Inatismo/dualismo das Ideias?
Um dos aspectos mais interessantes da
chamada heresia Nestoriana foi negar o caráter unitário da parte
humana e parte divina de Cristo, separando-a, aproximando-se da
crença “adocionista” que dizia que o homem Jesus foi adotado
pela Divindade, o que transformaria Cristo em um corpo “possuído”
por um espírito (um dos questionamentos sobre isso seria “quem ou
quê” morreu na Cruz, trazendo vários prejuízos as necessidades
do ato do processo de Salvação do Homem!) Em reação a essa
heresia e também para combatê-la, o “monofisismo” (ou seja, uma
só ser, mas duas naturezas unidas de forma hipostática, de forma
que se uma for separada da outra, não existirá o toma corpo,
perdurando até os dias de hoje.
A idade moderna recebeu de herança
os ensinamentos, em particular, de Santo Agostinho, no qual há
dois amores, um terreno, amor próprio, que leva ao desprezo de Deus,
e outro celestial, que leva ao desprezo de si mesmo e amar Deus,
neste caso o Sumo Bem.
Se justifica aqui a ordem das nossas paixões: Amor-Ódio;
Desejo-Aversão; Gozo-Sofrimento.
A questão
materialista não procura no homem nem ser “monofisista” ou mesmo
concordar com o esquema recebido de nossas paixões, antes, a coloca
ou tenta colocar no seu aspecto da percepção, ou seja, que todo
conhecimento esta nos sistemas da natureza, estes, uma vez despertado
pelos sentidos, são colocados em comum para os outros.
Passamos por
vários pensadores, mas foi em Condillac que o esquema se propaga na
nossa era científica, de facilidades da comunicação e expressão
verbal.
Condillac, assim
podemos comparar, também cria da terra um ser que depois lhe será
soprado na narina alma vivente, para tanto, admite que esse ser
natural, feito da terra, tenha capacidades de sensibilidade e de
recepção, e é a partir dai que ela começa a ter as experiencias
sensoriais que terminarão em consequências. Note-se que aqui o
“espírito” seria a capacidade da ilação.
Condillac a faz
inaugurar cada um de seus canais sensíveis, começando pelo
entendido ser o de menor recurso, o olfato. Considera ele que o do
tato seria o mais possível de entendimentos do seu derredor,
considerado que todos os órgãos da experiência sensível da
estátua tem sua equivalência e independência na geração das
faculdades, entendimento.
Estabelece nesse aspecto de
sensibilidade uma hierarquia, formulada a partir da repetição da
experiência: a atenção, a comparação, retenção, recordação,
ilação. Isso é possível para que a estátua nunca imaginasse
sempre estar em uma primeira experiência quando da repetição.
Resulta desse processo os resultados de conveniência ou não dessas
sensações.
Por conseguinte, essa ação de
comparação das sensações recebidas, tangidas pela atenção a
elas destinada, pela sua inscrição bem como pela sua capacidade
invocativa pela imaginação, resultara como derivante a qualidade de
ser mais conveniente ou não.
Isso resultará em processos mentais
complexos, encadeador de ideias e ações, medidos pelo contentamento
ou descontentamento. Crivando isso, instaura-se procedimentos de
evitar o desprazer, bem como emulará situações de movimento, seja
em busca do prazer, seja como evitar o desprazer.
Interessa notar que a inquietude
desse estado de procura prazer /desprazer não está articulado com a
falta do objeto de prazer inicialmente, mas é exatamente essa falta
que causa a busca do objeto. Essa é a gênese do desejo.
Da questão da ordem quantitativa e
qualitativa
Freud, é herdeiro
de todo esses pensamentos que marcaram os anos de 1600 a 1800, no
qual houve uma reação ao dualismo de Kant, onde ele assevera a
dicotomia existente o res
extensa –
coisa extensa, o corpo e a res
cogitans
– coisa pensante, a consciência. O corpo tem suas dimensões e a
mente não, ela tem uma imaterialidade, unidos corpo e o pensamento
pela glândula pienal. Pensa Kant em uma predominância do res
cogitans – a consciência - sobre a imagem material, duvidando ele
mesmo da sua existência; que a consciência teria a sua própria
capacidade de sua elucubração, sintetizada no “cogito,
ergo sum”,
ou “penso,
logo existo“.
Nesse
aspecto, podemos dizer que houveram filósofos inimigos disso,
atualizando o pensamento monista materialista, ou seja, que o homem
se resolve com seus atributos naturais.
É nesse aspecto que Freud manifesta
em seu Projeto, ou seja, de uma psicologia científico-naturalista,
baseados exatamente nessa naturalidade do homem, portanto, fez ele se
encarregar de colidir o corpo e mente sobre as bases da ciência
natural, animada pela herança filosófica das paixões, em
particular, Condillac.
Faz
parte da consideração de seu estudo as relações entre a
quantidade – cargas e impulsos – que transitam e seu meio, os
neurônios. Está assentado na lei geral do movimento, lei da inércia
(diferença entre atividade de repouso) o que impeliu as
considerações sobre a natureza quantitativa, ou seja, mensurar o
esforço, além de abordar a questão qualitativa. Considerou a
natureza do neurônio em descarregar os impulsos recebidos.
Suas considerações foram sobre um
desenho do sistema nervoso que privilegia a manutenção da variação
de estímulos recebidos no mínimo possível, próxima de zero, com
seu escoamento para a atividade motora.
Freud
considera a permeabilidade ou impermeabilidade neuronial. Nesse
aspecto, obrigou-se ao diferenciamento dos neurônios, sejam eles do
tipo phi, o qual permite um percurso livre, sem oposição, entre a
extremidade da percepção a extremidade motora responsável.
Entretanto, como na Estátua de Condillac, ao reconhecer a existência
diversa de fontes de excitação, esta se constituiu como a plenitude
do que designou aparelho neurológico, e suas funções de percepção,
memória e consciência.
O desenho de constituição neuronal,
é visto iniciando em um sistema nervoso primário que funciona nos
estágios sensoriais e motores, por sua própria auto-indução,
imaginado como função primária, inconsciente , a qual visa somente
se manter livre de estímulos. Esse parte do sistema nervoso não
tem retenção de memória.
Mas
existem também processos que não são escoados de forma imediata.
São emanações endógenas, e estão ligados ao processos da fome,
respiração, sexualidade, entre outros, a quais inicialmente não se
permitem a sua eliminação pela descarga motora. Isso implica que,
como outro tipo de processo relacionado a manutenção da vida, o
sistema nervoso também armazenará parte dessa estímulo, que serão
utilizados em manipulações ulteriores.
A
repetição desses estímulos endógenos será causa de comparações
e que levarão a sua conquista através de funções representativas
desses interesses. É a partir dessa fonte de estímulos endógenos
que se desenvolve uma regra de constância, o qual se manifesta no
arrefecimento ao princípio da inércia, obrigado o princípio do
prazer ser menos um escoamento, descarga das excitações mas sim uma
eliminação do excesso, mantendo seu nível constante.
Deve-se
se trazer aqui que a função primária tem concomitantemente ao seu
lado o início de função secundária (pré-consciência e
consciência), função essa que ocorre na manutenção da
adequabilidade de excitação e uma constância no seu próprio
recarregamento.
Freud
considera a existência no sistema nervoso de neurônios distintos,
interligados, os quais se prefiguram em certas direções de
escoamento. Essa distinção não é quanto a forma, mas sim pela
percepção que recebem através de seus prolongamentos celulares e
os escoam por meio de cilindros do eixo, além de numerosa
ramificação em diferentes calibres. Isso induz ao entendimento de
que em um momento podem estar descarregados ou carregados, ocorrendo
isso pelas emergências das necessidades de descarregamento ou
acúmulo em primeiro momento e, em segundo, o processo de resistência
que regulam o escoamento, definidos por ele como “barreiras de
contato”.
Esse
entendimento quanto ao escoamento e conservação de Q, influi no
entendimento de parte do tecido nervoso, ou seja, a capacidade de ser
impresso de forma permanente por processos únicos, entendido como
sendo a conservação da alteração passada após o estado de
excitação. Isso conduziu Freud a pensar em em neurônios
perceptivos e neurônios recordativos. As barreiras de contato
controlam a qualidade perceptiva, que agem nos neurônios perceptivos
e os recordativos, e isso nos permite entender que assim está
materializado o instituído por Condillac.
São essas capacidade que fatalmente
se resultarão como memória, divididos assim os neurônios: os “phi”
são perceptivos e os “psi” são de memória, recordação, tudo
isso em função do montante de Q que lhes são aplicadas.
Portanto,
nesse aspecto, a questão científica do quantitativo se esgota
nesses entendimentos, mas isso não responde ainda sobre a questão
qualitativa, a qual Freud também respondeu, em função das
motivações das ações, do por quê das escolhas desse ou daquela
situação ou mesmo da ereção de uma cadeia de ideias ou ações,
bem como do transpor os estágios de indiferença para o de atenção
em seus diversos graus, do estar parado ou em movimento, citados como
o prazer e o desprazer.
Percebe-se,
portanto, que o caminho tomado desde a Grécia, toma assento próprio
nos dias de hoje graças a Hobbes, Condillac e, nos nossos tempos,
o gigantismo de Freud, tido e corretamente afirmado, como um dos
grandes a mudar o pensamento ocidental, a questão da primazia do
Gozo ou não Gozo como constitutivo do hedonismo. Prazer –
desprazer assumem a dianteira em nossas paixões, vindo depois o
Desejo-aversão, coroados pelo Amor-Ódio.
Referências:
Referências:
Bocca, Francisco
Verardi. Paixões e Psicanálise dimensões modernas da natureza
humana – Na mecânica do prazer - Condillac. Vitória . UFES 2017.
Empirismo.
Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Empirismo
>. Acessado em 15 de fevereiro de 2018.
Monzani, Luiz
Roberto. Desejo e prazer na Idade Moderna. São Paulo. Unicamp 1995.

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