COMENTÁRIOS
Sartre,
Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Tradutora: Rita Correia
Guedes. Fonte: L’Existentialisme est un Humanisme, Les Éditions
Nagel, Paris, 1970
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Sartre se propõe da defender o Existencialismo de sua doutrina dos
ataques do entendimento determinista, ou seja, cada um tem seu lugar
na história e tudo o que faz deveria ser uma filosofia
contemplativa, chamada por ele de filosofia burguesa.
Entre as críticas, aquelas que apontam nos existencialistas que
levavam as pessoas ao quietismo, no enfatizar da ignomínia humana, o
sórdido, o equívoco, o viscoso, das belezas ditas radiosas (como
esquecer o sorriso da criança), bem como negar a solidariedade
humana. Os comunistas acusam os existencialistas disso a partir do
subjetivo tido no cartesianismo do penso, ou seja, do homem estar
diante de sua solidão, o que impede de voltar a solidariedade. Por
parte dos cristãos, o existencialismo é criticado por não
reconhecer os mandamentos divinos, os quais suprimidos, levariam o
homem ao anarquismo.
Defende então, nas suas pontuações, que o existencialismo é um
humanismo, na medida que torna a vida humana possível e que toda a
verdade, ação estão sob os domínios da subjetividade humana.
Afirma, outrossim, que comparação que se faz do existencialismo é
do feio, confundindo o existencialismo com o naturalismo, o que gera
uma apreensão em Sartre é porque o existencialismo assusta e
escandaliza o naturalismo propriamente dito.
Resume essa parte na tentativa determinista de achar um lugar de
utilidade para tudo, através de uma crítica a inovação, ou seja,
tudo está destinado a seguir um preordenamento: ação não apoiada
na tradição é romantismo; não apoiada na experiência, é o
fracasso. Nesse aspecto, os detratores do existencialismo são os
mesmos que se deleitam com a perversidade.
No seu intento de dar uma face verdadeira ao existencialismo,
considera o fato de todos que se declaram existencialistas teriam
dificuldades de explicar o que realmente isso é. Lembram que existem
os “existencialistas “ cristãos e os ateus, amarrados somente
pelo fato de entenderem a existência precedente a essência.
Para explicar a questão do existencialismo, parte de pensamentos
deterministas, a partir da metáfora do livro e do corta papel:
feitos a partir de uma receita e com finalidades definidas. Ambos são
objetos com fins bem definidos. Imaginando que fossem esses objetos
construídos sem saber de sua destinação, ter-se-á de admitir que
a essência precede a existência, tanto quanto o determinismo
dirigido ao livro e ao corta papel nas suas e únicas funções.
Sartre se posiciona contra a “essência” preceder a
“existência”, ou seja, exatamente pelo seu inverso, significando
que o homem existe e encontra-se consigo mesmo, nasce ou surge no
mundo e só posteriormente se define, portanto, não é definível
anteriormente, a não ser depois de constituir no que ele fizer a si
mesmo.
Ao entender que existe duas classes distintas de existencialistas,
declarados como cristãos ou ateus, reunidos sob um princípio comum
de o existir preceder a essência, deve ser entendido que o homem não
é um projeto pensado, mas estruturados depois com nossa ação, ou
seja, primeiro existimos, depois nos definimos em nossa “essência”,
mas criticando o existencialismo cristão, pois este ao admitir um
princípio Criador (Deus), é identificado que sua vontade é a
regente da vida do ser humano, pois Deus tem ciência do que cria e
como será, ou seja, a essência precederá a existência. Mesmo
entre o ateus filósofos do século XVII, que mesmo suprimindo Deus
de suas considerações, continuam defendendo a “essência” antes
da existência na concepção da ideia de uma “natureza humana”.
Sartre então se posiciona como um existencialista mais coerente, ou
seja, se Deus não existe, questiona se pelo menos deveria existir
um ser no qual a existência precede a essência, um não
conceituável. Seria esse o homem ou sua realidade humana? (cita
Heidegger). Entende também a precedência da existência sobre a
essência, esta emulada a partir de surgir e depois se definir no
mundo. O homem assim entendido pelo existencialismo não foi
definido, pois primeiro nada é; só depois se constituirá pela
descoberta e definições. Portanto, como não há Deus para o
conceber, assim também não é existe a chamada natureza humana. O
homem, por fim, se descobre depois da existência.
Princípios do existencialismo:
A Subjetividade, ou seja, a opção da escolha. Nessa ação de
escolha, o homem também se escolhe.
O homem primeiro existe, lançando-se depois para um futuro, sendo
antes de tudo, um projeto que se desenrola no subjetivo, no lugar de
ser qualquer outra coisa. Será o que projetar, imaginar ser, não o
que ele quer, pois, aquilo que se chama de de querer é , na verdade,
uma decisão do seu consciente, posterizado para aquilo que ele
próprio laborou. Pode querer tudo na vida (escrever, casar, etc..),
mas isso é o reflexo acontecido de escolhas mais primitivas daquilo
que entendemos por vontade, tornando-o, pois, na existência que
precede a essência, responsabilizado por aquilo que é; conduz ao
entendimento, portanto, que o primeiro ato do existencialismo é por
o homem no domínio daquilo que ele é e lhe atribuir toda a
responsabilidade existencial e de todos os homens.
O exercício da subjetividade agasalha duas direções: a escolha do
sujeito individual e a impossibilidade de superação da
subjetividade humana, pois o homem ao se escolher, também escolhe
todos os outros homens.
As nossa atitudes de criar o homem que desejamos ser constituídos,
também criará a imagem do homem que deve ser, idealizado, pois as
nossas escolhas nesse ou naquele sentido afirma-se o valor do que foi
escolhido, pois não podemos escolher o mal, mas sim sempre o bem.
Isso cria o valor de juízo de que, o que é bom para nós,
necessariamente deverá ser bom também para os demais. Isso nos
afirma na responsabilidade muito maior do que poderíamos imaginar,
pois envolve toda a espécie. Essa responsabilidade tem o poder de
agasalhar angústias, desesperos, abandonos, no momento que nos
descobrimos na existência no mundo; mas isso não se traduz que
todos vivam assim em angústias, pois se valem da crença de que
nessa ação só há convolução de si próprios, justificados
também na crença que nem todo mundo age assim, entendida pelo
filósofo como uma atitude de má-fé, pois o que está em jogo é o
fato de se todo mundo agisse assim. Esse ato de mentir traduz o não
estar a vontade com a sua própria consciência, mesmo porque o
mentir se atribuiu pela sua própria escolha. Questiona também o
direito de imposição de valores, concepções pessoais a todos os
outros, na tentativa de exercer o direito de guiar toda a humanidade
a partir de seus próprios atos. Conclui que isso é angústia, a
responsabilidade transcendida do eu para o todo. A inatividade,
portanto, é impedida pela angústia que se torna a própria condição
da ação, orientada por muitas possibilidades, e, quando uma dessas
possibilidades é a escolhida, cria-se o seu senso de valor
exatamente porque foi escolhida.
Lembra que o homem está abandonado por não tem em si ou fora dele
o que se apegar; o existencialismo jamais se utilizará da ação do
impulso ou paixão como desculpa para nossas atitudes, pois somos
responsáveis por todos, bem esse mesmo existencialista pensará que
o homem pose se orientar por sinais existentes na terra, pois esse
homem subjetivamente interpretará o sinal como bem quiser. Então,
afirma que a doutrina existencialista só reconhece a realidade da
ação, não do quietismo.
Vivência
O homem é seu projeto e só existirá mediante essa realização de
projeto, portanto, resumindo-se ao conjunto dos seus atos. Podemos
continuar então entendendo que o homem só o é em razão do que
realiza, responsável por si mesmo, se é heroi ou covarde, um gênio
ou um medíocre, isso tudo decorre na medida que sua essência se
constitui depois da existência, pois mesmo que ele se deixei ao léu,
isso também é uma escolha. Então, não é o existencialismo um
pensamento pessimista, muito pelo contrário, pois afirma que o
destino dos homens está nas suas próprias mãos.
O existencialismo se confunde com a subjetividade do indivíduo,
pois esta a precede. É o existencialismo um ensino que tem suas
bases na verdade, mantendo-se realista ante pensamentos utópicos,
bonitos, esperançosos sem uma base real. Concorda com o cogito como
existência. Portanto, todos os ensinos que colocam o homem além do
mundo de realidades, faz desaparecer a verdade, pois é através do
pensar, do cogitar, que nos descobrimos o nosso próprio eu como
também os demais. E essa descoberta do nosso eu próprio é
refletida da face do outro, levando-nos ao entendimento que a nossa
condição de existência passa pela condição de existência do
outro. Portanto, nosso real não é nada se ele for conhecido pelo
outro como tal. Descobrindo-nos, descobrimos o outro.
Por fim, a grande afirmação de
Sartre aos deterministas: o existencialismo é um humanismo. Explica
isso pela constatação que o homem sempre está fora de si mesmo,
projetando-se ou perdendo-se fora de si que é capaz de existir esse
homem. Não há outro universo, do que o humano, o universo da
subjetividade, pois ao existir, o homem induz a existência do outro
em uma dependência entre todos, condição necessária que também
induz o homem e não o permite fechar-se em si mesmo, mas fazendo-se
presente no viver humano, no universo existencialista.

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