O
Desejo em Sartre 1
«..O
sábado foi feito para servir ao homem, e não o homem para servir ao
sábado… “2
Sartre
nos distancia das coisas nas suas reflexões sobre o em-si
e o para-si,
pois em sua concepção, as coisas são o em-si, ou seja, são
completos tanto em sua forma como em sua destinação, não tendo
mais nenhuma capacidade de evoluírem para uma outra situação que
lhes caiba mudanças além daquilo a que se prestam, entendido que se
remanufaturadas, novamente se encontrarão na mesma situação. Essa
proposta está na convicção que as coisas que são construídas
para um determinado final, são completas em si mesmo, e se relatadas
suas histórias, estas se referem a como nos relacionamos com elas,
ou seja, desde a preparação de seus materiais de construção até
a obra final, esta marcada pelo determinismo de sua função. Um
carro sempre será um carro no seu uso.
É
dentro do escopo de completude que aparece a figura do para-si,
ou seja, o homem é o que se busca, é seu próprio objeto final.
Mas, para tanto, obrigamo-nos a acreditar que não exista nele um
inatismo propriamente dito, apenas o cogito, condicionado a uma
consciência não existencial 3,
mas como uma página em branco onde se poderá escrever toda a sua
vida e até mesmo uma página final que jamais será lida por ele
mesmo.
Mas
o que é o para-si e como se realiza? A construção de Sartre
baseia-se em premissas, na qual se destaca a expressão de liberdade
que o homem é, ou seja, o homem está fadado a liberdade exatamente
porque pode e deve construir sua vida. Logo, o em-si é o quietismo,
aquilo que não se movimenta; o para-si, é o voltado ao ser humano,
ao seu movimento imanente, em busca do algo final a sua vida, quando
então será igualado ao em-si, pois na sua morte, não lerá a sua
página final de construção, ao mesmo tempo que tomará uma posição
quietista, sem movimento.
A
expressão que realiza tudo isso é a ação da nadificação4,
ou seja, transformar as coisas a partir de nossas escolhas. Somos
livres então pelas nossas escolhas, sem nenhuma regra, sem nenhum
modelo preconcebido, já feito e terminado.
Mas
tudo isso está diante da nossa sensação da angustia sartriana, ou
seja, que nos coloca no nosso nada; e tem nesse sentido de ação
exatamente o desejo, e essa nada mais é do que conceber o ter do que
nos falta, não entendido nas coisas materiais imediatas, mas sim no
próprio desejo de ser. Nesse aspecto, não sabemos o que queremos,
mas queremos esse não saber o que é, e isso causa esse movimento em
nosso ser, ou seja, queremos o nosso “ser”. A verdade de Sartre
se coaduna com os objetos perdidos para sempre da psicanálise
freudiana, na medida que reconhece que jamais alcançaremos esse
objeto.
Portanto,
o desejo em Sartre caminha no sentido do para-si e ter o desejo de si
mesmo, entendido na nossa falta. Esse pensamento se reporta as suas
primeiras indagações sobre a questão da essência, ou seja, se ela
existe antes de nós ou se a adquirimos na nossa escritura do livro
da nossa vida. Nesse aspecto, não deve ser compreendido que o ser
humano é um “ser humano” porque tem ou possui “essência” da
humanidade precedendo a existência, mas sim que é um ser que tem
uma existência que precede a sua essência, essa formatada no
decurso de nossa vida de forma individual, como uma experimentação.
O desejo, portanto, é essa resposta a nossa estrutural falta, que
somente se completará na nossa morte. O desejo é o que movimenta,
segundo Sartre, essa busca continua. Complementando: o desejo em
Sartre se define na medida que entendemos o em-si e o para-si.
O
Desejo em Lacan
O
“cogito ergo sum”6
de Descartes modula, faz modular a existência a partir da
constatação da capacidade de pensar, desejar, questionar, portanto,
o sujeito existe. Mas essa existência é dependente de um princípio
anterior, perfeito, Deus. O homem então é aquele que pensa Deus,
pois este é o autor de toda perfeição, mesmo porque, sendo o homem
imperfeito, este é subjacente ao necessário perfeito existente
anteriormente, assim como o infinito existe e é antes do finito.
Essa
capacidade de pensar é essencial em Sartre, retirado o inatismo
recorrente, pois dela é que se formará a nossa “essência” como
condição ulterior a existência, e este pensar, tanto em Descartes
como em Sartre, estão no consciente, instância da verdade.
Particularmente
em Sartre, também é considerado a falta como elemento ativador do
desejo, ou seja, é desse desejo de ser que fundamenta o desejo e até
mesmo a angústia. Esse é o ponto de contato entre Lacan e Sartre,
ou seja, o desejo é o desejo de nada.
O
desejo em Lacan é o desejo do nada, na falta existencial sartriana,
mas mediado nas regiões do inconsciente, ou seja, Lacan usa dessa
falta existencial para pontuar o sujeito do inconsciente, pois é
nessa instância do psiquismo humano que se formula o desejo, as
escolhas, daquilo que nos falta; o desejo Lacaniano é o desejo de
“falta a ser”, o de aspirar, o do querer. Esse desejo não se
consome no objeto do desejo, mas como posteriormente Lacan nos dirá,
ele desliza de significante7
em significante, naquilo que nos ordena o desejo como desejo do
outro, e uma vez satisfeito, terá um novo objeto, um outro em um
outro, numa caminhada que não terá fim, dentro de uma concepção
do devir, do que virá a seguir.
Não
é difícil entrever as comunicações fundamentais que existem entre
ambos, centrada na falta – falta existencial em Sartre e falta do
ser em Lacan – mas entendemos que enquanto o primeiro se alinha a
questão da consciência como sede da verdade, o segundo reafirma
Freud, ou seja, que somos regidos pelo nosso inconsciente, sendo
então que no consciente está a ocultação, a máscara. E aqui está
esse fundamental entre ambos. Imaginamos, porem, que Lacan tece uma
situação mais permanente, mais elaborada, a partir do nossa perda
fundamental, a Coisa freudiana, que ele vai explicar como a falta não
simbolizada, por isso não pode e não tem como ser dita. Em Sartre
e seus pressupostos, tendo como base o consciente, podemos escrever o
livro de nossa vida, ou seja, nossas escolhas – destacamos a página
magnífica de Sartre sobre a escolha do outro a partir de nossa
própria escolha de nós mesmos, o que nos leva a ter
responsabilidade também com o outro – é nos legado a capacidade
de também escrever a nossa última página, mesmo que a não
leiamos. Em Lacan tudo isso é desejo do inconsciente! Lacan, mesmo
considerando essa falta estrutural, como já dito, a partir de Freud,
considera que nossos desejos são de satisfação imediata e pessoal,
sendo que nossa civilidade está nas castrações e recalques a nós
submetidas para que possamos viver em comunidade, ou seja, termos
gerência do princípio da realidade. E nisso tudo sobressai a figura
do nosso desejo ser o desejo do outro.
Devemos,
portanto, almejar as coisas maiores a partir da nossa capacidade de
elaboração do que se apresenta ao nosso desejo, e com isso caminhar
na direção do dia que encerraremos o livro da vida que nos foi dado
a escrever, cessando também nosso desejo!
Referências
Biblia
Eletrônica Paullus. Disponível em <
http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_INDEX.HTM
>. Acessado em 11-07-2018.
Dos
Santos, Vinicius. O desejo-de-ser e os impasses da ontologia de
Sartre. Pensando – Revista de Filosofia Vol. 3, Nº 5, 2012.
Disponível em <
http://www.ojs.ufpi.br/index.php/pensando/article/view/605/704 >.
Acessado em 06 de julho de 2018
Nadificar.
Disponível em http://michaelis.uol.com.br/busca?id=qOb5p >
Acessado em 11-07-2018.
Pattussi,
Návia P. O significante na clínica psicanalítica. Disponível em <
http://www.movimentopsicanalitico.com.br/publicacoes.php?id_pub=10&id=2
> . Acessado em 11/07/2018
Tética.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013. Disponível em
< https://www.priberam.pt/dlpo/tética. Acessado em 11-07-2018.
1”Para
Sartre, o cogito cartesiano é o ponto de partida necessário do
estudo da realidade humana. Cumpre notar, porém, que este cogito
está condicionado a uma estrutura anterior, a um cogito pre
rreflexivo (a chamada “consciência não‐tética (de) si”)
que, em linhas gerais, é a consciência intencional husserliana
radicalmente purificada, isto é, o nada, fundamento ontológico da
liberdade (cf.SARTRE, Jean-‐Paul. L’être et le néant.
Paris: Gallimard, 2007, pp. 16 e ss.). Apud Dos Santos, Vinicius. O
desejo-de-ser e os impasses da ontologia de Sartre. Pensando –
Revista de Filosofia Vol. 3, Nº 5, 2012. Disponível em <
http://www.ojs.ufpi.br/index.php/pensando/article/view/605/704 >.
Acessado em 06 de julho de 2018
2Ev.
São Marcos 2,27
3“não-tética
de si”, entendido filosoficamente tético como Relativo a tese,
a uma afirmação teórica (ex.: termos téticos) ou que concebe
algo como existente (ex.: .caráter tético de um evento). =
EXISTENCIAL. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013.
Disponível em < https://www.priberam.pt/dlpo/tética.
Acessado em 11-07-2018.
4Conforme
o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), eliminar, pela
vontade da consciência, infinitas possibilidades em consequência
de uma opção livre; por exemplo, quando estou à espera de uma
pessoa num local público, nadifico todas as outras faces ao meu
redor, pois elas não correspondem àquela que busco. Disponível em
http://michaelis.uol.com.br/busca?id=qOb5p
> Acessado em 11-07-2018.
5Carta
de São Paulo aos Colossenses, capítulo 3, vers. 2 – Bíblia
Eletrônica Paullus – Disponível em <
http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_P10J.HTM
> Acessado em 11/07/2018.
6Penso,
logo sou (existo).
7“Elemento
do discurso situável tanto ao nível consciente como inconsciente,
que representa e determina o sujeito” (CHEMAMA, 2007, p.346). Na
definição de Lacan, "um significante é aquilo que representa
o sujeito para outro significante" (LACAN, 1960/1998, p.833).
Apud Pattussi, Návia P. O significante na clínica psicanalítica.
Disponível em <
http://www.movimentopsicanalitico.com.br/publicacoes.php?id_pub=10&id=2
> . Acessado em 11/07/2018

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