sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Afetos em São Tomas de Aquina e na Psicanálise

Afeto em São Tomás de Aquino e na Psicanálise



Nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos”
(São Tomas de Aquino)


Afeto1 no pensamento de São Tomás de Aquino.
Consideramos que o ambiente de transição ocorrido nos séculos finais da chamada Idade Média europeia, vivido por São Tomas de Aquino, tenha sido um grande pano de fundo, onde era projetada de forma constante os avanços ou não da humanidade; bem como o esgotamento de modelos na Idade Média Europeia 2 tanto no campo econômico medieval, com a ascensão da burguesia em detrimento do regime monarquia e seus vassalos 3; como também no religioso, com a continuidade da fomentação das heresias 4, que gerou como resposta a Instituição dos Tribunais Inquisitoriais, os quais foram sede de importantes mudanças no cenário europeu, além de outras mudanças no cenários político e imperialismo dos reinos.
Mas existia também nesse pano de fundo a herança filosófica que não podia ser negada, além da invasão moura da parte Sul da Europa (711 – 1492), que contribuiu com as ciências e a navegação, bem como com conhecimentos que haviam sido esquecidos na Europa a partir de fontes do Leste Europeu, em particular a Grécia e outros.
É assim nesta situação que talvez tenhamos algumas luzes sobre o ardor Escolástico de São Tomas de Aquino, entendido a “Escolástica” como a união entre a razão e a fé, portanto, privilegia a razão e a vontade humana na elaboração de um avanço no pensamento filosófico cristão. Não estava só na linha platônica idealista de Santo Agostinho, mas também inspirado no ideário filosófico de Aristóteles e seu realismo. Esse ardor tanto segue no caminho da afirmação do cristianismo, como também evolui o pensamento sobre o homem e sua humanidade, com certeza, nos séculos que viriam, frente as mudanças que certamente ocorreriam, como ocorreram.
E ai, se não existe nada na nossa inteligência que não tenha passado antes pelos nossos sentidos, existe a obrigatoriedade dele de considerar o que seja os afetos.
Traçados então algumas linhas de contexto, diga-se de passagem, merecedoras de maior aprofundamento, mas voltando-nos a São Tomas de Aquino que tem em si, pelo seu estudo e capacidade de elaboração, a herança cultural-filosófica europeia que já antes tinha se esmerado no entendimento do que seja “afeto”.
O entendimento comum de afeto passava pela singularidade de ser emoções não totalmente sujeitas aos domínios da paixão, referindo-se como afeto ao sentimento existente nas relações entre as pessoas, os quais se mostram em diversas atitudes, como a bondade, a benevolência, a gratidão, ternura entre outras. É indicativa de um estado, um condição ou qualidade na qual se sofre uma ação que influencia ou modifica 5. Aristóteles chamou “de afetivas as qualidades sensíveis porque cada uma delas produz uma afeição dos sentidos” 6.
Mas, como São Tomas considera então afetos?
Primeiro, que afeto não é paixão, pois paixão exige uma mudança corporal, boa ou má julgadas assim pela regra da reta razão, mas esta o contém; segundo, que se analisa as paixões a partir da consideração de uma vida apetitiva ou afetiva, que se mostram como fatos da experiência, onde: se reconhecemos as tendência, temos ai o apetitivo; se reconhecemos o relativo comportamental ao sujeito, temos ai o afetivo. Para tanto, considera a existência das “potências especiais”, como a “potência sensitivo-afetiva”, e as paixões como atos desta “potência”.
Avança na ideia de que um “afeto” é uma experimentação, e este afeto é uma sabedoria, um conhecimento. Tal conhecimento que funda o afeto não se direciona ou provém de um “conhecimento” em sentido estrito, mas sim um conhecimento que se mescla com o próprio afeto, considerando que ele se materializa na união afetiva com o próprio objeto, julgado que o objeto, na paixão, deve ser previamente “apreendido”, e essa apreensão é o seu conhecimento. Podemos exemplificar: a experimentação da suavidade7 da bondade divina não se deve ao conhecimento dessa bondade em primeiro lugar, seguido pelo “amor” que se alicerça no reconhecimento dessa bondade, mas sim a própria conjunção de uma situação de afeto e conhecimento, concomitantes, inseparáveis.
Ainda considerando a frase inicial de que nada há dentro de nós enquanto intelecto que não tenha passado antes pelo sensível, pode ser entendido em São Tomas de Aquino pela hierarquia que ele defende das faculdades humanas, ou seja, as “sensíveis” como uma categoria mais baixa frente as intelectivas (pois nestas estão também o desejo). É necessário no curso do conhecimento dos homens o começo na sensibilidade em caminho para o inteligível. Então, podemos resumir: do sensível para o inteligível humano e deste, para Deus.
Se São Tomas de Aquino viveu um período de transição, a psicanálise também nasceu nesse período pelo intelecto do Dr. Sigmund Freud no final dos anos 1800, iniciando os anos 1900 e seus acontecimentos espetaculares como a consolidação da reunificação ou unidade de cidades-estado em países; o desenvolvimento da ciência atestada nos métodos científicos cartesianos, bem como um maior crítica histórica. Freud foi o último, a começar de Copérnico, passando por Darwin, a ferir de forma profunda o sentimento de narcisismo da humanidade com sua revelação sobre o inconsciente, como também o entendimento filosófico do consciente como lugar da verdade, ao declarar que este estava no inconsciente. Se o Escolástico São Tomas é uma luz ao seu tempo, Freud também o é no seu tempo, ao influenciar decididamente no desenvolvimento posterior do Ocidente.
E como não poderia deixar de ser, também estudou o “afeto” a partir de sua participação na estrutura psíquica do sujeito.
A partir de suas experiências vividas tanto na França como na continuidade do estudo da histeria, seus pensamentos sobre o afeto estão na área do metapisicológico8, entendendo o afeto como um representante da pulsão. Portanto, entendia o afeto somente na sua consideração sobre a pulsão 9, considerado que, originada no “corpo”, é ligado ao aparelho psíquico pelos seus representantes o “afeto” e a “representação”. Considera que o afeto é uma energia e a representação é uma ideia.
As considerações freudianas sobre o afeto passa pela sua fundamentação no processo cultural, tão caro a Freud, pois ele entende que para o homem viver em sociedade, há necessidade dos mecanismos do recalque, e este nasce exatamente na separação entre o afetivo e a representação. Separa o que é natural e do que é cultural, ou seja, na renúncia do que é instinto primitivo em função das ordenações sociais.
O afeto, se constitui então nesse modelo teórico, como a parte energética da representação, ou seja, o que faz mover (descarga) ou resistir. Essa descarga se orienta para dentro do corpo, de onde surgiu. É dentro desse contexto que vislumbramos o destino das pulsões 10.
Concluindo
Podemos recuperar essas afirmações sobre afeto: “tocar, comover o espírito e, por extensão, unir, fixar, restar ligado, vinculado, grudado, também no sentido de "adoecer". Afetividade, Afecção, onde o sujeito se fixa, onde o sujeito se liga; Impulso do ânimo; sua manifestação. Sentimento, paixão. Amizade, amor, simpatia”, tanto para entender São Tomas de Aquino como também os ditames psicanalíticos, ambos no sentido de “movimento”. Destaca-se em São Tomas a questão da apreensão do objeto (o seu conhecimento), como também em Freud com sua pulsão, pois esta tem a meta (ou finalidade), objeto, fonte e pressão (ou impulso), de forma que nenhum dos dois pode mesmo desconsiderar os sentimentos, parte fundamental de nosso consciente corporal, mas que está, podemos dizer, também animado por uma alma, sendo que esta é plenamente aceito em São Tomas, mas forma uma unidade com o corpo em Freud 11. Ambos, podemos pensar, dirigem-se a controle dos afetos em suas variadas formas, saindo do natural para o elaborado, sendo que, em São Tomas de Aquino, do sensível animal para o intelecto e deste para Deus, e em Freud, do natural dominado pelas forças do ID (inconsciente) para o recalcado que permite viver em sociedade. Ambos almejam uma situação melhor final!
1Afeto → Etimologia → Latim afficere, afectum[1] produzir impressão. Composto da partícula ad = em, para; e facere = fazer, operar, agir, produzir. (cfr. etimologia de afeto[2]).Latim affectus[2] particípio passado do verbo afficere. Tocar, comover o espírito e, por extensão, unir, fixar (it. attaccare = restar ligado, vinculado, grudado), também no sentido de "adoecer". Afetividade, Afecção, do Latim ad ficere ad actio[3], onde o sujeito se fixa, onde o sujeito se liga. Significado: Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa[4]: s.m. Impulso do ânimo; sua manifestação. Sentimento, paixão. Amizade, amor, simpatia. Adj. Dedicado, afeiçoado. Incumbido, entregue. Afeto. Disponível em < http://onto.net.br/index.php?title=Afeto >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
2Aproximadamente 300 anos após a morte de São Tomas de Aquino em 07 de março de 1274, a geografia mundial já tinha sido mudada por ampliação, abrindo novos “campos” tanto para a Igreja Missionária como para a Exploração do capital, vitorioso com a tomada do Estado pela burguesia, no final da Idade Média Europeia.
3No final da Idade Média Europeia Hobbes, Maquiavel entre outros defenderam as monarquias absolutistas . Absolutismo. Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Absolutismo > . Acessado em 03 de setembro de 2018.
4Valdenses, Albigenses entre outros.
5Concepção Filosófica do Afeto. Disponível em < http://www.minutopsicologia.com.br/postagens/2016/04/18/concepcao-filosofica-do-afeto/ >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
6Ibdem.
7Em linguagem religiosa: “ Provem e vejam como Javé é bom: feliz o homem que nele se abriga. “ - Versículo 9 do Salmo 34(33) Bíblia Católica Paulus. Disponivel em < http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_PGP.HTM >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
8O termo metapsicologia pode ser encarado como sinônimo de psicologia metafísica, uma área de estudos da psicologia dedicada ao estudo de fenômenos dos quais a chamada psicologia empírica não se propõe a estudar, por não serem acessíveis ao conhecimento pela experiência e que não pode ser provado pelo método científico proposto pelo positivismo para as ciências. O termo metapsicologia, porém, tem também um outro significado bastante específico, associado à psicanálise. O termo foi cunhado por Freud em seus estudos sobre as relações entre o inconsciente e a consciência para designar um conhecimento psicológico que considere as dimensões tópica, dinâmica e econômica do psiquismo, que se mostram nessas relações. De maneira breve e bastante simplificada, o aspecto tópico, dinâmico e econômico poderiam ser descritos como, respectivamente, uma teoria dos lugares, das forças e da energia psíquicas. Convém observar, porém, que tal teoria dos lugares não corresponde a uma busca por localizações físicas para os aconteceres psíquicos, mas sim de delimitar instâncias responsáveis por diferentes funções- por vezes conflitantes. (Grifo nosso). Metapsicologia. Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Metapsicologia >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
9Em "Pulsões e destinos das pulsões", Freud (1915/2004) define a pulsão como "conceito limite entre o psíquico e o somático, como representante psíquico dos estímulos que provêm do interior do corpo e alcançam a psique, como medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo" (p. 148). Apud Padilha Netto, Ney Klier e Cardoso, Marta Rezende . Sexualidade e pulsão: conceitos indissociáveis em psicanálise. Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722012000300018 >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
101-Reversão ao seu oposto, o qual é desdobrado a partir de duas operações: mudança da atividade para a passividade e reversão de seu conteúdo (Exemplo: amor em ódio); 2-Retorno ao próprio eu; 3 -Recalque ; e 4-Sublimação. Oliveira, Flávia Lana Garcia de . “Pulsões e seus destinos” (1915). Disponível em < http://www.isepol.com/pdf/pulsoes-e-seus-destinos.pdf > . Acessado em 03 de setembro de 2018. .
11A Concepção Freudiana do Afeto. Disponível em < http://www.minutopsicologia.com.br/postagens/2016/04/18/concepcao-filosofica-do-afeto/ >. Acessado em 03 de setembro de 2018.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Afetos em São Tomas de Aquina e na Psicanálise

Afeto em São Tomás de Aquino e na Psicanálise “ Nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos” (São Tomas ...