sexta-feira, 4 de maio de 2018

Hordas e Civilidade

Hordas e Civilidade

Inobstante a questão do “afeto” não ter merecido de Freud a sua mais completa definição, é tido no meio psicanalítico como objeto de um maior e ulterior compreensão, resultando em um sem números de ilações. Os afetos são definidos como sensações nascidas no organismo, estando nas pulsões, estas, definidas como o limite existente entre o psíquico e o somático : no somático, o afeto; no psíquico, por um representante ideativo. Afetos compreendem todas as sensações que temos, não tendo uma definição clara, mas manifestações claras, como por exemplo o medo e o sentimento de insegurança.
O questionamento que é feito é como um situação tão particular ao sujeito, ou seja, que vê em todos os homens seus concorrentes, permitira a existência de um corpo social → político, onde se ergueria e se sustentaria as relações entre os sujeitos.
É apresentado a partir de Hobbes que isso se manifesta através do medo, imposto como elemento que faz circular o elemento de concordância com um líder, que os lembra de forma insistente o medo da morte e outros acontecimentos, ou seja, que força os sujeitos abrirem mão de seus desejos. Esse medo tem uma função de paralisia da sociedade, e se transforma também no sentimento comum do medo respeitoso a figuras de mando. O objeto a quem se dirige o medo respeitoso é o poder soberano, tido como unificador do meio social.
Para Freud, a questão é mais complexa e não se reduz a somente isso, pois ele afirma que o primeiro sentimento ou afeto que temos, é o nosso total desamparo nas fases iniciais de nossa vida, e esse afeto “desamparo” nos perseguirá sempre e será nosso referencial de comparação, sendo em cima desse desamparo que se estrutura o poder soberano.
Mas além disso tudo, Freud tem uma construção para explicar as relações sociais, fundadas tanto na figura do Moisés bíblico, mas anterior a isso, a questão da horda primitiva, ideia essa apresentada ao mundo através do escrito “Totem e Tabu”, onde Freud descreve, como um mito, a funcionalidade de grupos primitivos → horda, lideradas por uma “pai primevo”, o qual mantinha pleno controle do acesso sexual para si, não permitindo o concurso de outros. No meio dessas hordas, os outros, além do “pai” primevo, através de seu assassinato, pensaram em fundar uma nova relação social que estaria distante das proibições anteriores; esse intento falhou, pois no lugar do pai primevo, surgiram outros pais, os quais tiveram que legislar pela proibição dos casamentos ou concursos sexuas com mulheres da própria horda.
A morte do pai primevo, inobstante ser o símbolo de uma sociedade de um poder sem restrições, seus membros levavam em si a culpa pela morte do pai primevo, ao mesmo tempo que se reconectaram ao pai, de forma preencher o sentimento de vazio ali instaurado.
A nossa sociedade, pelo processo do desamparo, tem na identificação com a figura parental a sua ação mais imediata, e esse desamparo permitirá que a figura do pai primevo sempre se emule a partir de uma ordem acolhedora de identificação que se faça presente na memória.
Discute-se a questão da sociedade não corporificada nos sistemas ditos democráticos, ao mesmo tempo que se afirma que há necessidade de uma corporificação mínima que mantenha ou ajude a manter a integridade do grupo, grupo esse que, para se tolerar internamente como seus próprios “iguais”, transfere para os outros fora do seu grupo, toda sua raiva e cólera. É o caso do movimento fascista, tão atual, que se aproveita dos sintomas do desamparo para incutir em cima do povo sua fala, voz, pela pregação constante do medo da morte, da derrota, entre outras coisas.
É nesse ambiente que se repete a questão do mito do pai primevo, ou seja, o que pode transgredir ou não a Lei!. Essa identificação é libidinal, segundo Freud, na medida que se identifica com líder suas próprias deficiências, concluindo que a questão do fascismo é endêmica nos regimes democráticos. É verdadeira a frase: “A cadela do fascismo está sempre no cio!”.
O grande questionamento de Freud a respeito dos estágios do desenvolvimento das comunidades humanas → num primeiro momento animistas; na sequência religiosos e, num terceiro momento, científica, aplica ao desenvolvimento do sujeito, é porque ainda temos em nós ainda a figura dos governos religiosos e outros, já que supostamente vivemos no estágio científico, onde nosso desenvolvimento nos permite um maior afastamento da condição natural. É nesse questionamento que se pode afirmar que voltamos sempre a repetição dessa figura ancestral do pai primevo, hoje lembrado nos vários totens que se fazem presentes no nosso meio.




O que podemos concluir disso?
Em Freud, a grande questão é que nos recalcamos para viver em sociedade e dela receber os benefícios da garantia da vida contra as forças naturais desse planeta violento que vivemos. Esse não é um pensamento simplista, mas sim reflete a grande realidade que justifica a nossa existência. Fica claro pensar que Freud se preocupa com a questão da civilização e do homem civilizado, ou seja, do homem que faz suas escolhas ou tem o seu discurso no entendimento dos seus procedimentos como um ato oriundo de sua elaboração sobre as realidades que se acometem sobre nós, portanto, consciente de sua importância e de sua colaboração. Esse será sempre o grande objetivo a ser atingido, ou seja, o viver de forma civilizada, não por imposição, mas por crença!!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Afetos em São Tomas de Aquina e na Psicanálise

Afeto em São Tomás de Aquino e na Psicanálise “ Nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos” (São Tomas ...