Esse obscuro objeto do desejo
Falar de Esse Obscuro Objeto do Desejo de Bunuel é entrar em um
outro universo, marcado pelo surrealismo, o além do real das coisas.
Não que o surrealismo seja o além do real, a loucura, mas sim que o
capita a partir do inconsciente 1.
Há várias nuances do desejo mostradas nesta obra de Bunuel, aliás,
seu último filme, e neste ele como que resume as ainda contradições
que existem na comunidade humana, já abordadas em sua extensa obra,
dando destaque para a ainda divisão entre a burguesia rica e o
proletariado com notas interessantes, em particular o “não servir
a esta moça (Conchita)”, quando ela se desliga do serviço de
rouparia do café em que trabalhava, depois de uma reprimenda de seu
“superior” hierárquico, mas que se faz reverso quando esse
mesmo, em outra oportunidade, lhe oferece uma taça de champagne,
pois ela está acompanhada de “pessoas ilustres”, do “bom
burguês”.
Todas as personagens tem seus papeis já bem definidos a partir
dessa dicotomia burguesia-proletariado, o primeiro, por já desfrutar
dessa situação e com isso ter o poder do dinheiro, da corrupção
moral na realização de seus desejos; o segundo, por aspirar essa
condição, mesmo que com isso a prática da moral seja relevada
também na realização dos seus desejos, enfim, sendo esse um ponto
de contato comum.
É nessa batalha de desejos e suas repressões que se faz o
desenrolar da vida, em particular com as notas acessórias
introduzidas na narração, como a atividade terrorista tomada como
uma imposição de uma ordem moralizante ou moralizadora, reunidas no
pitoresco nome de “Grupo Armado Revolucionário do Menino Jesus”,
portanto em referência a Igreja; na cena da ratoeira, da mosca no
copo, ambos terminaram o gozo com a consumação do objeto, ou seja,
esse gozo não será repetido: o desejo de encontrar e eliminar o
rato que andava na casa – morto na ratoeira, não permitirá
novamente esse gozo, pois já foi consumido; o segundo, o desejo do
garçom em encontrar uma mosca, que se consumiu no copo de água e
que não satisfará mais o desejo de procura de uma mosca pelo garçom
– um referência mais do que implícita a sua forma de não
satisfação sexual, da mesma forma que a personagem de Mathieu, que
também procura um rato, uma mosca, mas não os consegue prender nas
suas armadilhas e com isso consumar o seu desejo, não obstante
estarem as mãos, visíveis e até tocáveis. Interessante que, do
ponto de vista da burguesia 2,
todos são frágeis o suficientes para serem presos em
ratoeiras/armadilhas, na água e pelo dinheiro.
É nesse significante de fragilidade que Conchita se estabelece na
sua aparente bipolaridade, ou seja, de um lado, a histeria manifesta
no desejo de algo, mas o seu impedimento de realização, pois se
satisfaz em ser reconhecida 3;
de outra forma, na explosão da sensualidade agressiva, decidida, mas
que se sucumbe a primeira opção, ou seja, se manter como fonte e
mantenedora do desejo por se aceitar como objeto sem a sua
consumação, situação perfeitamente explorada pela sua mãe, que
entende a situação e não tem nenhum pejo em negociar a filha com o
desejante rico. Repete provavelmente a prática de seu casamento, com
um homem mantenedor que, frustrado, se suicidou, mas que sobrevive na
sua esposa quando esta ainda vive seu desejo, de ser lembrado, amado,
não destruído, não obstante ter falhado nessa empreitada de
mantenedor por ter deixado somente dívidas e nenhuma pensão ou meio
de sobrevivência da mulher. E é esse papel que aceita de Mathieu, o
do mantenedor, que terá como premio uma amante arranjada, ou seja,
tal como a boa educada mãe provavelmente o foi para seu marido – a
boa e educada filha, que não sabe fazer nada na vida. A desculpa da
mãe é de ter “uma certa educação”, ou seja, ela é burguesa
no seu interior, pode se relacionar com a burguesia, é do mesmo
nível e tem os mesmos desejos de uma boa vida sem trabalho!
As demais ocorrências estão relacionadas ao desejo como um desejo
do nada, do impossível, da coisa perdida, pois mesmo que se volte
para suas origens na tentativa de resgatar esse desejo, o término é
sempre a tradição/lei que se faz presente, pois a mãe é
reencontrada na Igreja e a filha, na sensualidade de mostrar seu
corpo sem realizar o desejo de seus admiradores na casa de
espetáculos. 4
Mas a pulsão não é satisfeita, Mathieu não pode se perder no
outro que o recusa, o impede do gozo, não obstante se comprazer com
os gozos parciais, de toque corporal e pela proposta de masturbação,
o que resolveria parte de seus anseios. Mas, Conchita o mantém no
desejo pelo desejo, não se consome, pois nas suas palavras, uma vez
consumido seu desejo, ela seria esquecida, não amada, não
reconhecida e também seria privada do desejo do outro. Como
resultado da não satisfação plena da pulsão, esta pulsão
volta-se a Mathieu com o sinal trocado e no lugar do amor, cede-lhe o
ódio, quando percebe a existência de concorrência, na figura do
violonista – Morenito, como também na constatação que talvez ele
já seja uma árvore que já deu seus frutos. E essa imagem será
usada por ela mais uma vez quando se satisfaz parcialmente com um
abrigo, a casa dada por ele, ou seja, a coisa que realmente ela
queria dele 5,
a segurança e o desejo incestuoso não realizado.
Do relacionamento de Conchita com Mathieu, não é difícil ver as
sementes originais de seus episódios histéricos, uma vez que pode
se perceber a ação do desejo do incesto, na transferência para
ele do seu desejo proibido em relação ao pai e ainda ser virgem –
do incesto impossível; e ele com o desejo latente de desejar uma
pessoa mais nova e com tudo o que isso representa.
A história é densa e de narrativa feliz, pois também se utiliza
de imagens que dão uma estrutura necessária ao aspecto do
surrealismo vivido por todo, ou seja, de eterealidade, de azáfama de
uns na realização de seus desejos e na lentidão da negação de
outros, mostrado, entre outros, na agressão satisfeita no balde água
e seu retrucamento; na narrativa dentro de um trem, ou seja, no meio
que leva todo mundo a um ponto, mas que tem suas idiossincrasias de
manter todos na surdina quando todos atravessam os necessários
túneis na vida; na violência dos desejos do nada nos atentados; nas
armadilhas; na servidão sem rebeldia dos empregados e sua devoção,
como também a aceitação da transgressão da Lei se isso render a
realização de um desejo, como no caso do assalto na Suíça e a
quase devolução do dinheiro roubado.
Na explosão final, somos desconectados da vivência deles,
portanto, também somos privados do que acontece depois como também
em nossas paixões perdidas, quizas tão bem identificadas nas
personagens que desfilaram ante nosso entendimento.
Referências
-Significado
de Surrealismo. Disponível em <
https://www.significados.com.br/surrealismo/
>. Acessado em 28 de junho de 2018.
1Surrealismo
foi um movimento artístico e literário de origem francesa,
caracterizado pela expressão do pensamento de maneira espontânea e
automática, regrada apenas pelos impulsos do subconsciente,
desprezando a lógica e renegando os padrões estabelecidos de ordem
moral e social. (Significado de Surrealismo -
https://www.significados.com.br/surrealismo/
)
2A
burguesia reconhece, julga e dá a sentença no diálogo de Mathieu
com o seu primo, no julgamento do referido G.A.R.M.J.: “Mathieu:
“Então, foram condenados a morte?”. Primo: “O que é que
acha? O Padre apanhou 8 anos e os outros 3 . Lamentável. Mas, na
minha opinião, o júri foi ameaçado.”. Mathieu: “Ameaçado por
quem?”. Primo: “Pelo G.A.R.M.J., claro!”, ou seja, a Justiça
agiu de forma parcial no julgamento pois foram ameaçados. Nesse
ponto, também tiveram seus gozos interrompidos!!
3Quadro
característico da histeria, ou seja, colocar, por conversão ao
corpo, seus desejos proibidos pela castração da Lei, de forma se
mostrar e se fazer sentida.
4Interessante
é a referência ao turismo sexual nessa passagem.
5Que
ao não permitir que ele entre na casa, também quer falar do
interdito a ele ao seu corpo; para justificar o “outro” -
Morenito – afirma que “ele nem gosta de mulher”, ou seja, é
só a “conversão” do desejo não satisfeito.

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