segunda-feira, 2 de julho de 2018

Ética e Piscanálise



Ética e Piscanálise



Foi bastante claro o saber que a psicanálise está entre o sujeito, seus desejos e os impedimentos a isso, bem como o fato de a ética da psicanálise ter como móvel o desejo, e este é dirigido para obter uma coisa, a Coisa, descrita como algo primordial e que não pode ser simbolizado.
Não obstante se ter uma extensa literatura sobre um caso específico da neurose chamada de histeria, entendida por Freud em colaboração com Breuer, os quais avançaram na ideia de que essa neurose é causada por lembranças reprimidas, de elevada intensidade emocional ligada a aspectos não satisfeito de fantasias da sexualidade.
Caracteriza-se pelo exagero teatral das reações emocionais e pela conversão desses conflitos reprimidos psíquicos em sintomas físicos. Está em Freud a explicação de que esses mecanismos não expressados verbalmente, encontram sua via de escape nas expressões corporais e, esse acontecimento, converte-se em convulsões, falta de ar, paralisias, cegueira, surdez, dores de cabeça, gravides psicológica, a dores musculares ou incapacidade de alimentação.
Tal sintomologia, elas mesmo são emergências a serem tratadas, mas que suas causas conflituosas permanecem escondidas e devem ter um outro tratamento.
Presenciamos uma emergência desse tipo, na qual a sra. Maria Alzira (nome fictício)1, acompanhada de seus filhos e esposo, recebia atendimento em um hospital particular. Apresentava a maioria dos sintomas acima, tinha necessidade da presença dos outros para relatar suas desventuras, além do fato de se agarrar aos seus filhos, e várias vezes também manifestou a fobia de os perder. Seu esposo, as vezes e de forma reservada e escondido da paciente, mostrava seu desconforto com isso, mas claramente tinha medo de manifestar suas opiniões de forma enfática. Ambos tinham amplo manejo das coisas a disposição dos pacientes, bem como conhecedores dos procedimentos e lugares onde podiam ser obtidos as ajudas necessárias, demonstrando uma repetência de comparecimento aquele centro de tratamento. Isso era digno de nota.
A leitura que se podia fazer é de uma pessoa narcisista e histérica, e esse fato parecia já ser reconhecido pelo médico atendente, mas ao fazer provavelmente uma abordagem errônea para lhe trazer isso ao consciente, gerou mesmo foi um mecanismo de defesa.
Ética versus Ética
O tratamento preconizado foi de aliviar os sintomas, já que esses são reais e não simulados. Portanto, dentro da Ética médica do juramento de Hipócrates, a prestação do serviço cumpre perfeitamente o seu objetivo, de aliviar a dor de quem sofre.
Mas, não se pode deixar de notar a falta de encaminhamento para uma resolução do problema além do patológico, uma vez que, como considerado, já tinha sido percebido, observado a partir da fala da paciente que foi “acusada” pelo médico que a atendeu de que seus sintomas serem “psicológicos”. Necessitava, sim, de uma profunda investigação da causa desse emergir, que não se resolve, repita-se, com medicação. A demonstração histérico voltará e, pelas observações lá tomadas, imagina-se, toda vez que a paciente Maria Alzira sentir-se solitária ou abandonada, fará a conversão física, pois isso lhe garante, além de tudo, gozo.
Que a medicação seja importante, isso não será discutido, mas a falta do verdadeiro encaminhamento, sim.
A Ética médica não se faz suficiente nesse caso, pois não considera o “desejo” como elemento de análise, e a emergência dos ataques estão vinculadas a desejos, como dito, não satisfeitos, reprimidos. Mormente, pessoas assim ditas “histéricas”, são vistas como fantasiosas, querendo aparecer, querer carinho, proteção, entre outras coisas, o que não deixa de ser verdadeiro, mas isso tem uma causa, um acontecimento psíquico que vetoriza isso.
Nesse caso, entendemos que o mais correto, mas ético de forma global, seria sim, no primeiro momento e atendimento - e caso fosse suficiente para indicar um diagnóstico de histeria – promover a medicação que alivia os sofrimentos, mas imediatamente encaminhar a divisão psiquitriática para promover o estudo neurológico e medicação complementar, se for o caso e para esclarecer se as ocorrências são ou não derivadas de mal funcionamento neuronial, e, depois disso e entendido o bom funcionamento neuronial, encaminhar ao tratamento psicanalítico, não psicológico.
Nesse último, o analista ajudará a “analisanda” - como será tratada daquele momento em diante -, a trazer para seu conhecimento o que é tramado no inconsciente, de forma que ela possa dar uma nova significação a sua vida, aceitando de forma consciente sua situação e estruturando um discurso que a faça superar-se, a ir para outros desejos mais prazerosos. Não há portanto um conflito de “éticas”, mas sim uma não consideração do alcance total da situação que se apresenta, causado por situação na verdade não ética, a partir de conceituações preconceituosas, como as relatadas nos atendidos que apresentam quadro de histeria2, na forma citadas anteriormente. Interessante que, continuando nessa mesma situação, ou seja, ataque histério-medicação-internação-liberação-casa e sua nova repetência, se conseguirá sim uma cliente, não uma paciente que merece, eticamente, ser medicada, analisada e ajudada a criar uma situação de superação de si.


1No interesse de manter o anonimato, outras situações observadas não serão relatadas aqui, mas que corroboram tratar-se de caso histérico.
2Deve ser relatado aqui tratamentos que já foram dados a histéricos: injeção de água destilada subcutânea; de éter; ministração de vapores pelas narinas, como formol, entre outras. Na atualidade, as campanhas de humanização do tratamento aos doentes parece ter abolido essas práticas, mas que devem sempre estar na vigilância dos atendidos e seus acompanhantes a ministração desses recursos, devendo ser denunciados publicamente seus executores.

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