sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O existencialismo é um humanismo





COMENTÁRIOS


Sartre, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Tradutora: Rita Correia Guedes. Fonte: L’Existentialisme est un Humanisme, Les Éditions Nagel, Paris, 1970
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Sartre se propõe da defender o Existencialismo de sua doutrina dos ataques do entendimento determinista, ou seja, cada um tem seu lugar na história e tudo o que faz deveria ser uma filosofia contemplativa, chamada por ele de filosofia burguesa.
Entre as críticas, aquelas que apontam nos existencialistas que levavam as pessoas ao quietismo, no enfatizar da ignomínia humana, o sórdido, o equívoco, o viscoso, das belezas ditas radiosas (como esquecer o sorriso da criança), bem como negar a solidariedade humana. Os comunistas acusam os existencialistas disso a partir do subjetivo tido no cartesianismo do penso, ou seja, do homem estar diante de sua solidão, o que impede de voltar a solidariedade. Por parte dos cristãos, o existencialismo é criticado por não reconhecer os mandamentos divinos, os quais suprimidos, levariam o homem ao anarquismo.
Defende então, nas suas pontuações, que o existencialismo é um humanismo, na medida que torna a vida humana possível e que toda a verdade, ação estão sob os domínios da subjetividade humana.
Afirma, outrossim, que comparação que se faz do existencialismo é do feio, confundindo o existencialismo com o naturalismo, o que gera uma apreensão em Sartre é porque o existencialismo assusta e escandaliza o naturalismo propriamente dito.
Resume essa parte na tentativa determinista de achar um lugar de utilidade para tudo, através de uma crítica a inovação, ou seja, tudo está destinado a seguir um preordenamento: ação não apoiada na tradição é romantismo; não apoiada na experiência, é o fracasso. Nesse aspecto, os detratores do existencialismo são os mesmos que se deleitam com a perversidade.
No seu intento de dar uma face verdadeira ao existencialismo, considera o fato de todos que se declaram existencialistas teriam dificuldades de explicar o que realmente isso é. Lembram que existem os “existencialistas “ cristãos e os ateus, amarrados somente pelo fato de entenderem a existência precedente a essência.
Para explicar a questão do existencialismo, parte de pensamentos deterministas, a partir da metáfora do livro e do corta papel: feitos a partir de uma receita e com finalidades definidas. Ambos são objetos com fins bem definidos. Imaginando que fossem esses objetos construídos sem saber de sua destinação, ter-se-á de admitir que a essência precede a existência, tanto quanto o determinismo dirigido ao livro e ao corta papel nas suas e únicas funções.
Sartre se posiciona contra a “essência” preceder a “existência”, ou seja, exatamente pelo seu inverso, significando que o homem existe e encontra-se consigo mesmo, nasce ou surge no mundo e só posteriormente se define, portanto, não é definível anteriormente, a não ser depois de constituir no que ele fizer a si mesmo.
Ao entender que existe duas classes distintas de existencialistas, declarados como cristãos ou ateus, reunidos sob um princípio comum de o existir preceder a essência, deve ser entendido que o homem não é um projeto pensado, mas estruturados depois com nossa ação, ou seja, primeiro existimos, depois nos definimos em nossa “essência”, mas criticando o existencialismo cristão, pois este ao admitir um princípio Criador (Deus), é identificado que sua vontade é a regente da vida do ser humano, pois Deus tem ciência do que cria e como será, ou seja, a essência precederá a existência. Mesmo entre o ateus filósofos do século XVII, que mesmo suprimindo Deus de suas considerações, continuam defendendo a “essência” antes da existência na concepção da ideia de uma “natureza humana”.
Sartre então se posiciona como um existencialista mais coerente, ou seja, se Deus não existe, questiona se pelo menos deveria existir um ser no qual a existência precede a essência, um não conceituável. Seria esse o homem ou sua realidade humana? (cita Heidegger). Entende também a precedência da existência sobre a essência, esta emulada a partir de surgir e depois se definir no mundo. O homem assim entendido pelo existencialismo não foi definido, pois primeiro nada é; só depois se constituirá pela descoberta e definições. Portanto, como não há Deus para o conceber, assim também não é existe a chamada natureza humana. O homem, por fim, se descobre depois da existência.
Princípios do existencialismo:
A Subjetividade, ou seja, a opção da escolha. Nessa ação de escolha, o homem também se escolhe.
O homem primeiro existe, lançando-se depois para um futuro, sendo antes de tudo, um projeto que se desenrola no subjetivo, no lugar de ser qualquer outra coisa. Será o que projetar, imaginar ser, não o que ele quer, pois, aquilo que se chama de de querer é , na verdade, uma decisão do seu consciente, posterizado para aquilo que ele próprio laborou. Pode querer tudo na vida (escrever, casar, etc..), mas isso é o reflexo acontecido de escolhas mais primitivas daquilo que entendemos por vontade, tornando-o, pois, na existência que precede a essência, responsabilizado por aquilo que é; conduz ao entendimento, portanto, que o primeiro ato do existencialismo é por o homem no domínio daquilo que ele é e lhe atribuir toda a responsabilidade existencial e de todos os homens.
O exercício da subjetividade agasalha duas direções: a escolha do sujeito individual e a impossibilidade de superação da subjetividade humana, pois o homem ao se escolher, também escolhe todos os outros homens.
As nossa atitudes de criar o homem que desejamos ser constituídos, também criará a imagem do homem que deve ser, idealizado, pois as nossas escolhas nesse ou naquele sentido afirma-se o valor do que foi escolhido, pois não podemos escolher o mal, mas sim sempre o bem. Isso cria o valor de juízo de que, o que é bom para nós, necessariamente deverá ser bom também para os demais. Isso nos afirma na responsabilidade muito maior do que poderíamos imaginar, pois envolve toda a espécie. Essa responsabilidade tem o poder de agasalhar angústias, desesperos, abandonos, no momento que nos descobrimos na existência no mundo; mas isso não se traduz que todos vivam assim em angústias, pois se valem da crença de que nessa ação só há convolução de si próprios, justificados também na crença que nem todo mundo age assim, entendida pelo filósofo como uma atitude de má-fé, pois o que está em jogo é o fato de se todo mundo agisse assim. Esse ato de mentir traduz o não estar a vontade com a sua própria consciência, mesmo porque o mentir se atribuiu pela sua própria escolha. Questiona também o direito de imposição de valores, concepções pessoais a todos os outros, na tentativa de exercer o direito de guiar toda a humanidade a partir de seus próprios atos. Conclui que isso é angústia, a responsabilidade transcendida do eu para o todo. A inatividade, portanto, é impedida pela angústia que se torna a própria condição da ação, orientada por muitas possibilidades, e, quando uma dessas possibilidades é a escolhida, cria-se o seu senso de valor exatamente porque foi escolhida.
Lembra que o homem está abandonado por não tem em si ou fora dele o que se apegar; o existencialismo jamais se utilizará da ação do impulso ou paixão como desculpa para nossas atitudes, pois somos responsáveis por todos, bem esse mesmo existencialista pensará que o homem pose se orientar por sinais existentes na terra, pois esse homem subjetivamente interpretará o sinal como bem quiser. Então, afirma que a doutrina existencialista só reconhece a realidade da ação, não do quietismo.
Vivência
O homem é seu projeto e só existirá mediante essa realização de projeto, portanto, resumindo-se ao conjunto dos seus atos. Podemos continuar então entendendo que o homem só o é em razão do que realiza, responsável por si mesmo, se é heroi ou covarde, um gênio ou um medíocre, isso tudo decorre na medida que sua essência se constitui depois da existência, pois mesmo que ele se deixei ao léu, isso também é uma escolha. Então, não é o existencialismo um pensamento pessimista, muito pelo contrário, pois afirma que o destino dos homens está nas suas próprias mãos.
O existencialismo se confunde com a subjetividade do indivíduo, pois esta a precede. É o existencialismo um ensino que tem suas bases na verdade, mantendo-se realista ante pensamentos utópicos, bonitos, esperançosos sem uma base real. Concorda com o cogito como existência. Portanto, todos os ensinos que colocam o homem além do mundo de realidades, faz desaparecer a verdade, pois é através do pensar, do cogitar, que nos descobrimos o nosso próprio eu como também os demais. E essa descoberta do nosso eu próprio é refletida da face do outro, levando-nos ao entendimento que a nossa condição de existência passa pela condição de existência do outro. Portanto, nosso real não é nada se ele for conhecido pelo outro como tal. Descobrindo-nos, descobrimos o outro.
Por fim, a grande afirmação de Sartre aos deterministas: o existencialismo é um humanismo. Explica isso pela constatação que o homem sempre está fora de si mesmo, projetando-se ou perdendo-se fora de si que é capaz de existir esse homem. Não há outro universo, do que o humano, o universo da subjetividade, pois ao existir, o homem induz a existência do outro em uma dependência entre todos, condição necessária que também induz o homem e não o permite fechar-se em si mesmo, mas fazendo-se presente no viver humano, no universo existencialista.

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