Complexo
de Édipo da Psicanálise?
Está
dito que a psicanalise faz a mediação entre o sujeito com seus
desejos (satisfação) e as barreiras que existem nesse ínterim, as
quais são impeditivos dessa realização. Está calcada na
observação, e tem como bases o inconsciente, o recalque, tudo isso
como novidade de um saber que, ainda hoje, e acusado de fraude ou
mesmo inutilidade, a vista de um sentimento que o “cientificismo”
não pode prová-la, repeti-la em laboratório, controlar suas
observações. Como resultado de não ser reconhecida como ciência,
tem seus domínios – e são muitos!- frequentemente citados por
outros mais “reconhecidos” na ciência, como é o caso da
Psicologia. Lembramos que não temos no Brasil uma graduação em
Psicanálise, mas sim em Psicologia. Voltaremos a esse tema abaixo.
O
que se percebe, a partir do movimento filosófico de Locke, Hobbes e
Condillac, em particular desse último, é que não existem sistemas
inatos, mas sim, na natureza e esses são observáveis, atendidos e
pensados, gerando conhecimento, informação, as quais uma vez esses
sistemas serem tomados como consciência, são passados aos outros.
Freud
ao observar a questão da histeria, aqui em poucas palavras, entendeu
que ela era proveniente de outras realidade que não a de ter um
órgão próprio que a causasse, inobstante deixar muitos
acontecimentos no corpo, como paralisias: era de ordem psicológica,
não física como era entendido então. Esses processos o levaram a
questionar uma situação inconsciente, fora do controle, tendo como
causas forças ou sensações até então não compreendidas ou
sistematizadas. Mas esse era o problema: onde encontrar a região
corporal que esse inconsciente jaz, dorme, age?
Não
é preciso muitas observações, retenções ou ilações para
entender que, desde o seu nascimento, a psicanálise já se
encontrava em rota de choque com os conceitos e princípios da época,
do positivismo das coisas, do materialismo científico reinante! Não
é surpresa então a apresentação de um Projeto Para uma Psicologia
Científica, de 1895, título esse que, podemos entender, já tem uma
ambiguidade no nome → Psicologia Científica, na certeza de que se
trata dos estados e processos mentais, do comportamento do ser humano
e de suas interações com um ambiente físico e social, portanto
considerando que
...
a psicologia buscou na teoria positivista respaldo para afirmar sua
cientificidade. Wundt foi o fundador do primeiro laboratório de
Psicologia, em 1879. Devido à fundação desse laboratório, a
Psicologia tornou-se ciência, pois passou a realizar experiências
de acordo com os critérios comtianos. O experimento de Wundt com o
metrônomo, tendo como método científico a introspecção
analítica, mostrou a possibilidade de se descrever as impressões
psicológicas ligadas aos estímulos externos. Assim, ficou
demonstrado por ele que as sensações cotidianas poderiam ser
recriadas em laboratório seguindo os critérios da ciência
positivista.(1)
dando
a entender que a psicologia ainda lutava por esse reconhecimento na
época da publicação do Projeto de Freud. Mas aqui somos obrigados
a fazer uma ressalva: o que era estudado na Psicologia como
comportamento, não o era por Freud, tendo ele intuições diferentes
sobre o assunto em particular, a histeria. O que se enfatiza aqui é
a necessidade desse reconhecimento por parte da ciência positivista.
E foi nessa direção que Freud materializa as sensações na sua
descrição de como funciona o sistema nervoso até a produção de
produtos “conscientes”, ou seja, dos qualitativos.
A
caminhada da psicanálise foi a de uma ciência, com a apresentação
de seus fundamentos, e entre eles o do Complexo de Édipo,
fundamental na Psicanálise, o qual, em pequeno resumo, trata das
disputas entre a criança a figura parental do mesmo sexo pelo amor
da figura parental do sexo oposto. Quando a criança nasce, depende
totalmente das figuras parentais, em uma relação de fusão, sendo
que os pais lhes garante as satisfações de gozo. Portanto, nessa
relação triangular de sujeitos, a criança imagina nos pais sua
extensão de satisfação, até que ela começa a perceber que a
história não é bem assim, que existe um compromisso maior entre os
pais entre si do que para ela, ou seja, já não é mais o centro da
situação. Essa diminuição do “amor” dos pais em relação a
criança, toma o caminho dela culpar o progenitor do mesmo sexo como
culpado por esse afastamento deles em relação a ela, essa não
exclusividade com ela do “amor”. A relação da criança com o
progenitor do mesmo sexo terá então duas dimensões, ou seja, do
ódio, pois ele lhe priva ou toma o amor do progenitor do outro sexo;
de amor, pois ele quer ser igual ou ter os mesmos acessos que o
progenitor do mesmo sexo tem com o outro não do mesmo sexo. Essa
relação termina com a frustração do Édipo, quando o progenitor
do mesmo sexo firma sua, digamos, autoridade em relação ao
progenitor do sexo diferente.
Sem
forçar além dos limites da razoabilidade, inobstante Freud
inaugurar um mundo novo com a sua Psicanálise, esta na sua infância
teve que ver no positivismo científico de então a sua extensão
para promover suas satisfações. Mas, no desenvolvimento natural do
processo, ou dessa infância, foi-se percebendo que algo de ente
estava além disso, era uma metapsicologia (2), ou seja, havia
fenômenos que não podiam ser descritos ou observado a luz do
empirismo. Portanto, pode parecer estranho, mas a Psicanálise passa
por processos Edipianos semelhantes ao desenvolvimento do sujeito,
com todas as suas frustrações, em uma relação de amor e ódio com
o positivismo, seja por odiá-lo no não reconhecimento imediato como
ciência, seja no amor por ver nele a chance de ser reconhecida como
ciência. Mas a Psicanálise teve seu Édipo completado, tornando-se
adulta e com sua ação modificou todo o pensamento ocidental, ao
questionar o papel da moral e do sexo na nossa cultura. Entre as
frustrações, está a acusação do “machismo” de Freud em suas
posição de “falocentrismo”, inobstante essa ser uma das coisas
mais facilmente observáveis no nosso comportamento humano. Essa
realidade “falocêntrica” teve seus percalços até com Lacan
(3), considerado seu mais importante seguidor, título não
totalmente aceito pela comunidade psicanálitica.
Mas,
para que serve mesmo a Psicanálise?
Várias
respostas podem ser dadas, mas a fundamental parece ser a do
“conhece-te a ti mesmo!”. Esse aforismo grego, atribuído a Tales
de Milleto, trás presente a nossa necessidade de responder o que
somos, e a psicanálise ajuda a partir do entendimento de nossa
estrutura. Somos filhos do meio que vivemos, por isso, pode-se
afirmar que a psicanalise “ é entendida como experiência da
relação do sujeito com o próprio desejo e com as barreiras que
separam um do outro.” Há mais entendimentos? Sim, mas eles
fatalmente irão caminhar para o auto-conhecimento, condição
essencial na mudança do discurso, do comportamento.
Portanto,
as relações da psicanálise com o mundo, em particular com o
empirismo, são tumultuadas a vista do arcabouço de sua construção
que admite fatos que estão além da nossa experiência comum. Mas,
não seria isso também, o que acontece com a experiência positiva
das religiões, ou seja, também não podendo ser demonstradas,
apenas cridas? Ou mesmo da física quântica teórica, que apresenta
uma aparente irracionalidade chamada de “ princípio da incerteza”?
A psicanalise já foi chamada de heresia (4) e, portanto, comparada
obrigatoriamente a religião, exatamente por que menciona e comenta a
origem das religiões, chamando-as mesmo de “ilusão”. Mas isso
está dentro do espírito materialista, que não concebe outra forma
do fenômeno além de sua filiação natural… mas é obrigada ao
entendimento que tem algo além dessa normalidade na ação do
sujeito. Portanto, existe uma ambiguidade nisso, uma vez que a
Psicanálise tem a ordem da pesquisa da ciência, mas trata de
assuntos que não podem ser evocados em um laboratório. Nesse
aspecto, “..Uma psicanálise se compreende como uma experiência do
sujeito, na qual os conceitos servem para articular um fenômeno que
não é da ordem das ciências naturais ou formais”.
Mas,
então, o porque o cientificismo de Freud e do seu considerado maior
discípulo Lacan?
A
resposta naturalmente repousa no fato de que, a priori, os dois, em
particular e primeiramente Freud, são pesquisadores, e no espírito
materialista (e mecanicista), os fenômenos tem que estar obrigados a
causas naturais, não sobrenaturais e devem ser procurados na
natureza. E somos sujeitos naturais, completos. Por outro lado, Freud
como qualquer criança, aqui considerado seus estudos iniciais,
procuram ser reconhecidas e aprovada pelas suas figuras parentais, no
caso, representadas pelo materialismo de então, o qual, estabelecido
regras, define o “científico”, a “coisa” científica. E,
como já dito, isso deve ter sito tomado como uma extensão natural
da psicanalise, pois o método científico, como os pais, seria os
seus alimentadores, seus cuidadores e guias.
Nesse
aspecto, confundimos aqui o trânsito do Édipo, pois a psicanálise
não teria que se apropriar de suas próprias descobertas? A única
contestação aqui são as datas que tanto o anuncio de Freud como
sua exposição do Édipo serem distintas, e o último posterior, mas
deve ser lembrado que Freud não criou o Édipo, apenas o observou,
revelou-o, ou seja, o Édipo é atemporal a história humana e a
própria psicanálise.
Mas
outro fator, e lembrando a própria personalidade de Freud e seu
narcisismo, seus desentendimentos com colaboradores e a mão firme
com que conduzia o processo, a questão da procura da cientificidade
na Psicanalise também pode ser entendida como jogo do saber, do
poder, como bem lembra Foucault. Mas isso também não é um jogo do
Édipo, ou seja, quem vai ficar com o objeto de gozo?
Ai
nem mesmo interessaria a lembrança de Heidegger de que a exatidão
matemática são magnificados em relação ao que representam nas
dimensões espaço-tempo, para que sejam representadas como processos
naturais, através da mediação do número e do cálculo. Mas não é
esse o seu caráter de investigação da natureza, ou seja, contar
exatamente, mas se mostra assim ou dessa forma, pois sua
correspondência aos objetos tem a marca da exatidão e essa
delimitaria sua observação da natureza. Já as ciências das coisas
vivas são rigorosas exatamente por serem inexatas, para justificar a
situação que Psicanálise suscita quando não pode ser examinada a
luz laboratorial.
Concluiremos
da seguinte forma, aproveitando um nome muito importante na ciência.
O Dr. Stephen Hauking, propõe no seu livro “O universo em uma
casca de noz” uma solução intrigante para uma questão real
observada pela ciência: não existe no universo matéria suficiente
que justifique o efeito gravitacional observado nele, ou seja, a
trama tempo-espaço sofre uma modificação maior do que seria
esperado. Teoriza o eminente cientista que existe o paralelismo na
criação, ou seja, há outros universos (ou Branas ), as quais
influenciam gravitacionalmente nossa realidade aparente, suprindo
essa falta de matéria mas que dificilmente isso será observável,
apenas deduzido (5). É uma boa metáfora para entender a
psicanálise, pois a formulação teórica funciona desse jeito, ou
seja, não podemos negar a histeria, as neuroses outras como os
“TOC”, fobias, fixações, isso dentro do nossa realidade
aparente, mas precisamos de um arcabouço pensado de como isso
funciona ou surge e que não pode ser visto, tocado ou evocado
materialmente! Também a psicanálise nos permite observar o mundo a
nossa volta e entender os processos que levam ou não o homem a ser
um ser civilizado. Entende os processos de todos os transtornos, o
mal-estar geral da civilização.
Além
disso tudo, sofre a psicanálise com a não distinção de ser uma
graduação nas faculdades, relegada a apêndices dos departamentos
de Filosofia ou Psicologia. Mas, por que? Se ensinam teoria das
cordas que ainda não podem ser observadas ou medidas com rigor
cientifico, por que não estudar ou ensinar sobre o inconsciente,
Totem e Tabu, que entendemos estar no mesmo barco do conhecimento,
igualados pela sua incapacidade de se deixar observar em ambientes
controlados?
Uma
coisa pode ser dita disso tudo e sem nenhuma dúvida ou medo: A
academia sempre tenderá a não conceder esse status a Psicanálise
exatamente por que é a própria psicanálise que, diante de sua
história, se autoriza, não a instituição. Em outras palavras: é
o psicanalista que se autoriza, que estuda, que é analisado! Não
depende dessa autorização formal da Academia, portanto, será muito
difícil a academia ensinar, como em uma graduação, um saber, que
não depende da sua autorização para que ele se formalize.
Por
fim, ninguém é obrigado a crer no movimento psicanalítico, por
essa ou por qualquer outra razão: mas se a psicanálise permite ou
provoca condições do auto-conhecimento, da diminuição do
sofrimento humano, do resgate da pulsão de vida em substituição ou
minoração a pulsão de morte, pouco importa se ela é um placebo ou
não, pois ela é vitoriosa onde nenhum remédio consegue resolver!!!
NOTAS:
1.
Vaz, Michel. A psicologia enquanto ciência. Disponível em <
http://www.psicologiamsn.com/2013/02/a-psicologia-enquanto-ciencia.html
>. Acessado em 03 de março de 2018.
2.
Metapsicologia. O termo metapsicologia pode ser encarado como
sinônimo de psicologia metafísica, uma área de estudos da
psicologia dedicada ao estudo de fenômenos dos quais a chamada
psicologia empírica não se propõe a estudar, por não serem
acessíveis ao conhecimento pela experiência e que não pode ser
provado pelo método científico proposto pelo positivismo para as
ciências. O termo metapsicologia, porém, tem também um outro
significado bastante específico, associado à psicanálise. O termo
foi cunhado por Freud em seus estudos sobre as relações entre o
inconsciente e a consciência para designar um conhecimento
psicológico que considere as dimensões tópica, dinâmica e
econômica do psiquismo, que se mostram nessas relações.
De
maneira breve e bastante simplificada, o aspecto tópico, dinâmico e
econômico poderiam ser descritos como, respectivamente, uma teoria
dos lugares¹, das forças e da energia psíquicas.
¹Convém
observar, porém, que tal teoria dos lugares não corresponde a uma
busca por localizações físicas para os aconteceres psíquicos, mas
sim de delimitar instâncias responsáveis por diferentes funções-
por vezes conflitantes. Disponível em <
https://pt.wikipedia.org/wiki/Metapsicologia
>. Acessado em 04 de março de 2018.
3.
O origem do Mundo foi um quadro pintado com um tema de mostrar o
“sexo” feminino em sua forma mais dura, realista. Depois de
várias contratempos (roubos e recuperação), foi comprada pro
Lacan,“ que por sua crueza, foi escondido sob uma pintura de
madeira do seu cunhado André Masson. “ em sua casa de campo.
Observe-se que inobstante a pintura não tratar-se do falo, trata da
questão da castração, ou seja, quando o menino observa que a mãe
não tem o seu falo, lhe arremete o medo de perder o seu! Mais
detalhes sobre a pintura em L'Origine
du monde. Disponível
em < https://pt.wikipedia.org/wiki/L%27Origine_du_monde
>. Acessado em 05 de março de 2018.
4.
Araujo,Ricardo Torri de. Deus analisado: os católicos e Freud. A
recepção da crítica freudiana da crença religiosa pela Igreja
Católica. Disponível em <
http://teopsic.psicologia.ufrj.br/arquivos/documentos/91E114F55F1BD63B04E41A8ABEA7F0E6.pdf
>. Acessado em 05 de março de 2018.
5.
Capítulo 7º: ... “Ao contrário, à distâncias menores que a
separação entre as membranas, a gravidade variaria mais
rapidamente. As minúsculas forças gravitacionais entre objetos
pesados foram medidas com precisão no laboratório, porém, ainda
não se detectaram efeitos atribuíveis à existência de membranas
separadas menos de uns poucos milímetros. Atualmente, efetuam-se
medições a distâncias mais curtas. Nesta interpretação,
viveríamos em uma membrana, mas haveria outra membrana «sombra» em
suas proximidades. Como a luz estaria confinada nas membranas e não
se propagaria no espaço entre elas, não veríamos o universo
«sombra», mas notaríamos a influência gravitacional de sua
matéria. Em nossa membrana, pareceria que tal influência é devida
a fontes realmente «obscuras», no sentido de que a única maneira
de detectar seria através de sua gravidade. De fato, para explicar a
velocidade com que as estrelas giram ao redor do centro de nossa
galáxia, deveria haver muito mais massa que a correspondente à
matéria que observamos. A massa que falta poderia proceder de
algumas espécies exóticas de partículas, como as WIMP (weakly
interacting massive particles) partículas volumosas interagindo
debilmente ou axiones (partículas elementares muito ligeiras). Mas,
também poderia constituir um indício da existência de um universo
sombra que contivera matéria —e, possivelmente, humanos
tridimensionais que se perguntam pela massa que parece faltar em seu
universo para explicar as órbitas das estrelas sombras ao redor do
centro da galáxia sombra. Hauking, Stephen. O universo em uma casca
de noz. Disponível em <
http://lelivros.love/book/download-o-universo-numa-casca-de-noz-stephen-hawking-em-epub-mobi-e-pdf/
> , acessado em 05 de março de 2018.
REFERÊNCIAS:
-Araujo,Ricardo
Torri de. Deus analisado: os católicos e Freud. A recepção da
crítica freudiana da crença religiosa pela Igreja Católica.
Disponível em <
http://teopsic.psicologia.ufrj.br/arquivos/documentos/91E114F55F1BD63B04E41A8ABEA7F0E6.pdf
>. Acessado em 05 de março de 2018.
-Hauking,
Stephen. O universo em uma casca de noz. Disponível em <
http://lelivros.love/book/download-o-universo-numa-casca-de-noz-stephen-hawking-em-epub-mobi-e-pdf/
> , acessado em 05 de março de 2018.
-L'Origine
du monde. Disponível em <
https://pt.wikipedia.org/wiki/L%27Origine_du_monde >. Acessado em
05 de março de 2018.
-Metapsicologia.
Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Metapsicologia >.
Acessado em 04 de março de 2018.
-Vaz,
Michel. A psicologia enquanto ciência. Disponível em <
http://www.psicologiamsn.com/2013/02/a-psicologia-enquanto-ciencia.html
>. Acessado em 03 de março de 2018.
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