Ética e Piscanálise
Foi
bastante claro o saber que a psicanálise está entre o sujeito, seus
desejos e os impedimentos a isso, bem como o fato de a ética da
psicanálise ter como móvel o desejo, e este é dirigido para obter
uma coisa, a Coisa, descrita como algo primordial e que não pode ser
simbolizado.
Não
obstante se ter uma extensa literatura sobre um caso específico da
neurose chamada de histeria, entendida por Freud em colaboração com
Breuer, os quais avançaram na ideia de que essa neurose é causada
por lembranças reprimidas, de elevada intensidade emocional ligada a
aspectos não satisfeito de fantasias da sexualidade.
Caracteriza-se
pelo exagero teatral das reações emocionais e pela conversão
desses conflitos reprimidos psíquicos em sintomas físicos. Está em
Freud a explicação de que esses mecanismos não expressados
verbalmente, encontram sua via de escape nas expressões corporais e,
esse acontecimento, converte-se em convulsões, falta de ar,
paralisias, cegueira, surdez, dores de cabeça, gravides psicológica,
a dores musculares ou incapacidade de alimentação.
Tal
sintomologia, elas mesmo são emergências a serem tratadas, mas que
suas causas conflituosas permanecem escondidas e devem ter um outro
tratamento.
Presenciamos
uma emergência desse tipo, na qual a sra. Maria
Alzira
(nome fictício)1,
acompanhada de seus filhos e esposo, recebia atendimento em um
hospital particular. Apresentava a maioria dos
sintomas acima, tinha necessidade da presença dos outros para
relatar suas desventuras, além do fato de se agarrar aos seus
filhos, e várias vezes também manifestou a fobia de os perder. Seu
esposo, as vezes e de forma reservada e escondido da paciente,
mostrava seu desconforto com isso, mas claramente tinha medo de
manifestar suas opiniões de forma enfática. Ambos tinham amplo
manejo das coisas a disposição dos pacientes, bem como conhecedores
dos procedimentos e lugares onde podiam ser obtidos as ajudas
necessárias, demonstrando uma repetência de comparecimento aquele
centro de tratamento. Isso era digno de nota.
A
leitura que se podia fazer é de uma pessoa narcisista e histérica,
e esse fato parecia já ser reconhecido pelo médico atendente, mas
ao fazer provavelmente uma abordagem errônea para lhe trazer isso ao
consciente, gerou mesmo foi um mecanismo de defesa.
Ética
versus Ética
O
tratamento preconizado foi de aliviar os sintomas, já que esses são
reais e não simulados. Portanto, dentro da Ética médica do
juramento de Hipócrates, a prestação do serviço cumpre
perfeitamente o seu objetivo, de aliviar a dor de quem sofre.
Mas,
não se pode deixar de notar a falta de encaminhamento para uma
resolução do problema além do patológico, uma vez que, como
considerado, já tinha sido percebido, observado a partir da fala da
paciente que foi “acusada” pelo médico que a atendeu de que seus
sintomas serem “psicológicos”. Necessitava, sim, de uma profunda
investigação da causa desse emergir, que não se resolve,
repita-se, com medicação. A demonstração histérico voltará e,
pelas observações lá tomadas, imagina-se, toda vez que a paciente
Maria Alzira sentir-se solitária ou abandonada, fará a conversão
física, pois isso lhe garante, além de tudo, gozo.
Que
a medicação seja importante, isso não será discutido, mas a falta
do verdadeiro encaminhamento, sim.
A
Ética médica não se faz suficiente nesse caso, pois não considera
o “desejo” como elemento de análise, e a emergência dos ataques
estão vinculadas a desejos, como dito, não satisfeitos, reprimidos.
Mormente, pessoas assim ditas “histéricas”, são vistas como
fantasiosas, querendo aparecer, querer carinho, proteção, entre
outras coisas, o que não deixa de ser verdadeiro, mas isso tem uma
causa, um acontecimento psíquico que vetoriza isso.
Nesse
caso, entendemos que o mais correto, mas ético de forma global,
seria sim, no primeiro momento e atendimento - e caso fosse
suficiente para indicar um diagnóstico de histeria – promover a
medicação que alivia os sofrimentos, mas imediatamente encaminhar a
divisão psiquitriática para promover o estudo neurológico e
medicação complementar, se for o caso e para esclarecer se as
ocorrências são ou não derivadas de mal funcionamento neuronial,
e, depois disso e entendido o bom funcionamento neuronial, encaminhar
ao tratamento psicanalítico, não psicológico.
Nesse
último, o analista ajudará a “analisanda” - como será tratada
daquele momento em diante -, a trazer para seu conhecimento o que é
tramado no inconsciente, de forma que ela possa dar uma nova
significação a sua vida, aceitando de forma consciente sua situação
e estruturando um discurso que a faça superar-se, a ir para outros
desejos mais prazerosos. Não há portanto um conflito de “éticas”,
mas sim uma não consideração do alcance total da situação que se
apresenta, causado por situação na verdade não ética, a partir de
conceituações preconceituosas, como as relatadas nos atendidos que
apresentam quadro de histeria2,
na forma citadas anteriormente. Interessante que, continuando nessa
mesma situação, ou seja, ataque
histério-medicação-internação-liberação-casa e sua nova
repetência, se conseguirá sim uma cliente, não uma paciente que
merece, eticamente, ser medicada, analisada e ajudada a criar uma
situação de superação de si.
1No
interesse de manter o anonimato, outras situações observadas não
serão relatadas aqui, mas que corroboram tratar-se de caso
histérico.
2Deve
ser relatado aqui tratamentos que já foram dados a histéricos:
injeção de água destilada subcutânea; de éter; ministração de
vapores pelas narinas, como formol, entre outras. Na atualidade, as
campanhas de humanização do tratamento aos doentes parece ter
abolido essas práticas, mas que devem sempre estar na vigilância
dos atendidos e seus acompanhantes a ministração desses recursos,
devendo ser denunciados publicamente seus executores.

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