sexta-feira, 4 de maio de 2018

Crítica ao inatismo das idéias e a crítica ao dualismo substancial de Hobbes, Locke e Condillac.


Inatismo/dualismo das Ideias?

Um dos aspectos mais interessantes da chamada heresia Nestoriana foi negar o caráter unitário da parte humana e parte divina de Cristo, separando-a, aproximando-se da crença “adocionista” que dizia que o homem Jesus foi adotado pela Divindade, o que transformaria Cristo em um corpo “possuído” por um espírito (um dos questionamentos sobre isso seria “quem ou quê” morreu na Cruz, trazendo vários prejuízos as necessidades do ato do processo de Salvação do Homem!) Em reação a essa heresia e também para combatê-la, o “monofisismo” (ou seja, uma só ser, mas duas naturezas unidas de forma hipostática, de forma que se uma for separada da outra, não existirá o toma corpo, perdurando até os dias de hoje. 



 
A idade moderna recebeu de herança os ensinamentos, em particular, de Santo Agostinho, no qual há dois amores, um terreno, amor próprio, que leva ao desprezo de Deus, e outro celestial, que leva ao desprezo de si mesmo e amar Deus, neste caso o Sumo Bem. Se justifica aqui a ordem das nossas paixões: Amor-Ódio; Desejo-Aversão; Gozo-Sofrimento.
A questão materialista não procura no homem nem ser “monofisista” ou mesmo concordar com o esquema recebido de nossas paixões, antes, a coloca ou tenta colocar no seu aspecto da percepção, ou seja, que todo conhecimento esta nos sistemas da natureza, estes, uma vez despertado pelos sentidos, são colocados em comum para os outros.
Passamos por vários pensadores, mas foi em Condillac que o esquema se propaga na nossa era científica, de facilidades da comunicação e expressão verbal.
Condillac, assim podemos comparar, também cria da terra um ser que depois lhe será soprado na narina alma vivente, para tanto, admite que esse ser natural, feito da terra, tenha capacidades de sensibilidade e de recepção, e é a partir dai que ela começa a ter as experiencias sensoriais que terminarão em consequências. Note-se que aqui o “espírito” seria a capacidade da ilação.
Condillac a faz inaugurar cada um de seus canais sensíveis, começando pelo entendido ser o de menor recurso, o olfato. Considera ele que o do tato seria o mais possível de entendimentos do seu derredor, considerado que todos os órgãos da experiência sensível da estátua tem sua equivalência e independência na geração das faculdades, entendimento.
Estabelece nesse aspecto de sensibilidade uma hierarquia, formulada a partir da repetição da experiência: a atenção, a comparação, retenção, recordação, ilação. Isso é possível para que a estátua nunca imaginasse sempre estar em uma primeira experiência quando da repetição. Resulta desse processo os resultados de conveniência ou não dessas sensações.
Por conseguinte, essa ação de comparação das sensações recebidas, tangidas pela atenção a elas destinada, pela sua inscrição bem como pela sua capacidade invocativa pela imaginação, resultara como derivante a qualidade de ser mais conveniente ou não.
Isso resultará em processos mentais complexos, encadeador de ideias e ações, medidos pelo contentamento ou descontentamento. Crivando isso, instaura-se procedimentos de evitar o desprazer, bem como emulará situações de movimento, seja em busca do prazer, seja como evitar o desprazer.
Interessa notar que a inquietude desse estado de procura prazer /desprazer não está articulado com a falta do objeto de prazer inicialmente, mas é exatamente essa falta que causa a busca do objeto. Essa é a gênese do desejo.


Da questão da ordem quantitativa e qualitativa

Freud, é herdeiro de todo esses pensamentos que marcaram os anos de 1600 a 1800, no qual houve uma reação ao dualismo de Kant, onde ele assevera a dicotomia existente o res extensa – coisa extensa, o corpo e a res cogitans – coisa pensante, a consciência. O corpo tem suas dimensões e a mente não, ela tem uma imaterialidade, unidos corpo e o pensamento pela glândula pienal. Pensa Kant em uma predominância do res cogitans – a consciência - sobre a imagem material, duvidando ele mesmo da sua existência; que a consciência teria a sua própria capacidade de sua elucubração, sintetizada no cogito, ergo sum”, ou “penso, logo existo“.
Nesse aspecto, podemos dizer que houveram filósofos inimigos disso, atualizando o pensamento monista materialista, ou seja, que o homem se resolve com seus atributos naturais.
É nesse aspecto que Freud manifesta em seu Projeto, ou seja, de uma psicologia científico-naturalista, baseados exatamente nessa naturalidade do homem, portanto, fez ele se encarregar de colidir o corpo e mente sobre as bases da ciência natural, animada pela herança filosófica das paixões, em particular, Condillac.
Faz parte da consideração de seu estudo as relações entre a quantidade – cargas e impulsos – que transitam e seu meio, os neurônios. Está assentado na lei geral do movimento, lei da inércia (diferença entre atividade de repouso) o que impeliu as considerações sobre a natureza quantitativa, ou seja, mensurar o esforço, além de abordar a questão qualitativa. Considerou a natureza do neurônio em descarregar os impulsos recebidos.
Suas considerações foram sobre um desenho do sistema nervoso que privilegia a manutenção da variação de estímulos recebidos no mínimo possível, próxima de zero, com seu escoamento para a atividade motora.
Freud considera a permeabilidade ou impermeabilidade neuronial. Nesse aspecto, obrigou-se ao diferenciamento dos neurônios, sejam eles do tipo phi, o qual permite um percurso livre, sem oposição, entre a extremidade da percepção a extremidade motora responsável. Entretanto, como na Estátua de Condillac, ao reconhecer a existência diversa de fontes de excitação, esta se constituiu como a plenitude do que designou aparelho neurológico, e suas funções de percepção, memória e consciência.
O desenho de constituição neuronal, é visto iniciando em um sistema nervoso primário que funciona nos estágios sensoriais e motores, por sua própria auto-indução, imaginado como função primária, inconsciente , a qual visa somente se manter livre de estímulos. Esse parte do sistema nervoso não tem retenção de memória.
Mas existem também processos que não são escoados de forma imediata. São emanações endógenas, e estão ligados ao processos da fome, respiração, sexualidade, entre outros, a quais inicialmente não se permitem a sua eliminação pela descarga motora. Isso implica que, como outro tipo de processo relacionado a manutenção da vida, o sistema nervoso também armazenará parte dessa estímulo, que serão utilizados em manipulações ulteriores.
A repetição desses estímulos endógenos será causa de comparações e que levarão a sua conquista através de funções representativas desses interesses. É a partir dessa fonte de estímulos endógenos que se desenvolve uma regra de constância, o qual se manifesta no arrefecimento ao princípio da inércia, obrigado o princípio do prazer ser menos um escoamento, descarga das excitações mas sim uma eliminação do excesso, mantendo seu nível constante.
Deve-se se trazer aqui que a função primária tem concomitantemente ao seu lado o início de função secundária (pré-consciência e consciência), função essa que ocorre na manutenção da adequabilidade de excitação e uma constância no seu próprio recarregamento.
Freud considera a existência no sistema nervoso de neurônios distintos, interligados, os quais se prefiguram em certas direções de escoamento. Essa distinção não é quanto a forma, mas sim pela percepção que recebem através de seus prolongamentos celulares e os escoam por meio de cilindros do eixo, além de numerosa ramificação em diferentes calibres. Isso induz ao entendimento de que em um momento podem estar descarregados ou carregados, ocorrendo isso pelas emergências das necessidades de descarregamento ou acúmulo em primeiro momento e, em segundo, o processo de resistência que regulam o escoamento, definidos por ele como “barreiras de contato”.
Esse entendimento quanto ao escoamento e conservação de Q, influi no entendimento de parte do tecido nervoso, ou seja, a capacidade de ser impresso de forma permanente por processos únicos, entendido como sendo a conservação da alteração passada após o estado de excitação. Isso conduziu Freud a pensar em em neurônios perceptivos e neurônios recordativos. As barreiras de contato controlam a qualidade perceptiva, que agem nos neurônios perceptivos e os recordativos, e isso nos permite entender que assim está materializado o instituído por Condillac.
São essas capacidade que fatalmente se resultarão como memória, divididos assim os neurônios: os “phi” são perceptivos e os “psi” são de memória, recordação, tudo isso em função do montante de Q que lhes são aplicadas.
Portanto, nesse aspecto, a questão científica do quantitativo se esgota nesses entendimentos, mas isso não responde ainda sobre a questão qualitativa, a qual Freud também respondeu, em função das motivações das ações, do por quê das escolhas desse ou daquela situação ou mesmo da ereção de uma cadeia de ideias ou ações, bem como do transpor os estágios de indiferença para o de atenção em seus diversos graus, do estar parado ou em movimento, citados como o prazer e o desprazer.
Percebe-se, portanto, que o caminho tomado desde a Grécia, toma assento próprio nos dias de hoje graças a Hobbes, Condillac e, nos nossos tempos, o gigantismo de Freud, tido e corretamente afirmado, como um dos grandes a mudar o pensamento ocidental, a questão da primazia do Gozo ou não Gozo como constitutivo do hedonismo. Prazer – desprazer assumem a dianteira em nossas paixões, vindo depois o Desejo-aversão, coroados pelo Amor-Ódio.

Referências:


Bocca, Francisco Verardi. Paixões e Psicanálise dimensões modernas da natureza humana – Na mecânica do prazer - Condillac. Vitória . UFES 2017.
Empirismo. Disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/Empirismo >. Acessado em 15 de fevereiro de 2018.
Monzani, Luiz Roberto. Desejo e prazer na Idade Moderna. São Paulo. Unicamp 1995.
 

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