
MOURA, Joviane Aparecida de . A Ética na Psicanálise a Partir de seus Conceitos Centrais e sua Relação com a Terapêutica. Disponível em: < https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/a-etica-na-psicanalise-a-partir-de-seus-conceitos-centrais-e-sua-relacao-com-a-terapeutica >. Acessado em 24 de março de 2018.
1Psicanalista com formação pela Associação Brasileira de Psicanálise Clínica e cursista da especialização Filosofia, Psicanálise e Educação – UFES 2018.
2É do conhecimento pessoal do autor um sujeito que toma como próprio para si todo o discurso contrário a psicanálise. Mas uma das respostas para isso é que tal atitude funciona como um mecanismo de defesa, na obtenção de uma parede que o isole da dor psíquica de admitir quem na realidade é, situação essa já revelada pelo trato psicanalítico.
3Christian Dunker fala de mais um livro nesse sentido, em reportagem da UOL (https://revistacult.uol.com.br/home/dunker-biografia-freud/)

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