1
- Pode um mito servir de base para compreensão da natureza dos
vínculos sociais na modernidade? Por quê?
A
modernidade é apenas uma figura de linguagem para descrever a nossa
sociedade que vive com suas extensões orgânicas e simulacros de sua
própria humanidade. Mas, permanece a nossa verdadeira identidade, e
essa não é nada mais nada menos que a estrutura da “horda
primeva” de Freud, termo esse nascido com o Dr. Charles Darwin,
que, como Freud e Copérnico, colocaram o homem no seu devido lugar:
o sol é que é o centro do “universo” → sistema solar; que o
homem é só mais um animal dos tantos que existem na Terra; e que
nós não mandamos nem em nós mesmos, mas sim pelo nosso
inconsciente!
Portanto,
somos uma imitação re-inscrita de nossa própria história, e nesse
aspecto, os mitos apenas dão a alma da aceitação de nossa filiação
a uma “horda”, nas suas relações de castrações, proibições
ao acesso do objeto da libido. Nessa ordem, o mito da figura totêmica
e seu sucedâneo, o tabu, ainda imperam em nossas relações e
vínculos sociais, na medida que podemos perfeitamente entender os
grupos de referência a que pertencemos.
Digo
aqui grupos de referência como forma de me referir, mas deveria
dizer, dos grupos de nossas junções ou reuniões de objetos
equivalentes, pois os grupos são o somatório dos seus indivíduos,
unidos a uma líder real ou não, esses objeto do amor ou de quem
recebemos o amor.
A
existência de várias tribos, com suas lideranças, reunidas pelo
contágio e hipnose sociais, são uma ameaça constante ao processo
civilizatório, na medida que eles desnaturalizam os limites do
recalque, quando o grupo em ação se urge contra o Ideal do Ego,
transformando ele mesmo no Ego dos seus membros.
A
verificação disso está nos grupos terroristas que promovem o
auto-sacrifício de membros na busca de uma verdade proclamada e
aceitada por pessoas que resolveram retornar ao estado primitivo de
nossa existência em hordas, na medida que suprimiram o seu EGO em
função do grupo.
Portanto,
entendemos hoje a atualidade do pensamento Freudiano, vítimas que
somos das horas, tribos, que hoje existem e atendem por vários
nomes.
2.
Pode a psicologia das massas freudiana descrever os processos de
relação ao poder em sociedades democráticas?
Primeiro
devemos entender que o ideal da sociedade democrática seria o do
pleno exercício da civilidade a partir da vontade, do poder, de seus
membros. Assim como Freud nos lembra que é impossível nos amarmos
os outros como a nós mesmos, fica difícil entender uma sociedade
democrática, onde a vitória é garantia por uma maioria em
detrimento a uma minoria.
O
Partido dos Trabalhadores entende em sua constituição, que o poder
democrático se exercita não na vitória de grupos, mas sim no
consenso, onde o povo para avançar necessita que todos façam
concessões em torno de um projeto comum. Isso lembra muito a
“aclamação”, mas não é isso. A crítica que se faz é que “se
vivemos em plena civilidade para poder ter esse avanço moral”. E a
resposta é não: derrubou-se um governo exatamente porque um minoria
não aceita nenhum tipo de partilha de poder.
Nesse
aspecto, a psicologia das massas em Freud ajuda a entender a questão
de como os grupos existem em sociedades democráticas ou ditas assim,
aplicando a ideia de que tudo isso resulta da ação das forças
libidinais, no reconhecimento de autoridades primitivas, na renuncia
do ego individual em função do grupo a que pertencem. E a isso se
aplica indistintamente, tanto na direita como na chamada esquerda!!
Nos
grupos, há os iguais, os que recebem o mesmo amor do líder; e o
líder é alguém que pode transgredir. O fenômeno Lula é
exatamente esse, na medida que ele é a figura do Pai Primevo, e a
sua perseguição política, se assemelha ao assassinato que os
filhos fizeram.
Portanto,
não fica difícil entender essa dinâmica a partir do conhecido aqui
em Freud.
Por
outro lado, em corroboração, temos os seguidores fascistas de
Bolsonaro, os quais encarnam tudo o que é dito sobre os grupos:
superficialidade, apego a tradição, crença em ficções além da
realidade, e transformação de suas crenças em ação sem muita
profundidade de pensamento ou mesmo crítica, entre outros.
Portanto,
na sociedade dita democrática, a figura da horda primitiva se faz
presente quando o Pai Primevo é evocado nos líderes que se elegem,
e nesse aspecto, a Psicologia das Massas de Freud com todos seu
entendimento do ocorrido, aplica-se sim, inobstante, penso, que
democracia é um nome muito bonito para uma ideia que não existe na
realidade, visto que, pela necessidade dos grupos, esses se anulam
enquanto poder globalizado exatamente pelo seu grau de exclusão a
quem não pertença aos seus quadros.


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