Afeto em São Tomás de Aquino e na Psicanálise
“Nada
há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos”
(São
Tomas de Aquino)
Consideramos
que o ambiente de transição ocorrido nos séculos finais da chamada
Idade Média europeia, vivido por São Tomas de Aquino, tenha sido
um grande pano de fundo, onde era projetada de forma constante os
avanços ou não da humanidade; bem como o esgotamento de modelos na
Idade Média Europeia 2
tanto no campo econômico medieval, com a ascensão da burguesia em
detrimento do regime monarquia e seus vassalos 3;
como também no religioso, com a continuidade da fomentação das
heresias 4,
que gerou como resposta a Instituição dos Tribunais Inquisitoriais,
os quais foram sede de importantes mudanças no cenário europeu,
além de outras mudanças no cenários político e imperialismo dos
reinos.
Mas
existia também nesse pano de fundo a herança filosófica que não
podia ser negada, além da invasão moura da parte Sul da Europa (711
– 1492), que contribuiu com as ciências e a navegação, bem como
com conhecimentos que haviam sido esquecidos na Europa a partir de
fontes do Leste Europeu, em particular a Grécia e outros.
É
assim nesta situação que talvez tenhamos algumas luzes sobre o
ardor Escolástico de São Tomas de Aquino, entendido a “Escolástica”
como a união entre a razão e a fé, portanto, privilegia a razão e
a vontade humana na elaboração de um avanço no pensamento
filosófico cristão. Não estava só na linha platônica idealista
de Santo Agostinho, mas também inspirado no ideário filosófico de
Aristóteles e seu realismo. Esse ardor tanto segue no caminho da
afirmação do cristianismo, como também evolui o pensamento sobre o
homem e sua humanidade, com certeza, nos séculos que viriam, frente
as mudanças que certamente ocorreriam, como ocorreram.
E
ai, se não existe nada na nossa inteligência que não tenha passado
antes pelos nossos sentidos, existe a obrigatoriedade dele de
considerar o que seja os afetos.
Traçados
então algumas linhas de contexto, diga-se de passagem, merecedoras
de maior aprofundamento, mas voltando-nos a São Tomas de Aquino que
tem em si, pelo seu estudo e capacidade de elaboração, a herança
cultural-filosófica europeia que já antes tinha se esmerado no
entendimento do que seja “afeto”.
O
entendimento comum de afeto passava pela singularidade de ser emoções
não totalmente sujeitas aos domínios da paixão, referindo-se como
afeto ao sentimento existente nas relações entre as pessoas, os
quais se mostram em diversas atitudes, como a bondade, a
benevolência, a gratidão, ternura entre outras. É indicativa de um
estado, um condição ou qualidade na qual se sofre uma ação que
influencia ou modifica 5.
Aristóteles chamou “de afetivas as qualidades sensíveis porque
cada uma delas produz uma afeição dos sentidos” 6.
Mas,
como São Tomas considera então afetos?
Primeiro,
que afeto não é paixão, pois paixão exige uma mudança corporal,
boa ou má julgadas assim pela regra da reta razão, mas
esta o contém;
segundo, que se analisa as paixões a partir da consideração de uma
vida apetitiva ou afetiva, que se mostram como fatos da experiência,
onde: se reconhecemos as tendência, temos ai o apetitivo; se
reconhecemos o relativo comportamental ao sujeito, temos ai o
afetivo. Para tanto, considera a existência das “potências
especiais”, como a “potência sensitivo-afetiva”, e as paixões
como atos desta “potência”.
Avança
na ideia de que um “afeto” é uma experimentação, e este afeto
é uma sabedoria, um conhecimento. Tal conhecimento que funda o afeto
não se direciona ou provém de um “conhecimento” em sentido
estrito, mas sim um conhecimento que se mescla com o próprio afeto,
considerando que ele se materializa na união afetiva com o próprio
objeto, julgado que o objeto, na paixão, deve ser previamente
“apreendido”, e essa apreensão é o seu conhecimento. Podemos
exemplificar: a experimentação da suavidade7
da bondade divina não se deve ao conhecimento dessa bondade em
primeiro lugar, seguido pelo “amor” que se alicerça no
reconhecimento dessa bondade, mas sim a própria conjunção de uma
situação de afeto e conhecimento, concomitantes, inseparáveis.
Ainda
considerando a frase inicial de que nada há dentro de nós enquanto
intelecto que não tenha passado antes pelo sensível, pode ser
entendido em São Tomas de Aquino pela hierarquia que ele defende das
faculdades humanas, ou seja, as “sensíveis” como uma categoria
mais baixa frente as intelectivas (pois nestas estão também o
desejo). É necessário no curso do conhecimento dos homens o começo
na sensibilidade em caminho para o inteligível. Então, podemos
resumir: do sensível para o inteligível humano e deste, para Deus.
Se
São Tomas de Aquino viveu um período de transição, a psicanálise
também nasceu nesse período pelo intelecto do Dr. Sigmund Freud no
final dos anos 1800, iniciando os anos 1900 e seus acontecimentos
espetaculares como a consolidação da reunificação ou unidade de
cidades-estado em países; o desenvolvimento da ciência atestada nos
métodos científicos cartesianos, bem como um maior crítica
histórica. Freud foi o último, a começar de Copérnico, passando
por Darwin, a ferir de forma profunda o sentimento de narcisismo da
humanidade com sua revelação sobre o inconsciente, como também o
entendimento filosófico do consciente como lugar da verdade, ao
declarar que este estava no inconsciente. Se o Escolástico São
Tomas é uma luz ao seu tempo, Freud também o é no seu tempo, ao
influenciar decididamente no desenvolvimento posterior do Ocidente.
E
como não poderia deixar de ser, também estudou o “afeto” a
partir de sua participação na estrutura psíquica do sujeito.
A
partir de suas experiências vividas tanto na França como na
continuidade do estudo da histeria, seus pensamentos sobre o afeto
estão na área do metapisicológico8,
entendendo o afeto como um representante da pulsão. Portanto,
entendia o afeto somente na sua consideração sobre a pulsão 9,
considerado que, originada no “corpo”, é ligado ao aparelho
psíquico pelos seus representantes o “afeto” e a
“representação”. Considera que o afeto é uma energia e a
representação é uma ideia.
As
considerações freudianas sobre o afeto passa pela sua fundamentação
no processo cultural, tão caro a Freud, pois ele entende que para o
homem viver em sociedade, há necessidade dos mecanismos do recalque,
e este nasce exatamente na separação entre o afetivo e a
representação. Separa o que é natural e do que é cultural, ou
seja, na renúncia do que é instinto primitivo em função das
ordenações sociais.
O
afeto, se constitui então nesse modelo teórico, como a parte
energética da representação, ou seja, o que faz mover (descarga)
ou resistir. Essa descarga se orienta para dentro do corpo, de onde
surgiu. É dentro desse contexto que vislumbramos o destino das
pulsões 10.
Concluindo
Podemos
recuperar essas afirmações sobre afeto: “tocar, comover o
espírito e, por extensão, unir, fixar, restar ligado, vinculado,
grudado, também no sentido de "adoecer". Afetividade,
Afecção, onde o sujeito se fixa, onde o sujeito se liga; Impulso
do ânimo; sua manifestação. Sentimento, paixão. Amizade, amor,
simpatia”, tanto para entender São Tomas de Aquino como também os
ditames psicanalíticos, ambos no sentido de “movimento”.
Destaca-se em São Tomas a questão da apreensão do objeto (o seu
conhecimento), como também em Freud com sua pulsão, pois esta tem a
meta (ou finalidade), objeto, fonte e pressão (ou impulso), de forma
que nenhum dos dois pode mesmo desconsiderar os sentimentos, parte
fundamental de nosso consciente corporal, mas que está, podemos
dizer, também animado por uma alma, sendo que esta é plenamente
aceito em São Tomas, mas forma uma unidade com o corpo em Freud 11.
Ambos, podemos pensar, dirigem-se a controle dos afetos em suas
variadas formas, saindo do natural para o elaborado, sendo que, em
São Tomas de Aquino, do sensível animal para o intelecto e deste
para Deus, e em Freud, do natural dominado pelas forças do ID
(inconsciente) para o recalcado que permite viver em sociedade. Ambos
almejam uma situação melhor final!
1Afeto
→ Etimologia → Latim afficere, afectum[1] produzir impressão.
Composto da partícula ad = em, para; e facere = fazer, operar,
agir, produzir. (cfr. etimologia de afeto[2]).Latim affectus[2]
particípio passado do verbo afficere. Tocar, comover o espírito e,
por extensão, unir, fixar (it. attaccare = restar ligado,
vinculado, grudado), também no sentido de "adoecer".
Afetividade, Afecção, do Latim ad ficere ad actio[3], onde o
sujeito se fixa, onde o sujeito se liga. Significado: Segundo o
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa[4]: s.m. Impulso do
ânimo; sua manifestação. Sentimento, paixão. Amizade, amor,
simpatia. Adj. Dedicado, afeiçoado. Incumbido, entregue. Afeto.
Disponível em < http://onto.net.br/index.php?title=Afeto
>. Acessado em 03 de setembro de 2018.
2Aproximadamente
300 anos após a morte de São Tomas de Aquino em 07 de março de
1274, a geografia mundial já tinha sido mudada por ampliação,
abrindo novos “campos” tanto para a Igreja Missionária como
para a Exploração do capital, vitorioso com a tomada do Estado
pela burguesia, no final da Idade Média Europeia.
3No
final da Idade Média Europeia Hobbes, Maquiavel entre outros
defenderam as monarquias absolutistas . Absolutismo. Disponível em
< https://pt.wikipedia.org/wiki/Absolutismo
> . Acessado em 03 de setembro de 2018.
4Valdenses,
Albigenses entre outros.
5Concepção
Filosófica do Afeto. Disponível em <
http://www.minutopsicologia.com.br/postagens/2016/04/18/concepcao-filosofica-do-afeto/
>. Acessado em 03 de setembro de 2018.
6Ibdem.
7Em
linguagem religiosa: “ Provem e vejam como Javé é bom: feliz o
homem que nele se abriga. “ - Versículo 9 do Salmo 34(33) Bíblia
Católica Paulus. Disponivel em <
http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_PGP.HTM
>. Acessado em 03 de setembro de 2018.
8O
termo metapsicologia pode ser encarado como sinônimo de psicologia
metafísica, uma área de estudos da psicologia dedicada ao estudo
de fenômenos dos quais a chamada psicologia empírica não se
propõe a estudar, por não serem acessíveis ao conhecimento pela
experiência e que não pode ser provado pelo método científico
proposto pelo positivismo para as ciências. O termo metapsicologia,
porém, tem também um outro significado bastante específico,
associado à psicanálise. O termo foi cunhado por Freud em seus
estudos sobre as relações entre o inconsciente e a consciência
para designar um conhecimento psicológico que considere as
dimensões tópica, dinâmica e econômica do psiquismo, que se
mostram nessas relações. De maneira breve e bastante simplificada,
o aspecto tópico, dinâmico e econômico poderiam ser descritos
como, respectivamente, uma teoria dos lugares, das forças e da
energia psíquicas. Convém observar, porém, que tal teoria
dos lugares não corresponde a uma busca por localizações
físicas para os aconteceres psíquicos, mas sim de delimitar
instâncias responsáveis por diferentes funções- por vezes
conflitantes. (Grifo nosso). Metapsicologia. Disponível em <
https://pt.wikipedia.org/wiki/Metapsicologia
>. Acessado em 03 de setembro de 2018.
9Em
"Pulsões e destinos das pulsões", Freud (1915/2004)
define a pulsão como "conceito limite entre o psíquico e o
somático, como representante psíquico dos estímulos que provêm
do interior do corpo e alcançam a psique, como medida da exigência
de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação
com o corpo" (p. 148). Apud Padilha Netto, Ney Klier e Cardoso,
Marta Rezende . Sexualidade e pulsão: conceitos indissociáveis em
psicanálise. Disponível em <
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722012000300018
>. Acessado em 03 de setembro de 2018.
101-Reversão
ao seu oposto, o qual é desdobrado a partir de duas operações:
mudança da atividade para a passividade e reversão de seu
conteúdo (Exemplo: amor em ódio); 2-Retorno ao próprio eu; 3
-Recalque ; e 4-Sublimação. Oliveira, Flávia Lana Garcia de .
“Pulsões e seus destinos” (1915). Disponível em <
http://www.isepol.com/pdf/pulsoes-e-seus-destinos.pdf
> . Acessado em 03 de setembro de 2018. .
11A
Concepção Freudiana do Afeto. Disponível em <
http://www.minutopsicologia.com.br/postagens/2016/04/18/concepcao-filosofica-do-afeto/
>. Acessado em 03 de setembro de 2018.

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