sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Afetos em São Tomas de Aquina e na Psicanálise

Afeto em São Tomás de Aquino e na Psicanálise



Nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos”
(São Tomas de Aquino)


Afeto1 no pensamento de São Tomás de Aquino.
Consideramos que o ambiente de transição ocorrido nos séculos finais da chamada Idade Média europeia, vivido por São Tomas de Aquino, tenha sido um grande pano de fundo, onde era projetada de forma constante os avanços ou não da humanidade; bem como o esgotamento de modelos na Idade Média Europeia 2 tanto no campo econômico medieval, com a ascensão da burguesia em detrimento do regime monarquia e seus vassalos 3; como também no religioso, com a continuidade da fomentação das heresias 4, que gerou como resposta a Instituição dos Tribunais Inquisitoriais, os quais foram sede de importantes mudanças no cenário europeu, além de outras mudanças no cenários político e imperialismo dos reinos.
Mas existia também nesse pano de fundo a herança filosófica que não podia ser negada, além da invasão moura da parte Sul da Europa (711 – 1492), que contribuiu com as ciências e a navegação, bem como com conhecimentos que haviam sido esquecidos na Europa a partir de fontes do Leste Europeu, em particular a Grécia e outros.
É assim nesta situação que talvez tenhamos algumas luzes sobre o ardor Escolástico de São Tomas de Aquino, entendido a “Escolástica” como a união entre a razão e a fé, portanto, privilegia a razão e a vontade humana na elaboração de um avanço no pensamento filosófico cristão. Não estava só na linha platônica idealista de Santo Agostinho, mas também inspirado no ideário filosófico de Aristóteles e seu realismo. Esse ardor tanto segue no caminho da afirmação do cristianismo, como também evolui o pensamento sobre o homem e sua humanidade, com certeza, nos séculos que viriam, frente as mudanças que certamente ocorreriam, como ocorreram.
E ai, se não existe nada na nossa inteligência que não tenha passado antes pelos nossos sentidos, existe a obrigatoriedade dele de considerar o que seja os afetos.
Traçados então algumas linhas de contexto, diga-se de passagem, merecedoras de maior aprofundamento, mas voltando-nos a São Tomas de Aquino que tem em si, pelo seu estudo e capacidade de elaboração, a herança cultural-filosófica europeia que já antes tinha se esmerado no entendimento do que seja “afeto”.
O entendimento comum de afeto passava pela singularidade de ser emoções não totalmente sujeitas aos domínios da paixão, referindo-se como afeto ao sentimento existente nas relações entre as pessoas, os quais se mostram em diversas atitudes, como a bondade, a benevolência, a gratidão, ternura entre outras. É indicativa de um estado, um condição ou qualidade na qual se sofre uma ação que influencia ou modifica 5. Aristóteles chamou “de afetivas as qualidades sensíveis porque cada uma delas produz uma afeição dos sentidos” 6.
Mas, como São Tomas considera então afetos?
Primeiro, que afeto não é paixão, pois paixão exige uma mudança corporal, boa ou má julgadas assim pela regra da reta razão, mas esta o contém; segundo, que se analisa as paixões a partir da consideração de uma vida apetitiva ou afetiva, que se mostram como fatos da experiência, onde: se reconhecemos as tendência, temos ai o apetitivo; se reconhecemos o relativo comportamental ao sujeito, temos ai o afetivo. Para tanto, considera a existência das “potências especiais”, como a “potência sensitivo-afetiva”, e as paixões como atos desta “potência”.
Avança na ideia de que um “afeto” é uma experimentação, e este afeto é uma sabedoria, um conhecimento. Tal conhecimento que funda o afeto não se direciona ou provém de um “conhecimento” em sentido estrito, mas sim um conhecimento que se mescla com o próprio afeto, considerando que ele se materializa na união afetiva com o próprio objeto, julgado que o objeto, na paixão, deve ser previamente “apreendido”, e essa apreensão é o seu conhecimento. Podemos exemplificar: a experimentação da suavidade7 da bondade divina não se deve ao conhecimento dessa bondade em primeiro lugar, seguido pelo “amor” que se alicerça no reconhecimento dessa bondade, mas sim a própria conjunção de uma situação de afeto e conhecimento, concomitantes, inseparáveis.
Ainda considerando a frase inicial de que nada há dentro de nós enquanto intelecto que não tenha passado antes pelo sensível, pode ser entendido em São Tomas de Aquino pela hierarquia que ele defende das faculdades humanas, ou seja, as “sensíveis” como uma categoria mais baixa frente as intelectivas (pois nestas estão também o desejo). É necessário no curso do conhecimento dos homens o começo na sensibilidade em caminho para o inteligível. Então, podemos resumir: do sensível para o inteligível humano e deste, para Deus.
Se São Tomas de Aquino viveu um período de transição, a psicanálise também nasceu nesse período pelo intelecto do Dr. Sigmund Freud no final dos anos 1800, iniciando os anos 1900 e seus acontecimentos espetaculares como a consolidação da reunificação ou unidade de cidades-estado em países; o desenvolvimento da ciência atestada nos métodos científicos cartesianos, bem como um maior crítica histórica. Freud foi o último, a começar de Copérnico, passando por Darwin, a ferir de forma profunda o sentimento de narcisismo da humanidade com sua revelação sobre o inconsciente, como também o entendimento filosófico do consciente como lugar da verdade, ao declarar que este estava no inconsciente. Se o Escolástico São Tomas é uma luz ao seu tempo, Freud também o é no seu tempo, ao influenciar decididamente no desenvolvimento posterior do Ocidente.
E como não poderia deixar de ser, também estudou o “afeto” a partir de sua participação na estrutura psíquica do sujeito.
A partir de suas experiências vividas tanto na França como na continuidade do estudo da histeria, seus pensamentos sobre o afeto estão na área do metapisicológico8, entendendo o afeto como um representante da pulsão. Portanto, entendia o afeto somente na sua consideração sobre a pulsão 9, considerado que, originada no “corpo”, é ligado ao aparelho psíquico pelos seus representantes o “afeto” e a “representação”. Considera que o afeto é uma energia e a representação é uma ideia.
As considerações freudianas sobre o afeto passa pela sua fundamentação no processo cultural, tão caro a Freud, pois ele entende que para o homem viver em sociedade, há necessidade dos mecanismos do recalque, e este nasce exatamente na separação entre o afetivo e a representação. Separa o que é natural e do que é cultural, ou seja, na renúncia do que é instinto primitivo em função das ordenações sociais.
O afeto, se constitui então nesse modelo teórico, como a parte energética da representação, ou seja, o que faz mover (descarga) ou resistir. Essa descarga se orienta para dentro do corpo, de onde surgiu. É dentro desse contexto que vislumbramos o destino das pulsões 10.
Concluindo
Podemos recuperar essas afirmações sobre afeto: “tocar, comover o espírito e, por extensão, unir, fixar, restar ligado, vinculado, grudado, também no sentido de "adoecer". Afetividade, Afecção, onde o sujeito se fixa, onde o sujeito se liga; Impulso do ânimo; sua manifestação. Sentimento, paixão. Amizade, amor, simpatia”, tanto para entender São Tomas de Aquino como também os ditames psicanalíticos, ambos no sentido de “movimento”. Destaca-se em São Tomas a questão da apreensão do objeto (o seu conhecimento), como também em Freud com sua pulsão, pois esta tem a meta (ou finalidade), objeto, fonte e pressão (ou impulso), de forma que nenhum dos dois pode mesmo desconsiderar os sentimentos, parte fundamental de nosso consciente corporal, mas que está, podemos dizer, também animado por uma alma, sendo que esta é plenamente aceito em São Tomas, mas forma uma unidade com o corpo em Freud 11. Ambos, podemos pensar, dirigem-se a controle dos afetos em suas variadas formas, saindo do natural para o elaborado, sendo que, em São Tomas de Aquino, do sensível animal para o intelecto e deste para Deus, e em Freud, do natural dominado pelas forças do ID (inconsciente) para o recalcado que permite viver em sociedade. Ambos almejam uma situação melhor final!
1Afeto → Etimologia → Latim afficere, afectum[1] produzir impressão. Composto da partícula ad = em, para; e facere = fazer, operar, agir, produzir. (cfr. etimologia de afeto[2]).Latim affectus[2] particípio passado do verbo afficere. Tocar, comover o espírito e, por extensão, unir, fixar (it. attaccare = restar ligado, vinculado, grudado), também no sentido de "adoecer". Afetividade, Afecção, do Latim ad ficere ad actio[3], onde o sujeito se fixa, onde o sujeito se liga. Significado: Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa[4]: s.m. Impulso do ânimo; sua manifestação. Sentimento, paixão. Amizade, amor, simpatia. Adj. Dedicado, afeiçoado. Incumbido, entregue. Afeto. Disponível em < http://onto.net.br/index.php?title=Afeto >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
2Aproximadamente 300 anos após a morte de São Tomas de Aquino em 07 de março de 1274, a geografia mundial já tinha sido mudada por ampliação, abrindo novos “campos” tanto para a Igreja Missionária como para a Exploração do capital, vitorioso com a tomada do Estado pela burguesia, no final da Idade Média Europeia.
3No final da Idade Média Europeia Hobbes, Maquiavel entre outros defenderam as monarquias absolutistas . Absolutismo. Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Absolutismo > . Acessado em 03 de setembro de 2018.
4Valdenses, Albigenses entre outros.
5Concepção Filosófica do Afeto. Disponível em < http://www.minutopsicologia.com.br/postagens/2016/04/18/concepcao-filosofica-do-afeto/ >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
6Ibdem.
7Em linguagem religiosa: “ Provem e vejam como Javé é bom: feliz o homem que nele se abriga. “ - Versículo 9 do Salmo 34(33) Bíblia Católica Paulus. Disponivel em < http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_PGP.HTM >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
8O termo metapsicologia pode ser encarado como sinônimo de psicologia metafísica, uma área de estudos da psicologia dedicada ao estudo de fenômenos dos quais a chamada psicologia empírica não se propõe a estudar, por não serem acessíveis ao conhecimento pela experiência e que não pode ser provado pelo método científico proposto pelo positivismo para as ciências. O termo metapsicologia, porém, tem também um outro significado bastante específico, associado à psicanálise. O termo foi cunhado por Freud em seus estudos sobre as relações entre o inconsciente e a consciência para designar um conhecimento psicológico que considere as dimensões tópica, dinâmica e econômica do psiquismo, que se mostram nessas relações. De maneira breve e bastante simplificada, o aspecto tópico, dinâmico e econômico poderiam ser descritos como, respectivamente, uma teoria dos lugares, das forças e da energia psíquicas. Convém observar, porém, que tal teoria dos lugares não corresponde a uma busca por localizações físicas para os aconteceres psíquicos, mas sim de delimitar instâncias responsáveis por diferentes funções- por vezes conflitantes. (Grifo nosso). Metapsicologia. Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Metapsicologia >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
9Em "Pulsões e destinos das pulsões", Freud (1915/2004) define a pulsão como "conceito limite entre o psíquico e o somático, como representante psíquico dos estímulos que provêm do interior do corpo e alcançam a psique, como medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo" (p. 148). Apud Padilha Netto, Ney Klier e Cardoso, Marta Rezende . Sexualidade e pulsão: conceitos indissociáveis em psicanálise. Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722012000300018 >. Acessado em 03 de setembro de 2018.
101-Reversão ao seu oposto, o qual é desdobrado a partir de duas operações: mudança da atividade para a passividade e reversão de seu conteúdo (Exemplo: amor em ódio); 2-Retorno ao próprio eu; 3 -Recalque ; e 4-Sublimação. Oliveira, Flávia Lana Garcia de . “Pulsões e seus destinos” (1915). Disponível em < http://www.isepol.com/pdf/pulsoes-e-seus-destinos.pdf > . Acessado em 03 de setembro de 2018. .
11A Concepção Freudiana do Afeto. Disponível em < http://www.minutopsicologia.com.br/postagens/2016/04/18/concepcao-filosofica-do-afeto/ >. Acessado em 03 de setembro de 2018.

Melhor Impossível - Filme


MELHOR É IMPOSSÍVEL!!! 

MESMO!!!



Ficha técnica: Título Original: As Good As It Gets (“Melhor é impossível” no Brasil).
Ano do lançamento: 1998
Produção: Estados Unidos
Direção: James L. Brooks
Roteiro: James L. Brooks e Mark Andrus
Créditos:
Jack Nicholson ... Melvin Udall
Helen Hunt ... Carol Connelly
Greg Kinnear ... Simon Bishop
Cuba Gooding Jr. ... Frank Sachs
Skeet Ulrich ... Vincent
Shirley Knight ... Beverly
Yeardley Smith ... Jackie
Lupe Ontiveros ... Nora
Jill the Dog ... Verdell (as Jill) 1


Análise:
Uma simples análise sobre os sintomas obsessivos apresentados pelo protagonista do filma, OSCAR de melhor ator 2 , sem considerar as suas questões fundadoras é um trabalho árduo, pois o filme analisado apresenta as personagens em seu estado já de ação enraizado, montado e, sim, apresenta notas de seus passados indicadoras, mas não finalizadoras.
Assim, as figuras paternas parecem se fazer presente em todas as personagens centrais: no caso da Helen (Carol Connely), a falta de um companheiro com quem possa de fato contar, se apaziguando na figura do filho, o qual ela o obrigada a abraçá-la mais do que ele gostaria; nas personagens Melvin e Simon ( Nicholson e Greg Kinnear), o pai agressivo, o primeiro por não permiti-lo errar no aprendizado de piano; o segundo, pela sua realidade homossexual.
A resolução da vida dos três, no caso da Helen, ela se dedica ao filho como se dedicaria ao pai, companheiro; tem alguma gerência pelo princípio da realidade, obrigada por ter que trabalhar e manter os cuidados com a saúde do filho, que é uma outra realidade a ser analisada, no caso, o porque de seus ataques e porque melhora quando sua mãe viaja. Recusa-se, em princípio, a viver o desejo de outro, no caso sua mãe, que tenta interferir na sua vida, ao aconselhar ou sugerir relacionamentos, não obstante ela ter uma ideia clara do que ela gostaria, e isso deixa transparecer; no caso de Melvin, ele vive suas sublimações como um escritor de livros, o qual encena seus delírios sobre os relacionamentos de outras pessoas, em particular na definição do “amor”, coisa que ele imagina, mas não tem certeza. Mas isso tem um custo que é o que foi colocado em seus entendimentos para se contrapor as suas frustrações, no caso, a sua neurose obsessiva, que em alguns momentos, assemelham-se mesmo a um estado mais ou menos “lúcido” de um autismo potencial (como nas suas repetições na rua, que estão além do que seja somente uma obsessão). E é na neurose obsessiva que ele se defende, em particular, nas atitudes de fechar sua porta; no mesmo lugar no restaurante; no uso de seus talheres. Mas essa neurose está imbricada na apresentação de sua misantropia 3 , na qual ele usa como mecanismo de defesa aliado a sua compulsão; para a personagem Simon, enfrenta a vida vivendo também de sua sublimação, no caso, de pintor. Mostra-se ainda identificado com a mãe, pois esta é a única que o responde, mesmo com medo do pai, no seu momento de necessidade, mas tem seu momento de se livrar desta simbiose, ao pintar uma “outra” mãe nua (Helen) no hotel, para onde se hospedaram quando do viagem para ajuda familiar. Essa redescoberta o livra da dependência da mãe, pois ao reafirmar sua condição, também o faz elaborar a situação que a sua vida está em suas mãos, literalmente, e com isso criar o discurso necessário para o novo enfrentamento de sua vida, começando no zero, novamente se erguendo.




A análise dos sintomas da neurose obsessiva implica no entendimento porque elas ocorrem, saindo do campo simplesmente de observação. Esse conjunto de atitudes, chamado aqui de “transtorno” dado a multiformidade de apresentação, resume-se naquilo que é colocado na nossa ação de forma enfrentar nossas frustrações sexuais e a sua “cura”, se é que isso possa existir, dá-se exatamente no entendimento do “EGO”, ou da parte “consciente” e gerenciadora do princípio da realidade, na negação de execução.
Isso acontece quando trazemos para o consciente essas realidades e suas fontes, e nos permite a elaboração de um discurso que vá responder as nossas necessidades de desejo ou lhe dar um caminho útil para isso. Helen precisa de um companheiro que a ajude no enfrentamento da realidade que lhe foi imposta; Melvin, precisa saber que seus comportamentos misantrópicos/neuróticos não o mantém afastado dos outros, mas sim os outros que se afastam dele, e isso fica bem claro quando batem palmas e se confraternizam quando Melvin é solicitado sair do restaurante, reconhecido como uma pessoa importuna e importunadora. Simon tem conhecimento, no roubo praticado por deliquentes no seu estúdio de pintura, da sua vulnerabilidade.
As mudanças começam acontecer quando a realidade se interpõe a todos: Melvin cuidar do cão de Simon enquanto ele se recupera no hospital; Helen, pelo agravamento da saúde de seu filho. Melvin que não conta mais com a presença de Helen no restaurante para lhe servir. Tudo isso permite uma “abertura” para outras realidades. É nessas aberturas é que há condição do reconhecimento das pulsões (Melvin x Helen ; Helen x Melvin), as quais vão acontecendo na medida que se diminuem ou se reconhecem as obsessões, forçando o consciente a mudança de rumos no enfrentamento da realidade: Melvin cuida e começa a amar o cão; ao cuidar da saúde do filho de Helen, se coloca no lugar dele mostrando que é assim que ele gostaria de ser tratado, com a atenção dela, primeiro no restaurante, e mas lá no fundo, no encontro…. Helen, permite uma maior abertura ao seu interior pora Melvin, aceita estar sobre sua direção na viagem, mesmo que em determinados momentos ela se vê obrigada a retomar essa direção de forma física: seja no volante, seja no restaurante onde ela não teve dele o que achava que ele queria dela, ou seja, o seu amor, não obstante ela saber que ele a deseja; Simon, se rende a ajuda dos outros, mas se recupera do seu estado de destruição quando redescobre que não precisa estar fixado somente na sua mãe: e assim, há o encontro de todos com todos, seja na transformação de Melvin que aceita Simon em sua casa, derrotando assim aspectos de sua misantropia; Helen que dirige o esforço de Melvin em se declarar a ela, mesmo que sua neurose obsessiva ainda vá precisar de mais tratos.


Não foi o amor que curou isso tudo, mas sim a abertura do consciente aos outros que permitiu isso. Mas, ao terminar os processos de “encantamento” inicial, será sim o amor que se resultará necessário a todos como forma transformadora e duradoura dos relacionamentos.


1Maiores detalhes sobre o filme e seus diversos produtores/colaboradores: disponível em < https://www.imdb.com/title/tt0119822/?fr=c2l0ZT1kZnx0dD0xfGZiPXV8cG49MHxrdz0xfHE9QXMgR29vZCBBcyBJdCBHZXRzfGZ0PTF8bXg9MjB8bG09NTAwfGNvPTF8aHRtbD0xfG5tPTE_&fc=1&ft=20&fm=1 >. Acessado em 26 de agosto de 2018.
270º OSCAR – 1998 . Disponível em < http://www.cineplayers.com/premiacao?tp=oscar&id=8 >. Acessado em 26 de agosto de 2018.
3Misantropia → Misantropia é a aversão ao ser humano e à natureza humana no geral. Também engloba uma posição de desconfiança e tendência para antipatizar com outras pessoas ou um determinado grupo de pessoas. Um misantropo é alguém que desconfia da humanidade de uma forma generalizada. A palavra vem do grego misanthropía,[1] a junção dos termos μίσος (ódio) e άνθρωπος (homem, ser humano). O termo também é aplicável a todos aqueles que se tornam isolados por causa dos sentimentos acima mencionados (de destacar o elevado grau de desconfiança que detêm pelas outras pessoas em geral). Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Misantropia >. Acessado em 26 de agosto de 2018.

O Desejo em Sartre





O Desejo em Sartre 1


«..O sábado foi feito para servir ao homem, e não o homem para servir ao sábado… “2


Sartre nos distancia das coisas nas suas reflexões sobre o em-si e o para-si, pois em sua concepção, as coisas são o em-si, ou seja, são completos tanto em sua forma como em sua destinação, não tendo mais nenhuma capacidade de evoluírem para uma outra situação que lhes caiba mudanças além daquilo a que se prestam, entendido que se remanufaturadas, novamente se encontrarão na mesma situação. Essa proposta está na convicção que as coisas que são construídas para um determinado final, são completas em si mesmo, e se relatadas suas histórias, estas se referem a como nos relacionamos com elas, ou seja, desde a preparação de seus materiais de construção até a obra final, esta marcada pelo determinismo de sua função. Um carro sempre será um carro no seu uso.
É dentro do escopo de completude que aparece a figura do para-si, ou seja, o homem é o que se busca, é seu próprio objeto final. Mas, para tanto, obrigamo-nos a acreditar que não exista nele um inatismo propriamente dito, apenas o cogito, condicionado a uma consciência não existencial 3, mas como uma página em branco onde se poderá escrever toda a sua vida e até mesmo uma página final que jamais será lida por ele mesmo.
Mas o que é o para-si e como se realiza? A construção de Sartre baseia-se em premissas, na qual se destaca a expressão de liberdade que o homem é, ou seja, o homem está fadado a liberdade exatamente porque pode e deve construir sua vida. Logo, o em-si é o quietismo, aquilo que não se movimenta; o para-si, é o voltado ao ser humano, ao seu movimento imanente, em busca do algo final a sua vida, quando então será igualado ao em-si, pois na sua morte, não lerá a sua página final de construção, ao mesmo tempo que tomará uma posição quietista, sem movimento.
A expressão que realiza tudo isso é a ação da nadificação4, ou seja, transformar as coisas a partir de nossas escolhas. Somos livres então pelas nossas escolhas, sem nenhuma regra, sem nenhum modelo preconcebido, já feito e terminado.
Mas tudo isso está diante da nossa sensação da angustia sartriana, ou seja, que nos coloca no nosso nada; e tem nesse sentido de ação exatamente o desejo, e essa nada mais é do que conceber o ter do que nos falta, não entendido nas coisas materiais imediatas, mas sim no próprio desejo de ser. Nesse aspecto, não sabemos o que queremos, mas queremos esse não saber o que é, e isso causa esse movimento em nosso ser, ou seja, queremos o nosso “ser”. A verdade de Sartre se coaduna com os objetos perdidos para sempre da psicanálise freudiana, na medida que reconhece que jamais alcançaremos esse objeto.
Portanto, o desejo em Sartre caminha no sentido do para-si e ter o desejo de si mesmo, entendido na nossa falta. Esse pensamento se reporta as suas primeiras indagações sobre a questão da essência, ou seja, se ela existe antes de nós ou se a adquirimos na nossa escritura do livro da nossa vida. Nesse aspecto, não deve ser compreendido que o ser humano é um “ser humano” porque tem ou possui “essência” da humanidade precedendo a existência, mas sim que é um ser que tem uma existência que precede a sua essência, essa formatada no decurso de nossa vida de forma individual, como uma experimentação. O desejo, portanto, é essa resposta a nossa estrutural falta, que somente se completará na nossa morte. O desejo é o que movimenta, segundo Sartre, essa busca continua. Complementando: o desejo em Sartre se define na medida que entendemos o em-si e o para-si.


O Desejo em Lacan
Pensem nas coisas do alto, e não nas coisas da terra…”5
O “cogito ergo sum”6 de Descartes modula, faz modular a existência a partir da constatação da capacidade de pensar, desejar, questionar, portanto, o sujeito existe. Mas essa existência é dependente de um princípio anterior, perfeito, Deus. O homem então é aquele que pensa Deus, pois este é o autor de toda perfeição, mesmo porque, sendo o homem imperfeito, este é subjacente ao necessário perfeito existente anteriormente, assim como o infinito existe e é antes do finito.
Essa capacidade de pensar é essencial em Sartre, retirado o inatismo recorrente, pois dela é que se formará a nossa “essência” como condição ulterior a existência, e este pensar, tanto em Descartes como em Sartre, estão no consciente, instância da verdade.
Particularmente em Sartre, também é considerado a falta como elemento ativador do desejo, ou seja, é desse desejo de ser que fundamenta o desejo e até mesmo a angústia. Esse é o ponto de contato entre Lacan e Sartre, ou seja, o desejo é o desejo de nada.
O desejo em Lacan é o desejo do nada, na falta existencial sartriana, mas mediado nas regiões do inconsciente, ou seja, Lacan usa dessa falta existencial para pontuar o sujeito do inconsciente, pois é nessa instância do psiquismo humano que se formula o desejo, as escolhas, daquilo que nos falta; o desejo Lacaniano é o desejo de “falta a ser”, o de aspirar, o do querer. Esse desejo não se consome no objeto do desejo, mas como posteriormente Lacan nos dirá, ele desliza de significante7 em significante, naquilo que nos ordena o desejo como desejo do outro, e uma vez satisfeito, terá um novo objeto, um outro em um outro, numa caminhada que não terá fim, dentro de uma concepção do devir, do que virá a seguir.
Não é difícil entrever as comunicações fundamentais que existem entre ambos, centrada na falta – falta existencial em Sartre e falta do ser em Lacan – mas entendemos que enquanto o primeiro se alinha a questão da consciência como sede da verdade, o segundo reafirma Freud, ou seja, que somos regidos pelo nosso inconsciente, sendo então que no consciente está a ocultação, a máscara. E aqui está esse fundamental entre ambos. Imaginamos, porem, que Lacan tece uma situação mais permanente, mais elaborada, a partir do nossa perda fundamental, a Coisa freudiana, que ele vai explicar como a falta não simbolizada, por isso não pode e não tem como ser dita. Em Sartre e seus pressupostos, tendo como base o consciente, podemos escrever o livro de nossa vida, ou seja, nossas escolhas – destacamos a página magnífica de Sartre sobre a escolha do outro a partir de nossa própria escolha de nós mesmos, o que nos leva a ter responsabilidade também com o outro – é nos legado a capacidade de também escrever a nossa última página, mesmo que a não leiamos. Em Lacan tudo isso é desejo do inconsciente! Lacan, mesmo considerando essa falta estrutural, como já dito, a partir de Freud, considera que nossos desejos são de satisfação imediata e pessoal, sendo que nossa civilidade está nas castrações e recalques a nós submetidas para que possamos viver em comunidade, ou seja, termos gerência do princípio da realidade. E nisso tudo sobressai a figura do nosso desejo ser o desejo do outro.
Devemos, portanto, almejar as coisas maiores a partir da nossa capacidade de elaboração do que se apresenta ao nosso desejo, e com isso caminhar na direção do dia que encerraremos o livro da vida que nos foi dado a escrever, cessando também nosso desejo!
Referências
Biblia Eletrônica Paullus. Disponível em < http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_INDEX.HTM >. Acessado em 11-07-2018.
Dos Santos, Vinicius. O desejo-de-ser e os impasses da ontologia de Sartre. Pensando – Revista de Filosofia Vol. 3, Nº 5, 2012. Disponível em < http://www.ojs.ufpi.br/index.php/pensando/article/view/605/704 >. Acessado em 06 de julho de 2018
Nadificar. Disponível em http://michaelis.uol.com.br/busca?id=qOb5p > Acessado em 11-07-2018.
Pattussi, Návia P. O significante na clínica psicanalítica. Disponível em < http://www.movimentopsicanalitico.com.br/publicacoes.php?id_pub=10&id=2 > . Acessado em 11/07/2018
Tética. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013. Disponível em < https://www.priberam.pt/dlpo/tética. Acessado em 11-07-2018.
1”Para Sartre, o cogito cartesiano é o ponto de partida necessário do estudo da realidade humana. Cumpre notar, porém, que este cogito está condicionado a uma estrutura anterior, a um cogito pre rreflexivo (a chamada “consciência não‐tética (de) si”) que, em linhas gerais, é a consciência intencional husserliana radicalmente purificada, isto é, o nada, fundamento ontológico da liberdade (cf.SARTRE, Jean-­‐Paul. L’être et le néant. Paris: Gallimard, 2007, pp. 16 e ss.). Apud Dos Santos, Vinicius. O desejo-de-ser e os impasses da ontologia de Sartre. Pensando – Revista de Filosofia Vol. 3, Nº 5, 2012. Disponível em < http://www.ojs.ufpi.br/index.php/pensando/article/view/605/704 >. Acessado em 06 de julho de 2018
2Ev. São Marcos 2,27
3“não-tética de si”, entendido filosoficamente tético como Relativo a tese, a uma afirmação teórica (ex.: termos téticos) ou que concebe algo como existente (ex.: .caráter tético de um evento). = EXISTENCIAL. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013. Disponível em < https://www.priberam.pt/dlpo/tética. Acessado em 11-07-2018.
4Conforme o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), eliminar, pela vontade da consciência, infinitas possibilidades em consequência de uma opção livre; por exemplo, quando estou à espera de uma pessoa num local público, nadifico todas as outras faces ao meu redor, pois elas não correspondem àquela que busco. Disponível em http://michaelis.uol.com.br/busca?id=qOb5p > Acessado em 11-07-2018.
5Carta de São Paulo aos Colossenses, capítulo 3, vers. 2 – Bíblia Eletrônica Paullus – Disponível em < http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_P10J.HTM > Acessado em 11/07/2018.
6Penso, logo sou (existo).
7“Elemento do discurso situável tanto ao nível consciente como inconsciente, que representa e determina o sujeito” (CHEMAMA, 2007, p.346). Na definição de Lacan, "um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante" (LACAN, 1960/1998, p.833). Apud Pattussi, Návia P. O significante na clínica psicanalítica. Disponível em < http://www.movimentopsicanalitico.com.br/publicacoes.php?id_pub=10&id=2 > . Acessado em 11/07/2018

Freud além da alma

FREUD ALÉM DA ALMA


Resumir e analisar Freud parece uma obra inatingível, pois seu universo criativo vai além de nossas simples considerações. Sua vida e sua obra confundem-se na mesma estrada, na qual o cientista ousou observar o eu inconsciente a partir de suas observações dos outros e mesmo, incrível, de si. Com certeza, não foi o caso único no mundo, mas talvez o mais famoso.



Falar da falta na condição necessária para o desejo não se explica de forma simples, pois sua construção é a própria construção do sujeito, sua subjetividade consequente, entre outros aspectos.
Somos feito na relação do outro, na relação da falta, pois só desejamos o que nos falta. Freud nasceu,cresce, militou e foi atingido pelo ambiente do anti-semitismo. Portanto, não deve haver espanto que ele tenha desejado ser a diferença em mundo onde precisava se manter, casar e produzir conhecimento. 


Mais do que ninguém ele sabe sobre o desamparo, da perda da coisa inominável, da figura do pai.
E é na análise da histeria que ele se resolve, que ele percebe as nuances vividas em uma sociedade que se achava auto-suficiente nas suas decisões, herdeira do “penso, logo existo”, na repressão aos desejos do sexo, da libido, em particular nas mulheres, essas as maiores vítimas dessa repressão. Foi sua sagacidade que observou que, se a boca não fala, o corpo se revolta. Estava ai marcado o início da psicanálise, como uma saber do mais profundo do ser humano, que é seu inconsciente, seu verdadeiro motor, a partir dos desejos incestuosos das histéricas.



O desejo, portanto, tem a relação íntima com o sujeito do inconsciente, nas suas escolhas, na busca de uma coisa perdida. Outras perdas se materializaram em sua vida, como a saída de Viena para Inglaterra, onde morre, além de parte da família nos porões do nazismo. 



Sua obra gigantesca, marcada inicialmente pela grande obra do século passado, que foi o livro A interpretação dos Sonhos, definiu e modificou o pensamento ocidental e sua influência deverá durar ainda vários séculos a frente.










Esse obscuro objeto do desejo - Filme


Esse obscuro objeto do desejo

Filme
Duração 1h 45min
Direção:
Gêneros Drama, Romance
Nacionalidades Espanha, França



Falar de Esse Obscuro Objeto do Desejo de Bunuel é entrar em um outro universo, marcado pelo surrealismo, o além do real das coisas. Não que o surrealismo seja o além do real, a loucura, mas sim que o capita a partir do inconsciente 1.
Há várias nuances do desejo mostradas nesta obra de Bunuel, aliás, seu último filme, e neste ele como que resume as ainda contradições que existem na comunidade humana, já abordadas em sua extensa obra, dando destaque para a ainda divisão entre a burguesia rica e o proletariado com notas interessantes, em particular o “não servir a esta moça (Conchita)”, quando ela se desliga do serviço de rouparia do café em que trabalhava, depois de uma reprimenda de seu “superior” hierárquico, mas que se faz reverso quando esse mesmo, em outra oportunidade, lhe oferece uma taça de champagne, pois ela está acompanhada de “pessoas ilustres”, do “bom burguês”.
Todas as personagens tem seus papeis já bem definidos a partir dessa dicotomia burguesia-proletariado, o primeiro, por já desfrutar dessa situação e com isso ter o poder do dinheiro, da corrupção moral na realização de seus desejos; o segundo, por aspirar essa condição, mesmo que com isso a prática da moral seja relevada também na realização dos seus desejos, enfim, sendo esse um ponto de contato comum.
É nessa batalha de desejos e suas repressões que se faz o desenrolar da vida, em particular com as notas acessórias introduzidas na narração, como a atividade terrorista tomada como uma imposição de uma ordem moralizante ou moralizadora, reunidas no pitoresco nome de “Grupo Armado Revolucionário do Menino Jesus”, portanto em referência a Igreja; na cena da ratoeira, da mosca no copo, ambos terminaram o gozo com a consumação do objeto, ou seja, esse gozo não será repetido: o desejo de encontrar e eliminar o rato que andava na casa – morto na ratoeira, não permitirá novamente esse gozo, pois já foi consumido; o segundo, o desejo do garçom em encontrar uma mosca, que se consumiu no copo de água e que não satisfará mais o desejo de procura de uma mosca pelo garçom – um referência mais do que implícita a sua forma de não satisfação sexual, da mesma forma que a personagem de Mathieu, que também procura um rato, uma mosca, mas não os consegue prender nas suas armadilhas e com isso consumar o seu desejo, não obstante estarem as mãos, visíveis e até tocáveis. Interessante que, do ponto de vista da burguesia 2, todos são frágeis o suficientes para serem presos em ratoeiras/armadilhas, na água e pelo dinheiro.
É nesse significante de fragilidade que Conchita se estabelece na sua aparente bipolaridade, ou seja, de um lado, a histeria manifesta no desejo de algo, mas o seu impedimento de realização, pois se satisfaz em ser reconhecida 3; de outra forma, na explosão da sensualidade agressiva, decidida, mas que se sucumbe a primeira opção, ou seja, se manter como fonte e mantenedora do desejo por se aceitar como objeto sem a sua consumação, situação perfeitamente explorada pela sua mãe, que entende a situação e não tem nenhum pejo em negociar a filha com o desejante rico. Repete provavelmente a prática de seu casamento, com um homem mantenedor que, frustrado, se suicidou, mas que sobrevive na sua esposa quando esta ainda vive seu desejo, de ser lembrado, amado, não destruído, não obstante ter falhado nessa empreitada de mantenedor por ter deixado somente dívidas e nenhuma pensão ou meio de sobrevivência da mulher. E é esse papel que aceita de Mathieu, o do mantenedor, que terá como premio uma amante arranjada, ou seja, tal como a boa educada mãe provavelmente o foi para seu marido – a boa e educada filha, que não sabe fazer nada na vida. A desculpa da mãe é de ter “uma certa educação”, ou seja, ela é burguesa no seu interior, pode se relacionar com a burguesia, é do mesmo nível e tem os mesmos desejos de uma boa vida sem trabalho!
As demais ocorrências estão relacionadas ao desejo como um desejo do nada, do impossível, da coisa perdida, pois mesmo que se volte para suas origens na tentativa de resgatar esse desejo, o término é sempre a tradição/lei que se faz presente, pois a mãe é reencontrada na Igreja e a filha, na sensualidade de mostrar seu corpo sem realizar o desejo de seus admiradores na casa de espetáculos. 4
Mas a pulsão não é satisfeita, Mathieu não pode se perder no outro que o recusa, o impede do gozo, não obstante se comprazer com os gozos parciais, de toque corporal e pela proposta de masturbação, o que resolveria parte de seus anseios. Mas, Conchita o mantém no desejo pelo desejo, não se consome, pois nas suas palavras, uma vez consumido seu desejo, ela seria esquecida, não amada, não reconhecida e também seria privada do desejo do outro. Como resultado da não satisfação plena da pulsão, esta pulsão volta-se a Mathieu com o sinal trocado e no lugar do amor, cede-lhe o ódio, quando percebe a existência de concorrência, na figura do violonista – Morenito, como também na constatação que talvez ele já seja uma árvore que já deu seus frutos. E essa imagem será usada por ela mais uma vez quando se satisfaz parcialmente com um abrigo, a casa dada por ele, ou seja, a coisa que realmente ela queria dele 5, a segurança e o desejo incestuoso não realizado.
Do relacionamento de Conchita com Mathieu, não é difícil ver as sementes originais de seus episódios histéricos, uma vez que pode se perceber a ação do desejo do incesto, na transferência para ele do seu desejo proibido em relação ao pai e ainda ser virgem – do incesto impossível; e ele com o desejo latente de desejar uma pessoa mais nova e com tudo o que isso representa.
A história é densa e de narrativa feliz, pois também se utiliza de imagens que dão uma estrutura necessária ao aspecto do surrealismo vivido por todo, ou seja, de eterealidade, de azáfama de uns na realização de seus desejos e na lentidão da negação de outros, mostrado, entre outros, na agressão satisfeita no balde água e seu retrucamento; na narrativa dentro de um trem, ou seja, no meio que leva todo mundo a um ponto, mas que tem suas idiossincrasias de manter todos na surdina quando todos atravessam os necessários túneis na vida; na violência dos desejos do nada nos atentados; nas armadilhas; na servidão sem rebeldia dos empregados e sua devoção, como também a aceitação da transgressão da Lei se isso render a realização de um desejo, como no caso do assalto na Suíça e a quase devolução do dinheiro roubado.
Na explosão final, somos desconectados da vivência deles, portanto, também somos privados do que acontece depois como também em nossas paixões perdidas, quizas tão bem identificadas nas personagens que desfilaram ante nosso entendimento.


Referências
-Significado de Surrealismo. Disponível em < https://www.significados.com.br/surrealismo/ >. Acessado em 28 de junho de 2018.
1Surrealismo foi um movimento artístico e literário de origem francesa, caracterizado pela expressão do pensamento de maneira espontânea e automática, regrada apenas pelos impulsos do subconsciente, desprezando a lógica e renegando os padrões estabelecidos de ordem moral e social. (Significado de Surrealismo - https://www.significados.com.br/surrealismo/ )
2A burguesia reconhece, julga e dá a sentença no diálogo de Mathieu com o seu primo, no julgamento do referido G.A.R.M.J.: “Mathieu: “Então, foram condenados a morte?”. Primo: “O que é que acha? O Padre apanhou 8 anos e os outros 3 . Lamentável. Mas, na minha opinião, o júri foi ameaçado.”. Mathieu: “Ameaçado por quem?”. Primo: “Pelo G.A.R.M.J., claro!”, ou seja, a Justiça agiu de forma parcial no julgamento pois foram ameaçados. Nesse ponto, também tiveram seus gozos interrompidos!!
3Quadro característico da histeria, ou seja, colocar, por conversão ao corpo, seus desejos proibidos pela castração da Lei, de forma se mostrar e se fazer sentida.
4Interessante é a referência ao turismo sexual nessa passagem.
5Que ao não permitir que ele entre na casa, também quer falar do interdito a ele ao seu corpo; para justificar o “outro” - Morenito – afirma que “ele nem gosta de mulher”, ou seja, é só a “conversão” do desejo não satisfeito.

O existencialismo é um humanismo





COMENTÁRIOS


Sartre, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Tradutora: Rita Correia Guedes. Fonte: L’Existentialisme est un Humanisme, Les Éditions Nagel, Paris, 1970
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Sartre se propõe da defender o Existencialismo de sua doutrina dos ataques do entendimento determinista, ou seja, cada um tem seu lugar na história e tudo o que faz deveria ser uma filosofia contemplativa, chamada por ele de filosofia burguesa.
Entre as críticas, aquelas que apontam nos existencialistas que levavam as pessoas ao quietismo, no enfatizar da ignomínia humana, o sórdido, o equívoco, o viscoso, das belezas ditas radiosas (como esquecer o sorriso da criança), bem como negar a solidariedade humana. Os comunistas acusam os existencialistas disso a partir do subjetivo tido no cartesianismo do penso, ou seja, do homem estar diante de sua solidão, o que impede de voltar a solidariedade. Por parte dos cristãos, o existencialismo é criticado por não reconhecer os mandamentos divinos, os quais suprimidos, levariam o homem ao anarquismo.
Defende então, nas suas pontuações, que o existencialismo é um humanismo, na medida que torna a vida humana possível e que toda a verdade, ação estão sob os domínios da subjetividade humana.
Afirma, outrossim, que comparação que se faz do existencialismo é do feio, confundindo o existencialismo com o naturalismo, o que gera uma apreensão em Sartre é porque o existencialismo assusta e escandaliza o naturalismo propriamente dito.
Resume essa parte na tentativa determinista de achar um lugar de utilidade para tudo, através de uma crítica a inovação, ou seja, tudo está destinado a seguir um preordenamento: ação não apoiada na tradição é romantismo; não apoiada na experiência, é o fracasso. Nesse aspecto, os detratores do existencialismo são os mesmos que se deleitam com a perversidade.
No seu intento de dar uma face verdadeira ao existencialismo, considera o fato de todos que se declaram existencialistas teriam dificuldades de explicar o que realmente isso é. Lembram que existem os “existencialistas “ cristãos e os ateus, amarrados somente pelo fato de entenderem a existência precedente a essência.
Para explicar a questão do existencialismo, parte de pensamentos deterministas, a partir da metáfora do livro e do corta papel: feitos a partir de uma receita e com finalidades definidas. Ambos são objetos com fins bem definidos. Imaginando que fossem esses objetos construídos sem saber de sua destinação, ter-se-á de admitir que a essência precede a existência, tanto quanto o determinismo dirigido ao livro e ao corta papel nas suas e únicas funções.
Sartre se posiciona contra a “essência” preceder a “existência”, ou seja, exatamente pelo seu inverso, significando que o homem existe e encontra-se consigo mesmo, nasce ou surge no mundo e só posteriormente se define, portanto, não é definível anteriormente, a não ser depois de constituir no que ele fizer a si mesmo.
Ao entender que existe duas classes distintas de existencialistas, declarados como cristãos ou ateus, reunidos sob um princípio comum de o existir preceder a essência, deve ser entendido que o homem não é um projeto pensado, mas estruturados depois com nossa ação, ou seja, primeiro existimos, depois nos definimos em nossa “essência”, mas criticando o existencialismo cristão, pois este ao admitir um princípio Criador (Deus), é identificado que sua vontade é a regente da vida do ser humano, pois Deus tem ciência do que cria e como será, ou seja, a essência precederá a existência. Mesmo entre o ateus filósofos do século XVII, que mesmo suprimindo Deus de suas considerações, continuam defendendo a “essência” antes da existência na concepção da ideia de uma “natureza humana”.
Sartre então se posiciona como um existencialista mais coerente, ou seja, se Deus não existe, questiona se pelo menos deveria existir um ser no qual a existência precede a essência, um não conceituável. Seria esse o homem ou sua realidade humana? (cita Heidegger). Entende também a precedência da existência sobre a essência, esta emulada a partir de surgir e depois se definir no mundo. O homem assim entendido pelo existencialismo não foi definido, pois primeiro nada é; só depois se constituirá pela descoberta e definições. Portanto, como não há Deus para o conceber, assim também não é existe a chamada natureza humana. O homem, por fim, se descobre depois da existência.
Princípios do existencialismo:
A Subjetividade, ou seja, a opção da escolha. Nessa ação de escolha, o homem também se escolhe.
O homem primeiro existe, lançando-se depois para um futuro, sendo antes de tudo, um projeto que se desenrola no subjetivo, no lugar de ser qualquer outra coisa. Será o que projetar, imaginar ser, não o que ele quer, pois, aquilo que se chama de de querer é , na verdade, uma decisão do seu consciente, posterizado para aquilo que ele próprio laborou. Pode querer tudo na vida (escrever, casar, etc..), mas isso é o reflexo acontecido de escolhas mais primitivas daquilo que entendemos por vontade, tornando-o, pois, na existência que precede a essência, responsabilizado por aquilo que é; conduz ao entendimento, portanto, que o primeiro ato do existencialismo é por o homem no domínio daquilo que ele é e lhe atribuir toda a responsabilidade existencial e de todos os homens.
O exercício da subjetividade agasalha duas direções: a escolha do sujeito individual e a impossibilidade de superação da subjetividade humana, pois o homem ao se escolher, também escolhe todos os outros homens.
As nossa atitudes de criar o homem que desejamos ser constituídos, também criará a imagem do homem que deve ser, idealizado, pois as nossas escolhas nesse ou naquele sentido afirma-se o valor do que foi escolhido, pois não podemos escolher o mal, mas sim sempre o bem. Isso cria o valor de juízo de que, o que é bom para nós, necessariamente deverá ser bom também para os demais. Isso nos afirma na responsabilidade muito maior do que poderíamos imaginar, pois envolve toda a espécie. Essa responsabilidade tem o poder de agasalhar angústias, desesperos, abandonos, no momento que nos descobrimos na existência no mundo; mas isso não se traduz que todos vivam assim em angústias, pois se valem da crença de que nessa ação só há convolução de si próprios, justificados também na crença que nem todo mundo age assim, entendida pelo filósofo como uma atitude de má-fé, pois o que está em jogo é o fato de se todo mundo agisse assim. Esse ato de mentir traduz o não estar a vontade com a sua própria consciência, mesmo porque o mentir se atribuiu pela sua própria escolha. Questiona também o direito de imposição de valores, concepções pessoais a todos os outros, na tentativa de exercer o direito de guiar toda a humanidade a partir de seus próprios atos. Conclui que isso é angústia, a responsabilidade transcendida do eu para o todo. A inatividade, portanto, é impedida pela angústia que se torna a própria condição da ação, orientada por muitas possibilidades, e, quando uma dessas possibilidades é a escolhida, cria-se o seu senso de valor exatamente porque foi escolhida.
Lembra que o homem está abandonado por não tem em si ou fora dele o que se apegar; o existencialismo jamais se utilizará da ação do impulso ou paixão como desculpa para nossas atitudes, pois somos responsáveis por todos, bem esse mesmo existencialista pensará que o homem pose se orientar por sinais existentes na terra, pois esse homem subjetivamente interpretará o sinal como bem quiser. Então, afirma que a doutrina existencialista só reconhece a realidade da ação, não do quietismo.
Vivência
O homem é seu projeto e só existirá mediante essa realização de projeto, portanto, resumindo-se ao conjunto dos seus atos. Podemos continuar então entendendo que o homem só o é em razão do que realiza, responsável por si mesmo, se é heroi ou covarde, um gênio ou um medíocre, isso tudo decorre na medida que sua essência se constitui depois da existência, pois mesmo que ele se deixei ao léu, isso também é uma escolha. Então, não é o existencialismo um pensamento pessimista, muito pelo contrário, pois afirma que o destino dos homens está nas suas próprias mãos.
O existencialismo se confunde com a subjetividade do indivíduo, pois esta a precede. É o existencialismo um ensino que tem suas bases na verdade, mantendo-se realista ante pensamentos utópicos, bonitos, esperançosos sem uma base real. Concorda com o cogito como existência. Portanto, todos os ensinos que colocam o homem além do mundo de realidades, faz desaparecer a verdade, pois é através do pensar, do cogitar, que nos descobrimos o nosso próprio eu como também os demais. E essa descoberta do nosso eu próprio é refletida da face do outro, levando-nos ao entendimento que a nossa condição de existência passa pela condição de existência do outro. Portanto, nosso real não é nada se ele for conhecido pelo outro como tal. Descobrindo-nos, descobrimos o outro.
Por fim, a grande afirmação de Sartre aos deterministas: o existencialismo é um humanismo. Explica isso pela constatação que o homem sempre está fora de si mesmo, projetando-se ou perdendo-se fora de si que é capaz de existir esse homem. Não há outro universo, do que o humano, o universo da subjetividade, pois ao existir, o homem induz a existência do outro em uma dependência entre todos, condição necessária que também induz o homem e não o permite fechar-se em si mesmo, mas fazendo-se presente no viver humano, no universo existencialista.

Afetos em São Tomas de Aquina e na Psicanálise

Afeto em São Tomás de Aquino e na Psicanálise “ Nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos” (São Tomas ...