sexta-feira, 4 de maio de 2018

Mitos e Massas



1 - Pode um mito servir de base para compreensão da natureza dos vínculos sociais na modernidade? Por quê?
A modernidade é apenas uma figura de linguagem para descrever a nossa sociedade que vive com suas extensões orgânicas e simulacros de sua própria humanidade. Mas, permanece a nossa verdadeira identidade, e essa não é nada mais nada menos que a estrutura da “horda primeva” de Freud, termo esse nascido com o Dr. Charles Darwin, que, como Freud e Copérnico, colocaram o homem no seu devido lugar: o sol é que é o centro do “universo” → sistema solar; que o homem é só mais um animal dos tantos que existem na Terra; e que nós não mandamos nem em nós mesmos, mas sim pelo nosso inconsciente!
Portanto, somos uma imitação re-inscrita de nossa própria história, e nesse aspecto, os mitos apenas dão a alma da aceitação de nossa filiação a uma “horda”, nas suas relações de castrações, proibições ao acesso do objeto da libido. Nessa ordem, o mito da figura totêmica e seu sucedâneo, o tabu, ainda imperam em nossas relações e vínculos sociais, na medida que podemos perfeitamente entender os grupos de referência a que pertencemos.
Digo aqui grupos de referência como forma de me referir, mas deveria dizer, dos grupos de nossas junções ou reuniões de objetos equivalentes, pois os grupos são o somatório dos seus indivíduos, unidos a uma líder real ou não, esses objeto do amor ou de quem recebemos o amor.
A existência de várias tribos, com suas lideranças, reunidas pelo contágio e hipnose sociais, são uma ameaça constante ao processo civilizatório, na medida que eles desnaturalizam os limites do recalque, quando o grupo em ação se urge contra o Ideal do Ego, transformando ele mesmo no Ego dos seus membros.
A verificação disso está nos grupos terroristas que promovem o auto-sacrifício de membros na busca de uma verdade proclamada e aceitada por pessoas que resolveram retornar ao estado primitivo de nossa existência em hordas, na medida que suprimiram o seu EGO em função do grupo.
Portanto, entendemos hoje a atualidade do pensamento Freudiano, vítimas que somos das horas, tribos, que hoje existem e atendem por vários nomes.





2. Pode a psicologia das massas freudiana descrever os processos de relação ao poder em sociedades democráticas?

Primeiro devemos entender que o ideal da sociedade democrática seria o do pleno exercício da civilidade a partir da vontade, do poder, de seus membros. Assim como Freud nos lembra que é impossível nos amarmos os outros como a nós mesmos, fica difícil entender uma sociedade democrática, onde a vitória é garantia por uma maioria em detrimento a uma minoria.
O Partido dos Trabalhadores entende em sua constituição, que o poder democrático se exercita não na vitória de grupos, mas sim no consenso, onde o povo para avançar necessita que todos façam concessões em torno de um projeto comum. Isso lembra muito a “aclamação”, mas não é isso. A crítica que se faz é que “se vivemos em plena civilidade para poder ter esse avanço moral”. E a resposta é não: derrubou-se um governo exatamente porque um minoria não aceita nenhum tipo de partilha de poder.
Nesse aspecto, a psicologia das massas em Freud ajuda a entender a questão de como os grupos existem em sociedades democráticas ou ditas assim, aplicando a ideia de que tudo isso resulta da ação das forças libidinais, no reconhecimento de autoridades primitivas, na renuncia do ego individual em função do grupo a que pertencem. E a isso se aplica indistintamente, tanto na direita como na chamada esquerda!!
Nos grupos, há os iguais, os que recebem o mesmo amor do líder; e o líder é alguém que pode transgredir. O fenômeno Lula é exatamente esse, na medida que ele é a figura do Pai Primevo, e a sua perseguição política, se assemelha ao assassinato que os filhos fizeram.
Portanto, não fica difícil entender essa dinâmica a partir do conhecido aqui em Freud.
Por outro lado, em corroboração, temos os seguidores fascistas de Bolsonaro, os quais encarnam tudo o que é dito sobre os grupos: superficialidade, apego a tradição, crença em ficções além da realidade, e transformação de suas crenças em ação sem muita profundidade de pensamento ou mesmo crítica, entre outros.
Portanto, na sociedade dita democrática, a figura da horda primitiva se faz presente quando o Pai Primevo é evocado nos líderes que se elegem, e nesse aspecto, a Psicologia das Massas de Freud com todos seu entendimento do ocorrido, aplica-se sim, inobstante, penso, que democracia é um nome muito bonito para uma ideia que não existe na realidade, visto que, pela necessidade dos grupos, esses se anulam enquanto poder globalizado exatamente pelo seu grau de exclusão a quem não pertença aos seus quadros.






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