sexta-feira, 4 de maio de 2018

Complexo de Édipo da Psicanálise?


Complexo de Édipo da Psicanálise?


Está dito que a psicanalise faz a mediação entre o sujeito com seus desejos (satisfação) e as barreiras que existem nesse ínterim, as quais são impeditivos dessa realização. Está calcada na observação, e tem como bases o inconsciente, o recalque, tudo isso como novidade de um saber que, ainda hoje, e acusado de fraude ou mesmo inutilidade, a vista de um sentimento que o “cientificismo” não pode prová-la, repeti-la em laboratório, controlar suas observações. Como resultado de não ser reconhecida como ciência, tem seus domínios – e são muitos!- frequentemente citados por outros mais “reconhecidos” na ciência, como é o caso da Psicologia. Lembramos que não temos no Brasil uma graduação em Psicanálise, mas sim em Psicologia. Voltaremos a esse tema abaixo.
O que se percebe, a partir do movimento filosófico de Locke, Hobbes e Condillac, em particular desse último, é que não existem sistemas inatos, mas sim, na natureza e esses são observáveis, atendidos e pensados, gerando conhecimento, informação, as quais uma vez esses sistemas serem tomados como consciência, são passados aos outros.
Freud ao observar a questão da histeria, aqui em poucas palavras, entendeu que ela era proveniente de outras realidade que não a de ter um órgão próprio que a causasse, inobstante deixar muitos acontecimentos no corpo, como paralisias: era de ordem psicológica, não física como era entendido então. Esses processos o levaram a questionar uma situação inconsciente, fora do controle, tendo como causas forças ou sensações até então não compreendidas ou sistematizadas. Mas esse era o problema: onde encontrar a região corporal que esse inconsciente jaz, dorme, age?
Não é preciso muitas observações, retenções ou ilações para entender que, desde o seu nascimento, a psicanálise já se encontrava em rota de choque com os conceitos e princípios da época, do positivismo das coisas, do materialismo científico reinante! Não é surpresa então a apresentação de um Projeto Para uma Psicologia Científica, de 1895, título esse que, podemos entender, já tem uma ambiguidade no nome → Psicologia Científica, na certeza de que se trata dos estados e processos mentais, do comportamento do ser humano e de suas interações com um ambiente físico e social, portanto considerando que
... a psicologia buscou na teoria positivista respaldo para afirmar sua cientificidade. Wundt foi o fundador do primeiro laboratório de Psicologia, em 1879. Devido à fundação desse laboratório, a Psicologia tornou-se ciência, pois passou a realizar experiências de acordo com os critérios comtianos. O experimento de Wundt com o metrônomo, tendo como método científico a introspecção analítica, mostrou a possibilidade de se descrever as impressões psicológicas ligadas aos estímulos externos. Assim, ficou demonstrado por ele que as sensações cotidianas poderiam ser recriadas em laboratório seguindo os critérios da ciência positivista.(1)
dando a entender que a psicologia ainda lutava por esse reconhecimento na época da publicação do Projeto de Freud. Mas aqui somos obrigados a fazer uma ressalva: o que era estudado na Psicologia como comportamento, não o era por Freud, tendo ele intuições diferentes sobre o assunto em particular, a histeria. O que se enfatiza aqui é a necessidade desse reconhecimento por parte da ciência positivista. E foi nessa direção que Freud materializa as sensações na sua descrição de como funciona o sistema nervoso até a produção de produtos “conscientes”, ou seja, dos qualitativos.
A caminhada da psicanálise foi a de uma ciência, com a apresentação de seus fundamentos, e entre eles o do Complexo de Édipo, fundamental na Psicanálise, o qual, em pequeno resumo, trata das disputas entre a criança a figura parental do mesmo sexo pelo amor da figura parental do sexo oposto. Quando a criança nasce, depende totalmente das figuras parentais, em uma relação de fusão, sendo que os pais lhes garante as satisfações de gozo. Portanto, nessa relação triangular de sujeitos, a criança imagina nos pais sua extensão de satisfação, até que ela começa a perceber que a história não é bem assim, que existe um compromisso maior entre os pais entre si do que para ela, ou seja, já não é mais o centro da situação. Essa diminuição do “amor” dos pais em relação a criança, toma o caminho dela culpar o progenitor do mesmo sexo como culpado por esse afastamento deles em relação a ela, essa não exclusividade com ela do “amor”. A relação da criança com o progenitor do mesmo sexo terá então duas dimensões, ou seja, do ódio, pois ele lhe priva ou toma o amor do progenitor do outro sexo; de amor, pois ele quer ser igual ou ter os mesmos acessos que o progenitor do mesmo sexo tem com o outro não do mesmo sexo. Essa relação termina com a frustração do Édipo, quando o progenitor do mesmo sexo firma sua, digamos, autoridade em relação ao progenitor do sexo diferente.
Sem forçar além dos limites da razoabilidade, inobstante Freud inaugurar um mundo novo com a sua Psicanálise, esta na sua infância teve que ver no positivismo científico de então a sua extensão para promover suas satisfações. Mas, no desenvolvimento natural do processo, ou dessa infância, foi-se percebendo que algo de ente estava além disso, era uma metapsicologia (2), ou seja, havia fenômenos que não podiam ser descritos ou observado a luz do empirismo. Portanto, pode parecer estranho, mas a Psicanálise passa por processos Edipianos semelhantes ao desenvolvimento do sujeito, com todas as suas frustrações, em uma relação de amor e ódio com o positivismo, seja por odiá-lo no não reconhecimento imediato como ciência, seja no amor por ver nele a chance de ser reconhecida como ciência. Mas a Psicanálise teve seu Édipo completado, tornando-se adulta e com sua ação modificou todo o pensamento ocidental, ao questionar o papel da moral e do sexo na nossa cultura. Entre as frustrações, está a acusação do “machismo” de Freud em suas posição de “falocentrismo”, inobstante essa ser uma das coisas mais facilmente observáveis no nosso comportamento humano. Essa realidade “falocêntrica” teve seus percalços até com Lacan (3), considerado seu mais importante seguidor, título não totalmente aceito pela comunidade psicanálitica.
Mas, para que serve mesmo a Psicanálise?
Várias respostas podem ser dadas, mas a fundamental parece ser a do “conhece-te a ti mesmo!”. Esse aforismo grego, atribuído a Tales de Milleto, trás presente a nossa necessidade de responder o que somos, e a psicanálise ajuda a partir do entendimento de nossa estrutura. Somos filhos do meio que vivemos, por isso, pode-se afirmar que a psicanalise “ é entendida como experiência da relação do sujeito com o próprio desejo e com as barreiras que separam um do outro.” Há mais entendimentos? Sim, mas eles fatalmente irão caminhar para o auto-conhecimento, condição essencial na mudança do discurso, do comportamento.
Portanto, as relações da psicanálise com o mundo, em particular com o empirismo, são tumultuadas a vista do arcabouço de sua construção que admite fatos que estão além da nossa experiência comum. Mas, não seria isso também, o que acontece com a experiência positiva das religiões, ou seja, também não podendo ser demonstradas, apenas cridas? Ou mesmo da física quântica teórica, que apresenta uma aparente irracionalidade chamada de “ princípio da incerteza”? A psicanalise já foi chamada de heresia (4) e, portanto, comparada obrigatoriamente a religião, exatamente por que menciona e comenta a origem das religiões, chamando-as mesmo de “ilusão”. Mas isso está dentro do espírito materialista, que não concebe outra forma do fenômeno além de sua filiação natural… mas é obrigada ao entendimento que tem algo além dessa normalidade na ação do sujeito. Portanto, existe uma ambiguidade nisso, uma vez que a Psicanálise tem a ordem da pesquisa da ciência, mas trata de assuntos que não podem ser evocados em um laboratório. Nesse aspecto, “..Uma psicanálise se compreende como uma experiência do sujeito, na qual os conceitos servem para articular um fenômeno que não é da ordem das ciências naturais ou formais”.
Mas, então, o porque o cientificismo de Freud e do seu considerado maior discípulo Lacan?
A resposta naturalmente repousa no fato de que, a priori, os dois, em particular e primeiramente Freud, são pesquisadores, e no espírito materialista (e mecanicista), os fenômenos tem que estar obrigados a causas naturais, não sobrenaturais e devem ser procurados na natureza. E somos sujeitos naturais, completos. Por outro lado, Freud como qualquer criança, aqui considerado seus estudos iniciais, procuram ser reconhecidas e aprovada pelas suas figuras parentais, no caso, representadas pelo materialismo de então, o qual, estabelecido regras, define o “científico”, a “coisa” científica. E, como já dito, isso deve ter sito tomado como uma extensão natural da psicanalise, pois o método científico, como os pais, seria os seus alimentadores, seus cuidadores e guias.
Nesse aspecto, confundimos aqui o trânsito do Édipo, pois a psicanálise não teria que se apropriar de suas próprias descobertas? A única contestação aqui são as datas que tanto o anuncio de Freud como sua exposição do Édipo serem distintas, e o último posterior, mas deve ser lembrado que Freud não criou o Édipo, apenas o observou, revelou-o, ou seja, o Édipo é atemporal a história humana e a própria psicanálise.
Mas outro fator, e lembrando a própria personalidade de Freud e seu narcisismo, seus desentendimentos com colaboradores e a mão firme com que conduzia o processo, a questão da procura da cientificidade na Psicanalise também pode ser entendida como jogo do saber, do poder, como bem lembra Foucault. Mas isso também não é um jogo do Édipo, ou seja, quem vai ficar com o objeto de gozo?
Ai nem mesmo interessaria a lembrança de Heidegger de que a exatidão matemática são magnificados em relação ao que representam nas dimensões espaço-tempo, para que sejam representadas como processos naturais, através da mediação do número e do cálculo. Mas não é esse o seu caráter de investigação da natureza, ou seja, contar exatamente, mas se mostra assim ou dessa forma, pois sua correspondência aos objetos tem a marca da exatidão e essa delimitaria sua observação da natureza. Já as ciências das coisas vivas são rigorosas exatamente por serem inexatas, para justificar a situação que Psicanálise suscita quando não pode ser examinada a luz laboratorial.
Concluiremos da seguinte forma, aproveitando um nome muito importante na ciência. O Dr. Stephen Hauking, propõe no seu livro “O universo em uma casca de noz” uma solução intrigante para uma questão real observada pela ciência: não existe no universo matéria suficiente que justifique o efeito gravitacional observado nele, ou seja, a trama tempo-espaço sofre uma modificação maior do que seria esperado. Teoriza o eminente cientista que existe o paralelismo na criação, ou seja, há outros universos (ou Branas ), as quais influenciam gravitacionalmente nossa realidade aparente, suprindo essa falta de matéria mas que dificilmente isso será observável, apenas deduzido (5). É uma boa metáfora para entender a psicanálise, pois a formulação teórica funciona desse jeito, ou seja, não podemos negar a histeria, as neuroses outras como os “TOC”, fobias, fixações, isso dentro do nossa realidade aparente, mas precisamos de um arcabouço pensado de como isso funciona ou surge e que não pode ser visto, tocado ou evocado materialmente! Também a psicanálise nos permite observar o mundo a nossa volta e entender os processos que levam ou não o homem a ser um ser civilizado. Entende os processos de todos os transtornos, o mal-estar geral da civilização.
Além disso tudo, sofre a psicanálise com a não distinção de ser uma graduação nas faculdades, relegada a apêndices dos departamentos de Filosofia ou Psicologia. Mas, por que? Se ensinam teoria das cordas que ainda não podem ser observadas ou medidas com rigor cientifico, por que não estudar ou ensinar sobre o inconsciente, Totem e Tabu, que entendemos estar no mesmo barco do conhecimento, igualados pela sua incapacidade de se deixar observar em ambientes controlados?
Uma coisa pode ser dita disso tudo e sem nenhuma dúvida ou medo: A academia sempre tenderá a não conceder esse status a Psicanálise exatamente por que é a própria psicanálise que, diante de sua história, se autoriza, não a instituição. Em outras palavras: é o psicanalista que se autoriza, que estuda, que é analisado! Não depende dessa autorização formal da Academia, portanto, será muito difícil a academia ensinar, como em uma graduação, um saber, que não depende da sua autorização para que ele se formalize.
Por fim, ninguém é obrigado a crer no movimento psicanalítico, por essa ou por qualquer outra razão: mas se a psicanálise permite ou provoca condições do auto-conhecimento, da diminuição do sofrimento humano, do resgate da pulsão de vida em substituição ou minoração a pulsão de morte, pouco importa se ela é um placebo ou não, pois ela é vitoriosa onde nenhum remédio consegue resolver!!!
NOTAS:
1. Vaz, Michel. A psicologia enquanto ciência. Disponível em < http://www.psicologiamsn.com/2013/02/a-psicologia-enquanto-ciencia.html >. Acessado em 03 de março de 2018.
2. Metapsicologia. O termo metapsicologia pode ser encarado como sinônimo de psicologia metafísica, uma área de estudos da psicologia dedicada ao estudo de fenômenos dos quais a chamada psicologia empírica não se propõe a estudar, por não serem acessíveis ao conhecimento pela experiência e que não pode ser provado pelo método científico proposto pelo positivismo para as ciências. O termo metapsicologia, porém, tem também um outro significado bastante específico, associado à psicanálise. O termo foi cunhado por Freud em seus estudos sobre as relações entre o inconsciente e a consciência para designar um conhecimento psicológico que considere as dimensões tópica, dinâmica e econômica do psiquismo, que se mostram nessas relações.
De maneira breve e bastante simplificada, o aspecto tópico, dinâmico e econômico poderiam ser descritos como, respectivamente, uma teoria dos lugares¹, das forças e da energia psíquicas.
¹Convém observar, porém, que tal teoria dos lugares não corresponde a uma busca por localizações físicas para os aconteceres psíquicos, mas sim de delimitar instâncias responsáveis por diferentes funções- por vezes conflitantes. Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Metapsicologia >. Acessado em 04 de março de 2018.
3. O origem do Mundo foi um quadro pintado com um tema de mostrar o “sexo” feminino em sua forma mais dura, realista. Depois de várias contratempos (roubos e recuperação), foi comprada pro Lacan,“ que por sua crueza, foi escondido sob uma pintura de madeira do seu cunhado André Masson. “ em sua casa de campo. Observe-se que inobstante a pintura não tratar-se do falo, trata da questão da castração, ou seja, quando o menino observa que a mãe não tem o seu falo, lhe arremete o medo de perder o seu! Mais detalhes sobre a pintura em L'Origine du monde. Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/L%27Origine_du_monde >. Acessado em 05 de março de 2018.
4. Araujo,Ricardo Torri de. Deus analisado: os católicos e Freud. A recepção da crítica freudiana da crença religiosa pela Igreja Católica. Disponível em < http://teopsic.psicologia.ufrj.br/arquivos/documentos/91E114F55F1BD63B04E41A8ABEA7F0E6.pdf >. Acessado em 05 de março de 2018.
5. Capítulo 7º: ... “Ao contrário, à distâncias menores que a separação entre as membranas, a gravidade variaria mais rapidamente. As minúsculas forças gravitacionais entre objetos pesados foram medidas com precisão no laboratório, porém, ainda não se detectaram efeitos atribuíveis à existência de membranas separadas menos de uns poucos milímetros. Atualmente, efetuam-se medições a distâncias mais curtas. Nesta interpretação, viveríamos em uma membrana, mas haveria outra membrana «sombra» em suas proximidades. Como a luz estaria confinada nas membranas e não se propagaria no espaço entre elas, não veríamos o universo «sombra», mas notaríamos a influência gravitacional de sua matéria. Em nossa membrana, pareceria que tal influência é devida a fontes realmente «obscuras», no sentido de que a única maneira de detectar seria através de sua gravidade. De fato, para explicar a velocidade com que as estrelas giram ao redor do centro de nossa galáxia, deveria haver muito mais massa que a correspondente à matéria que observamos. A massa que falta poderia proceder de algumas espécies exóticas de partículas, como as WIMP (weakly interacting massive particles) partículas volumosas interagindo debilmente ou axiones (partículas elementares muito ligeiras). Mas, também poderia constituir um indício da existência de um universo sombra que contivera matéria —e, possivelmente, humanos tridimensionais que se perguntam pela massa que parece faltar em seu universo para explicar as órbitas das estrelas sombras ao redor do centro da galáxia sombra. Hauking, Stephen. O universo em uma casca de noz. Disponível em < http://lelivros.love/book/download-o-universo-numa-casca-de-noz-stephen-hawking-em-epub-mobi-e-pdf/ > , acessado em 05 de março de 2018.




REFERÊNCIAS:
-Araujo,Ricardo Torri de. Deus analisado: os católicos e Freud. A recepção da crítica freudiana da crença religiosa pela Igreja Católica. Disponível em < http://teopsic.psicologia.ufrj.br/arquivos/documentos/91E114F55F1BD63B04E41A8ABEA7F0E6.pdf >. Acessado em 05 de março de 2018.
-Hauking, Stephen. O universo em uma casca de noz. Disponível em < http://lelivros.love/book/download-o-universo-numa-casca-de-noz-stephen-hawking-em-epub-mobi-e-pdf/ > , acessado em 05 de março de 2018.
-L'Origine du monde. Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/L%27Origine_du_monde >. Acessado em 05 de março de 2018.
-Metapsicologia. Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Metapsicologia >. Acessado em 04 de março de 2018.
-Vaz, Michel. A psicologia enquanto ciência. Disponível em < http://www.psicologiamsn.com/2013/02/a-psicologia-enquanto-ciencia.html >. Acessado em 03 de março de 2018.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Afetos em São Tomas de Aquina e na Psicanálise

Afeto em São Tomás de Aquino e na Psicanálise “ Nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos” (São Tomas ...