sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Desejo em Sartre





O Desejo em Sartre 1


«..O sábado foi feito para servir ao homem, e não o homem para servir ao sábado… “2


Sartre nos distancia das coisas nas suas reflexões sobre o em-si e o para-si, pois em sua concepção, as coisas são o em-si, ou seja, são completos tanto em sua forma como em sua destinação, não tendo mais nenhuma capacidade de evoluírem para uma outra situação que lhes caiba mudanças além daquilo a que se prestam, entendido que se remanufaturadas, novamente se encontrarão na mesma situação. Essa proposta está na convicção que as coisas que são construídas para um determinado final, são completas em si mesmo, e se relatadas suas histórias, estas se referem a como nos relacionamos com elas, ou seja, desde a preparação de seus materiais de construção até a obra final, esta marcada pelo determinismo de sua função. Um carro sempre será um carro no seu uso.
É dentro do escopo de completude que aparece a figura do para-si, ou seja, o homem é o que se busca, é seu próprio objeto final. Mas, para tanto, obrigamo-nos a acreditar que não exista nele um inatismo propriamente dito, apenas o cogito, condicionado a uma consciência não existencial 3, mas como uma página em branco onde se poderá escrever toda a sua vida e até mesmo uma página final que jamais será lida por ele mesmo.
Mas o que é o para-si e como se realiza? A construção de Sartre baseia-se em premissas, na qual se destaca a expressão de liberdade que o homem é, ou seja, o homem está fadado a liberdade exatamente porque pode e deve construir sua vida. Logo, o em-si é o quietismo, aquilo que não se movimenta; o para-si, é o voltado ao ser humano, ao seu movimento imanente, em busca do algo final a sua vida, quando então será igualado ao em-si, pois na sua morte, não lerá a sua página final de construção, ao mesmo tempo que tomará uma posição quietista, sem movimento.
A expressão que realiza tudo isso é a ação da nadificação4, ou seja, transformar as coisas a partir de nossas escolhas. Somos livres então pelas nossas escolhas, sem nenhuma regra, sem nenhum modelo preconcebido, já feito e terminado.
Mas tudo isso está diante da nossa sensação da angustia sartriana, ou seja, que nos coloca no nosso nada; e tem nesse sentido de ação exatamente o desejo, e essa nada mais é do que conceber o ter do que nos falta, não entendido nas coisas materiais imediatas, mas sim no próprio desejo de ser. Nesse aspecto, não sabemos o que queremos, mas queremos esse não saber o que é, e isso causa esse movimento em nosso ser, ou seja, queremos o nosso “ser”. A verdade de Sartre se coaduna com os objetos perdidos para sempre da psicanálise freudiana, na medida que reconhece que jamais alcançaremos esse objeto.
Portanto, o desejo em Sartre caminha no sentido do para-si e ter o desejo de si mesmo, entendido na nossa falta. Esse pensamento se reporta as suas primeiras indagações sobre a questão da essência, ou seja, se ela existe antes de nós ou se a adquirimos na nossa escritura do livro da nossa vida. Nesse aspecto, não deve ser compreendido que o ser humano é um “ser humano” porque tem ou possui “essência” da humanidade precedendo a existência, mas sim que é um ser que tem uma existência que precede a sua essência, essa formatada no decurso de nossa vida de forma individual, como uma experimentação. O desejo, portanto, é essa resposta a nossa estrutural falta, que somente se completará na nossa morte. O desejo é o que movimenta, segundo Sartre, essa busca continua. Complementando: o desejo em Sartre se define na medida que entendemos o em-si e o para-si.


O Desejo em Lacan
Pensem nas coisas do alto, e não nas coisas da terra…”5
O “cogito ergo sum”6 de Descartes modula, faz modular a existência a partir da constatação da capacidade de pensar, desejar, questionar, portanto, o sujeito existe. Mas essa existência é dependente de um princípio anterior, perfeito, Deus. O homem então é aquele que pensa Deus, pois este é o autor de toda perfeição, mesmo porque, sendo o homem imperfeito, este é subjacente ao necessário perfeito existente anteriormente, assim como o infinito existe e é antes do finito.
Essa capacidade de pensar é essencial em Sartre, retirado o inatismo recorrente, pois dela é que se formará a nossa “essência” como condição ulterior a existência, e este pensar, tanto em Descartes como em Sartre, estão no consciente, instância da verdade.
Particularmente em Sartre, também é considerado a falta como elemento ativador do desejo, ou seja, é desse desejo de ser que fundamenta o desejo e até mesmo a angústia. Esse é o ponto de contato entre Lacan e Sartre, ou seja, o desejo é o desejo de nada.
O desejo em Lacan é o desejo do nada, na falta existencial sartriana, mas mediado nas regiões do inconsciente, ou seja, Lacan usa dessa falta existencial para pontuar o sujeito do inconsciente, pois é nessa instância do psiquismo humano que se formula o desejo, as escolhas, daquilo que nos falta; o desejo Lacaniano é o desejo de “falta a ser”, o de aspirar, o do querer. Esse desejo não se consome no objeto do desejo, mas como posteriormente Lacan nos dirá, ele desliza de significante7 em significante, naquilo que nos ordena o desejo como desejo do outro, e uma vez satisfeito, terá um novo objeto, um outro em um outro, numa caminhada que não terá fim, dentro de uma concepção do devir, do que virá a seguir.
Não é difícil entrever as comunicações fundamentais que existem entre ambos, centrada na falta – falta existencial em Sartre e falta do ser em Lacan – mas entendemos que enquanto o primeiro se alinha a questão da consciência como sede da verdade, o segundo reafirma Freud, ou seja, que somos regidos pelo nosso inconsciente, sendo então que no consciente está a ocultação, a máscara. E aqui está esse fundamental entre ambos. Imaginamos, porem, que Lacan tece uma situação mais permanente, mais elaborada, a partir do nossa perda fundamental, a Coisa freudiana, que ele vai explicar como a falta não simbolizada, por isso não pode e não tem como ser dita. Em Sartre e seus pressupostos, tendo como base o consciente, podemos escrever o livro de nossa vida, ou seja, nossas escolhas – destacamos a página magnífica de Sartre sobre a escolha do outro a partir de nossa própria escolha de nós mesmos, o que nos leva a ter responsabilidade também com o outro – é nos legado a capacidade de também escrever a nossa última página, mesmo que a não leiamos. Em Lacan tudo isso é desejo do inconsciente! Lacan, mesmo considerando essa falta estrutural, como já dito, a partir de Freud, considera que nossos desejos são de satisfação imediata e pessoal, sendo que nossa civilidade está nas castrações e recalques a nós submetidas para que possamos viver em comunidade, ou seja, termos gerência do princípio da realidade. E nisso tudo sobressai a figura do nosso desejo ser o desejo do outro.
Devemos, portanto, almejar as coisas maiores a partir da nossa capacidade de elaboração do que se apresenta ao nosso desejo, e com isso caminhar na direção do dia que encerraremos o livro da vida que nos foi dado a escrever, cessando também nosso desejo!
Referências
Biblia Eletrônica Paullus. Disponível em < http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_INDEX.HTM >. Acessado em 11-07-2018.
Dos Santos, Vinicius. O desejo-de-ser e os impasses da ontologia de Sartre. Pensando – Revista de Filosofia Vol. 3, Nº 5, 2012. Disponível em < http://www.ojs.ufpi.br/index.php/pensando/article/view/605/704 >. Acessado em 06 de julho de 2018
Nadificar. Disponível em http://michaelis.uol.com.br/busca?id=qOb5p > Acessado em 11-07-2018.
Pattussi, Návia P. O significante na clínica psicanalítica. Disponível em < http://www.movimentopsicanalitico.com.br/publicacoes.php?id_pub=10&id=2 > . Acessado em 11/07/2018
Tética. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013. Disponível em < https://www.priberam.pt/dlpo/tética. Acessado em 11-07-2018.
1”Para Sartre, o cogito cartesiano é o ponto de partida necessário do estudo da realidade humana. Cumpre notar, porém, que este cogito está condicionado a uma estrutura anterior, a um cogito pre rreflexivo (a chamada “consciência não‐tética (de) si”) que, em linhas gerais, é a consciência intencional husserliana radicalmente purificada, isto é, o nada, fundamento ontológico da liberdade (cf.SARTRE, Jean-­‐Paul. L’être et le néant. Paris: Gallimard, 2007, pp. 16 e ss.). Apud Dos Santos, Vinicius. O desejo-de-ser e os impasses da ontologia de Sartre. Pensando – Revista de Filosofia Vol. 3, Nº 5, 2012. Disponível em < http://www.ojs.ufpi.br/index.php/pensando/article/view/605/704 >. Acessado em 06 de julho de 2018
2Ev. São Marcos 2,27
3“não-tética de si”, entendido filosoficamente tético como Relativo a tese, a uma afirmação teórica (ex.: termos téticos) ou que concebe algo como existente (ex.: .caráter tético de um evento). = EXISTENCIAL. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013. Disponível em < https://www.priberam.pt/dlpo/tética. Acessado em 11-07-2018.
4Conforme o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), eliminar, pela vontade da consciência, infinitas possibilidades em consequência de uma opção livre; por exemplo, quando estou à espera de uma pessoa num local público, nadifico todas as outras faces ao meu redor, pois elas não correspondem àquela que busco. Disponível em http://michaelis.uol.com.br/busca?id=qOb5p > Acessado em 11-07-2018.
5Carta de São Paulo aos Colossenses, capítulo 3, vers. 2 – Bíblia Eletrônica Paullus – Disponível em < http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_P10J.HTM > Acessado em 11/07/2018.
6Penso, logo sou (existo).
7“Elemento do discurso situável tanto ao nível consciente como inconsciente, que representa e determina o sujeito” (CHEMAMA, 2007, p.346). Na definição de Lacan, "um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante" (LACAN, 1960/1998, p.833). Apud Pattussi, Návia P. O significante na clínica psicanalítica. Disponível em < http://www.movimentopsicanalitico.com.br/publicacoes.php?id_pub=10&id=2 > . Acessado em 11/07/2018

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