EVITAR
O DESPRAZER PARA VOLTAR AO PARAÍSO
Jorge
Generoso do Nascimento
Cursista
em Especialização em Filosofia, Psicanálise e Educação – UFES
– ES.
Resumo:
A noção de inteligência e conhecimento ou estar ciente é uma
preocupação comum na história humana, entendida como um atributo
concedido por uma instância extra-humana. Na história da
humanidade, os mitos respondiam essa necessidade de entender a
realidade, mas, com o desenvolvimento natural do homem e as condições
de pensar existentes inicialmente em sociedades como a grega, o mito
cedeu lugar a razão, estendendo-se até os dias de hoje,
materializado em Freud no entendimento dos processos naturais que
respondem pela memória e ilação, tendo como centro de movimento o
primado do prazer e o desprazer na hierarquia das paixões humanas.
Palavras
Chaves: Locke, Hobbes, Condillac, Freud, empirismo, materialismo.
Abstract:
The notion of intelligence and knowledge or being aware is a common
concern in human history, understood as an attribute granted by an
extrahuman instance. In the history of humanity, myths responded to
this need to understand reality, but with the natural development of
man and the conditions of thought initially existing in societies
such as the Greek, myth gave way to reason, extending to the days of
today, materialized in Freud in the understanding of the natural
processes that respond by memory and illation, having as center of
movement the primacy of pleasure and displeasure in the hierarchy of
human passion
Keywords:
Locke, Hobbes, Condillac, Freud, empiricism, materialism.
1.
Introdução.
Faz
parte este texto das obrigações finais no desenvolvimento do curso
de Especialização em Filosofia, Psicanálise e Educação,
apresentando a compreensão percebida de parte da disciplina, sob o
título Paixões e Psicanálises.
Pretende-se
com isso o aprofundamento de entendimento da hierarquia das paixões,
revisitando filósofos do início e transcorrer da Idade Moderna,
culminando em Freud e sua contribuição ao entendimento da psiquê
humana, respondendo, dentro da crença mecanicista, como os processos
elaborados pelos filósofos anteriores realmente aconteciam, ao mesmo
tempo que firma de forma definitiva o primado do prazer-desprazer na
hierarquia das paixões.
Portanto,
houve a apropriação dos autores acima mencionados, bem como de
literatura auxiliar, no sentido de dar um corpo mais geral no
entendimento do desenvolvimento humano, além do abordado no material
indicado de pesquisa.
2.
Na aurora da era do discernimento.
No
filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, a evolução humana é mostrada
a partir da capacidade inata da percepção através dos sentidos da
visão, do toque, que atende somente ao perceber da realidade física
e seu uso mais imediatista, no caso o atendimento das necessidades de
sobrevivência do grupo pré-humano mostrado, o qual responde somente
a realização dessas pulsões. A capacidade cognitiva se desenvolve
a partir de um acontecimento extra natural, o qual os capacita o
raciocínio para o uso de ferramentas – armas para recuperar a
posse de bens necessários a sua sobrevivência, tomados a força por
outro grupo mais numeroso (no caso, um poço de água e mais tarde o
abate de animais, perenizando o fornecimento de alimentos e suas
chances de manutenção da descendência). Mas essa capacidade
pensante é obtida através do ”toque” no objeto representativo
de um ente extra-terrestre, os quais na continuidade da franquia, os
seus desenvolvedores confundem esses “extra-terrestres” com um
princípio criador (1). É baseado em obra de ficção de Arthur C.
Clark (2). O filme e a obra citadas refletem na realidade as mesmas
crenças atuais de certos grupos que acreditam na
manipulação/desenvolvimento do homem de alguma forma – genética
ou de instrução – provenientes de entidades extra-terrestre ou
mesmo intra-terrestes (3), como aconteceu em toda a história humana
nos seus mitos de intervenção “divina”. Portanto, essas
realidade criacionistas ou evolucionistas de intervenção não são
novos na história humana. E por não ser novo, é difícil imaginar
qual foi o momento certo da humanidade que isso aconteceu, ou seja, a
instalação na história do homem esses mitos.
Não
deve ser mitigada as considerações sobre os mitos, pois a
existência do ser consciente sempre foi tomada como “concedida”
por outrem, seja ele o criador ou um “despertador-legislador”
revelado por algum emissário ou pela própria deidade. O homem
plasmado de barro, na mitologia da criação da Bíblia, recebe um
hálito, uma “ânima” do criador, e por isso se torna um ser
vivente e consciente, aqui tomado como inteligente. Como um
certificado dessa nova situação, o insuflador dessa ânima lhe
mostra os animais criados em uma desfile diante desse ser plasmado e
insuflado com inteligência, e esse homem nomeia todos os animais, ou
seja, toma conhecimento e posse da natureza ali representada. A
inteligência e o discernimento foi tomada como um “dom” dado por
Deus a Salomão, e por isso ele prosperou em muito na vida (4).
Historicamente,
a criação do mito para explicar a realidade pode ser localizada no
decorrer da era neolítica no momento do desenvolvimento da fala
(5). É nessa época que o homem tem a indústria e também a
passagem da economia de coleta para a economia de produção. No seu
final, marca também quando os deuses masculinos assumem o lugar dos
deuses femininos (6).
A
história posterior do homem o pensamento bem como uma linguagem já
evoluída e com mais chance de difusão, deu margem a especulação
filosófica, quando o “mythos” deu lugar para o “logos”, e os
deuses tem sua posição relativizada em função da observação da
natureza, especulações essas que chagaram até o final da Idade
Média, continuados pelo pensamo empirista e materialista, pelo
menos, no ocidente.
2.
A herança medieval e de Santo Agostinho.
O
cristianismo, herdeiro da filosofia religiosa judaica, acrescido dos
ensinamentos de Cristo e difundido a partir da capital do império
mais poderoso de então, o Império Romano, o qual foi mediador da
cultura grega para o ocidente, legando-nos os princípios da
civilidade, língua e filosofia, formula a questão do relacionamento
da criatura com o Criador, difundindo a primazia do espírito sobre a
matéria, e que o princípio inteligente tem sua origem no Criador.
Mas não pode deixar de ser notada um algo materialista na formulação
da heresia nestoriana, que pregava a separação, no caso de Cristo,
de sua humanidade e divindade. O combate a essa heresia criou e
fortaleceu o princípio do monofisismo, o qual reconhece um ser com
suas realidades físicas e espirituais, único em uma só identidade
unidas de forma hipostática, ou seja, o homem é um ser material e
espiritual. É deste período e neste entendimento, que Santo
Agostinho ordena as paixões, considerando o par amor-ódio como a
fonte de partida para os demais, considerando que há,
primordialmente, dois amores, um terreno, amor próprio, que leva ao
desprezo de Deus, e outro celestial, que leva ao desprezo de si mesmo
e amar Deus, neste caso o Sumo Bem. O esquema das paixões fica então
na ordem do Amor (Ódio); Desejo (Aversão); Gozo (Sofrimento).
Prega-nos o ideal cristão de que Deus é o Sumo Bem, portanto, deve
ser amado, desejado e desfrutado no gozo eterno.
3.
A Idade moderna e os novos entendimentos.
Mas,
mesmo sem negar essa realidade, como fica expresso no pensamento de
Hobbes, o desenvolvimento das ciências naturais pela observação,
levou a partir dos anos 1600, a considerações sobre o que motiva o
homem a se mover. Caberia aqui a discussão sobre as idades lendárias
dos povos, como o paraíso terrestre, o mito de Atlântida como forma
idealizadas de um bem de repouso.
Na
esteira dessas mudanças, se definem algumas escolas de pensamento:
3.1.
O empirismo
Filosoficamente,
o empirismo é uma argumentação sobre o conhecimento, considerando
que este se adquire através da experiência sensorial, legando-nos o
método indutivo, que pretende que a ciência só pode ser derivada
dos processos da experiência. O empirismo destaca o papel da
experiência sensorial e da evidência, acima de ideias inatas ou
tradições. O empirismo tem como pátria de desenvolvimento o Reino
Unido já desde a Idade Média europeia, tendo como expressões o
filósofo John Locke (7).
3.2
O materialismo
O
materialismo se propõe a ser um tipo de fisicalismo, ou seja, que a
diversidade do conhecimento elevem a física para a condição de ser
o paradigma científico universal, na suposição de que tudo os
aspectos da realidades internas e externas ao homem adquirem sua
materialidade compreensível se entendidas como realidades físicas.
Portanto,
o materialismo sustenta que a existência é a matéria como
fundamento de tudo, gerando assim todos os acontecimentos de
interação. Segue-se então a filiação do materialismo ao monismo,
diferenciando-se do dualismo ou pluralismo.
4.
O pensamento de Hobbes, Locke, Condilac e Freud
O
empirismo Inglês foi contemporâneo da chamada reforma religiosa na
Inglaterra, na qual o monarca do momento era o chefe da Igreja da
Inglaterra – Anglicana. Tocou mais a Locke esse momento, o qual
viveu o espírito calvinista, mas ao contrário deste, pregava a
tolerância religiosa, além do princípio do liberalismo, nesse
esboço, entendia que ao homem deve ser garantidos o seu direito a
vida, a liberdade e a propriedade privada, cabendo ao Estado a
manutenção desses direitos.
Teve
uma vida atribulada, inclusive de refugiado em outro país por
problemas políticos na Inglaterra. Contribuiu decisivamente com o
liberalismo, produzindo vários ensaios: “Cartas sobre a
Tolerância”, “Ensaio sobre o entendimento humano” e dois
tratados sobre o governo civil.
Mas
uma de contribuições a filosofia foi seu antagonismo a Platão
relativamente ao chamado “conhecimento inato”, ou seja, descarta
que o homem já tenha algum conhecimento; nesse aspecto, é
considerado um dos principais do empirismo, na afirmação de que a
totalidade do saber e do aprender é fruto da experiência. O
conhecimento inato é antagonizado por ele na ideia da folha em
branco, ou seja, o homem é moldado pelas experiências de tentativas
e erros, restando ao empirismo a compreensão metodológica,
sistemática e crítica desse acontecimento.
Hobbes,
contemporâneo de Locke, tinha concepções próprias que iam ao
encontro do liberalismo de Locke, considerando que a natureza humana
tinha carência de uma sociedade e um governo forte, centralizado, e
que todos, para viver em sociedade, devem sacrificar um pouco do seu
“eu” em favor da vivência comum, ou seja, devemos nos render em
nossa autonomia em parte a favor de um governante, de forma que esse
seja o fiador da vivência social.
Contribuiu
de forma extraordinária ao desenvolvimento em compreender a
formulação do desejo. Examina a questão do pensamento, que é uma
representação ou uma qualidade, ou ainda, de algum corpo que atua
em nossos sentidos, os quais, como sensações, produzirão algum
efeito. Essas sensações originadas nos órgãos de sentido causam o
nosso conhecimento, pela pressão que isso causa nos órgãos de
sentido, os quais, introjetados no interior da pessoa, causa uma
resistência, uma sensação. Mas isso tudo se deriva do movimento,
que não se configura como uma ilusão, pois ele tem efeito imediato
em nossa imaginação, e diferencia a questão da realidade com a
aparência que resulta em nós, pois o objeto é antes de tudo uma
coisa, e a ilusão ou imagem é uma outra coisa, concluindo que na
totalidade dos casos, a sensação é uma ilusão originária nascida
pelo momento das coisas no exterior em nossos sentidos.
Hobbes
também define a memória como sendo a experiência, colocado que a
imaginação refere-se apenas as coisas que foram percebidas
anteriormente pela sensação. A imaginação dos adormecidos ele
denomina sonhos, nascidas também nas sensações
anteriores.
Étienne
Bonnot de Condillac, filósofo francês, foi membro de duas
importântes academias, tanto a francesa como a de Berlim. Manteve
amizade com os encicopledistas como Diderot, além de Rousseau e
Duclos. Manteve filiação a Locke, e mais tarde elabora suas
próprias conclusões no seu Traite des Sensations, de 1754.
Para
situarmos Condillac e seu Tratado das Sensações, mister se faz
rever Lock.
O
pensamento de Locke, sustenta a origem do conhecimento como sendo
sensorial, reconhecendo a imanência das ideias de prazer e dor
misturadas com todas os outros sentimentos, sendo então isso a fonte
de nossas ações, em particular, a fuga da dor. Para tanto, imaginou
que trazemos na bagagem de nossa criação, a
capacidade inata da percepção do deleite,
este como motivador de nossas ações de pensamento e ação, o que
nos capacitaria, pela mistura de sensações, afetos ou paixões, a
preferência de pensamentos e ações que nos impeliria a transpassar
os limites da indiferença a caminho da atenção.
Contra
esse pensamento, Condillac afirma que não há sistemas que sejam
inatos no homem, pois tudo que se pode observar pela ciência o deve
ser feito ou pensado através do racional. O conhecimento
representado pelos sistemas já estão disponibilizados na natureza e
satisfazem as necessidades dos homens, os quais podem principiar para
todos quando o podem deduzir. Estes sistemas são as sistematizações
de princípios constatados ou aferidos pela ciência.
Para
Condillac, o homem deve sua existência somente ao seu corpo físico,
portanto, fora as sensações que lhes são próprias, tudo o demais
é organizado pela linguagem e análises das sensações e são
possíveis apelas por meio dos valores adquiridos.
Sob
esse ponto de vista, é correto afirmar que todos os sistemas da
natureza são dependentes da racionalidade e dos elementos externos
para serem conhecidos, pois estão na dependência do processo de
interpretação das sensações por cotação em relação a sensação
anterior, dentro do extrato do ser humano representado pelo corpo e
alma, o primeiro, possuidor dos sentidos, a segundo, das sensações.
A
memória será sempre em Condillac como o resultado da sensação
captada pelos sentidos transformada, isto é, resultado da comparação
com as sensações anteriores.
Em
um processo de facilitação de entendimento, em Condillac a
estruturação do sistema proposto é que primeiro há as sensações,
que são movidas para a ordem da atenção, sendo então comparadas e
julgadas, culminando em tornar-se reflexão. A memória e o juízo
das coisas são originadas no relacionamento com as coisas do mundo,
medidas pela prazer ou sofrimento causados.
Dr.
Sigmund Freud, fundador da psicanálise, nasceu Freiberg in Mähren,
em 1856, originalmente pertencente ao Império Austríaco, hoje
pertencente a Republica Tcheca.
Herdeiro
de tudo isso, restou a Freud dar uma ordem material científica a
essas sistematizações que tanto o empirismo como o materialismo
produziram em termos de conhecer o ser humano e a partir de seus
conhecimentos e observações, manifesta então o Projeto de uma
psicologia científico-naturalista, baseados na naturalidade do
homem desenvolvida por Hobbes, Locke e Condillac, dando uma física
realmente materialista e mecanicista dessa herança filosófica das
paixões.
Imaginou
o sistema nervoso, suas excitações, os aspectos das considerações
sobre a natureza quantitativa (cargas de energia nervosa que ele
chama de Q), assentado no princípio da Lei da Inércia, ou seja, que
tende ao repouso. Em sua visão, considera a natureza peculiar do
neurônio em descarregar os impulsos recebidos, mantida o que
transita nos neurônios em níveis os mais baixos possíveis.
Considerou
a permeabilidade ou não dos neurônios, os quais diferencia aqueles
que permitem o percurso livre para o descarregamento de suas
excitações, chamados de Phi, os quais recebem estímulos externos,
dos neurônios que chama de Psi, originados essas excitações de
forma endógena.
Ao
reconhecer as diversas fontes de excitação, interna e externa, ao
modo de Condillac e de sua Estátua que se abre aos estímulos
externos e responde a eles, designou como aparelho neurológico e
suas funções de percepção, memória e consciência.
Propõe
um sistema neuronal iniciando de forma primária, inconsciente, o
qual visa somente se manter livre de estímulos; bem como de uma
segunda função, que faz essas excitações, mesmo descarregadas,
manter alguma memória. Essas excitações emanam dos processos de
fome, respiração, sexualidade, entre outros.
A
repetição desses estímulos endógenos será causa de comparações
e que levarão a sua conquista através de funções representativas
desses interesses. É a partir dessa fonte de estímulos endógenos
que se desenvolve uma regra de constância, o qual se manifesta no
arrefecimento ao princípio da inércia, obrigado o princípio do
prazer ser menos um escoamento, descarga das excitações mas sim uma
eliminação do excesso, mantendo seu nível constante.
Deve-se
se trazer aqui que a função primária tem concomitantemente ao seu
lado o início de função secundária (pré-consciência e
consciência), função essa que ocorre na manutenção da
adequabilidade de excitação e uma constância no seu próprio
recarregamento. O escoamento e conservação de Q, influi no
entendimento de parte do tecido nervoso, ou seja, a capacidade de ser
impresso de forma permanente por processos únicos, entendido como
sendo a conservação da alteração passada após o estado de
excitação. Isso conduziu Freud a pensar em em neurônios
perceptivos e neurônios recordativos. As barreiras de contato
controlam a qualidade perceptiva, que agem nos neurônios perceptivos
e os recordativos, e isso nos permite entender que assim está
materializado o instituído por Condillac.
Portanto,
Freud
também além da explicação de como os fatos quantitativos
ingressam no sujeito, mas ele também teve que responder como os
fatos qualitativos – prazer e desprazer – são naturalizados
também desse sistema nervoso neuronial. Ao introduzir no estudo o
fenômeno da dor, o possibilita examinar o papel do desprazer, os
quais, como a dor, movimenta tanto os sistema neuronial phi e o psi.
Para
formalizar no meio físico neuronial as sensações conscientes,
propõe a massa neuronial que denomina “ômega”, os quais, em
excitação, apresentariam como resultado as sensações conscientes.
Inobstante
sua filiação a Condillac, mas no seu reconhecimento de que as
estimulações causam desprazer, por isso seu destino é o de ser
descarregado, diferencia-se de Condillac, pois o sistema nervoso
tende sempre a inércia do repouso. E assim, afirma que o que nos
perturba é a excitação, e o prazer é a inexistência ou
diminuição do desprazer. Vivemos e buscamos o Prazer.
Conclusão
Fica
nítido que a necessidade do homem explicar sua existência desperta,
que pensava e fazia ilações, tenha tentado entender os
acontecimentos naturais, observados, a partir do uso de uma linguagem
narrativa que abriga a metáfora, a metonímia, a fantasia e o
fantasioso, na tentativa de entender a própria gênese dos
fenômenos, inclusive ele próprio, além de dar uma resposta ao
objetivo de suas vidas.
A
resposta do seu eu inteligente, pensante, é tida como um presente
dado, como uma concessão de forças que são representadas nos
mitos, mas também não são compreendidas na sua totalidade. No
entendimento dos mitos, as realidade se tornam presentes e são
aceitas como tal. Mas, em algum momento da história, esses mitos não
foram mais suficientes para explicar a realidade concreta, e isso
marca o início de nossa história registrada com mais precisão.
Povos
como os gregos, nos legaram de forma crivada, bem definida, esse
momento, quando o mito cede lugar a razão, esta a serviço do
entendimento da natureza, sua constituição, movimentos, entre
outros. Mesmo esse pensamento já apontar para os próprios processos
naturais como causa do existir, do ter consciência de sua vida,
finitude, só foi no final da Idade Média europeia que esse corpo de
pensamento tomou sua forma que chega até o nosso século presente.
Pensadores
como Locke, Hobbes e Condillac fazem a nova filiação do homem ao
processo natural, portanto, para chegarmos hoje no reconhecimento
dessa capacidade humana de sentir e mesmo ter memória, a partir do
entendimento que os sistemas estão na natureza, não em nós,
patenteia-se essa filiação natural, os quais são reconhecidos no
homem pelas sensações, não por capacidades inatas e são essas
sensações que nos farão interagir com o meio natural e será a
fonte de nosso conhecimento.
A
evolução nos dotou dos sentidos, mas a ordem da interpretação
dessa realidade se faz no nosso interior. Os filósofos anteriores a
Freud imaginaram o processo; Freud descreveu como isso acontece na
nossa entidade biológica, acrescentando-lhes, podemos ousar dizer, o
desejo de uma paz que nasce da não excitação, mas da inércia, do
repouso. E é isso que aqui nos interessa. Nesse aspecto, podemos
imaginar que sentimos saudades do paraíso do sistema de coleta, pois
no momento que nos industrializamos, enchemos nossas vidas de tensões
que precisam ser descarregadas, pois psicanaliticamente falando, o
que recalcamos, retorna depois como um sintoma.
A
moral comum impediu em muito o reconhecimento do prazer-desprazer
como o embolo que é fonte de nossa movimentação no motor da vida.
É verdade, somos constituídos na falta, mas, assim como em Hobbes,
temos necessidade do recalque de nosso desejo imediato de se livrar
das tensões de forma se tornarem em prazer puro, de forma podermos
viver em comunidade e com todas as suas vantagens em nos garantir a
vida, a liberdade e a posse de bens. O conhecimento humano do prazer
como motor de nossa atividade não deve nos levar ao prazer pelo
prazer de um hedonismo doentio, mas sim nos prover de meios de
civilidade, de superar a nossa carga inicial de desejos
incontrolados.
Ao
descrever a função do desprazer, Freud coloca na ordem correta a
direção de nossas paixões em Prazer (desprazer) ; Desejo
(Aversão); Amor (Ódio).
Notas:
1-
2001: A Space Odyssey (2001 - Uma Odisseia no Espaço no Brasil) é
um filme anglo-americano de 1968 dirigido e produzido por Stanley
Kubrick, co-escrito por Kubrick e Arthur C. Clarke e baseado no livro
homônimo do próprio Arthur. O filme lida com os elementos temáticos
da evolução humana, existencialismo, tecnologia, inteligência
artificial e vida extraterrestre. É notável por seu realismo
científico, efeitos especiais pioneiros, imagens ambíguas que são
abertas a ponto de se aproximarem do surrealismo, som no lugar de
técnicas narrativas tradicionais e o uso mínimo de diálogo.
2.
Sir Arthur Charles Clarke, mais conhecido como Arthur C. Clarke
(Minehead, Somerset, Inglaterra, 16 de dezembro de 1917 — Colombo,
Sri Lanka, 19 de março de 2008) foi um escritor e inventor britânico
radicado no Sri Lanka, autor de obras de divulgação científica e
de ficção científica como o conto The Sentinel, que deu origem ao
filme 2001: Uma Odisséia no Espaço e o premiado Encontro com Rama.
3.
Pedro Rego nos diz que o mito é uma necessidade e produção humana
e não poderia estar desaparecido das sociedades ocidentais e que
temos nossos mitos atuais: “..Vivemos numa época capitalista e
numa sociedade de consumo desenfreada onde o maior mito é a
felicidade do consumo. Da mesma forma os heróis míticos povoam
constantemente o nosso imaginário fazendo-nos querer ser como eles,
servindo-nos como exemplos para a acção quotidiana ou para vidas
imaginada. Ayrton Senna, Romário e Ronaldo, Marlyn Monroe….”
Continua lembrando que a concepção de que o mito é forma errada de
ver as coisas como citado por Sir James Frazer entre outros, vem cada
vez mais sendo abandonada pois, citando Bernardo Bernardi, “A
análise moderna pôs os mitos sob outra perspectiva, como parte
integrante de uma cultura particular, pertençe à sua linguagem e
neste sentido o seu valor é completo”. (Relações entre Mito e
Ciência – Universidade Fernando Pessoa, Universidade Fernando
Pessoa, Porto, Portugal).
4.
Em Gênesis 2, 4-7” Quando Javé Deus fez a terra e o céu,5 ainda
não havia na terra nenhuma planta do campo, pois no campo ainda não
havia brotado nenhuma erva: Javé Deus não tinha feito chover sobre
a terra e não havia homem que cultivasse o solo e fizesse subir da
terra a água para regar a superfície do solo. Então Javé Deus
modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro
de vida, e o homem tornou-se um ser vivente.” Depois, o homem usa
desse inteligência e discernimento e toma posse da criação :
Gênesis 10-20:” Então Javé Deus formou do solo todas as feras e
todas as aves do céu. E as apresentou ao homem para ver com que nome
ele as chamaria: cada ser vivo levaria o nome que o homem lhe desse.
O homem deu então nome a todos os animais, às aves do céu e a
todas as feras...”. Em 1 Reis 10-13, Salomão recebe como dom o
discernimento: “ Então Deus disse para ele: «Porque você pediu
isso, e não vida longa para você, nem riquezas, nem a morte de seus
inimigos, mas discernimento para ouvir e julgar, eu farei o que você
pediu. Darei a você mente sábia e inteligente, como ninguém teve
antes de você e ninguém terá depois. Eu lhe darei também o que
você não pediu: riqueza e fama, de modo que não haverá nenhum rei
que se iguale a você, durante toda a sua vida.” (Bíblia
eletrônica Paulus- Edição Pastoral).
5.
Neolítico (pedra nova) ou Período da Pedra Polida é o período
histórico que vai aproximadamente do X milênio a.C., com o início
da sedentarização e surgimento da agricultura, ao III milênio
a.C., dando lugar à Idade dos Metais. Não se aplica à pré-história
europeia nem americana, incluindo a do Brasil. As primeiras aldeias
eram criadas próximas a rios, de modo a usufruir da terra fértil
(onde eram colocadas sementes para plantio) e água para seres
humanos e animais. Também nesse período começou a domesticação
de animais (cabra, boi, cão, dromedário, etc). O trabalho passa a
ser dividido entre homens e mulheres, os homens cuidam da segurança,
caça e pesca, enquanto as mulheres plantam, colhem e educam os
filhos. A disponibilidade de alimento permite também às populações
um aumento do tempo de lazer e a necessidade de armazenar os
alimentos e as sementes para cultivo leva à criação de peças de
cerâmica, que vão gradualmente ganhando fins decorativos.
(Neolítico – Wikipédia).
6.
Essas descobertas (de estátuas) levaram historiadores e arqueólogos
a sugerir que, bem antes de venerar deuses masculinos, os
antepassados do homem teriam adorado as deusas, cujo reinado chegou
até a Idade do Bronze, há cerca de 5 mil anos. Não se sabe a rigor
o exato significado daquelas estatuetas, até porque pouco ou quase
nada se conhece dos costumes dos homens pré-históricos. Mas não
resta dúvida de que por um bom tempo as deusas reinaram sozinhas,
deixando os poderes masculinos à sombra. Em seu livro Um é o outro,
a filósofa e professora francesa Elisabeth Badinter tenta explicar a
supremacia feminina a partir do que se supõe teriam sido as relações
entre homens e mulheres naquelas épocas distantes. A idéia é que o
homem do Neolítico—ao contrário dos seus antecessores do
Paleolítico, que eram caçadores, e dos seus descendentes da Idade
do Bronze, guerreiros—dedicava-se à criação de rebanhos e à
agricultura. Ou seja, já não era necessário arriscar a vida para
sobreviver. Nesses tempos relativamente pacíficos, em que a força
bruta não contava tanto como fator de prestígio e as diferenças
sociais entre os sexos se estreitavam, é bem possível que deusas—e
não deuses —tivessem encarnado as principais virtudes da cultura
neolítica. (As divindades femininas: No princípio, eram as deusas)
7.
O problema da indução é a questão filosófica sobre se o
raciocínio indutivo (uma generalização ou uma previsão não
dedutiva) leva ao conhecimento. Uma generalização é qualquer
argumento não dedutivo cuja conclusão é mais geral do que as
premissas. Ou seja, o problema da indução refere-se a: 1.
Generalizar sobre as propriedades de uma classe de objetos com base
em algumas observações do número de instâncias específicas da
classe (por exemplo, a inferência de que "todos os cisnes que
temos visto são brancos e, portanto, todos os cisnes são brancos",
antes da descoberta do cisne negro); 2. Pressupor que uma sequência
de eventos no futuro ocorrerá como sempre foi no passado (por
exemplo, que as leis da física manifestar-se-ão como sempre foram
observadas). Segundo a linha indutivista, a ciência começa com a
observação. A observação, por sua vez, fornece uma base segura
sobre a qual o conhecimento científico pode ser construído, e o
conhecimento científico é obtido a partir de proposições de
observação por indução (Problema da indução - Wikipédia)
REFERÊNCIAS.
2001
Uma odisseia no espaço. Filme. Disponível em <
https://pt.wikipedia.org/wiki/2001:_A_Space_Odyssey > Acessado em
22 de fevereiro de 2018.
A
filosofia de Santo Agostinho. Disponível em <
http://www.clerus.org/clerus/dati/2009-02/16-13/A_Filosofia_de_Santo_Agostinho.html
>. Acessado em 19 de fevereiro de 2018.
Artur
C. Clark. Disponível em <
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arthur_C._Clarke >. Acessado em 22
de fevereiro de 2018.
As
divindades femininas: No princípio, eram as deusas. Disponível em <
https://super.abril.com.br/cultura/as-divindades-femininas-no-principio-eram-as-deusas/
>. Acessado em 22 de fevereiro de 2018.
Barros
Larraia, Roque. O jardim do Éden revisitado. Disponível em <
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77011997000100005
> . Acessado em 22 de fevereiro de 2018.
Bíblia
Eletrônica Paullus – Edição Pastoral. Disponível em <
http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_P9.HTM
> . Acessando em 19 de fevereiro de 2018.
Bocca,
Francisco Verardi. Paixões e Psicanálise dimensões modernas da
natureza humana . UFES 2017.
Branco,
Alberto Manual Vara. A mitologia grega, uma concepção genial
produzida pela humanidade: os condicionalismos religiosos e
históricos na civilização helénica. Disponível em <
http://www.ipv.pt/millenium/Millenium31/4.pdf
>. Acessado em 22 de fevereiro de 2018.
Depiné,
Ágatha Cristine.O surgimento da filosofia e a evolução dos
Dualismo Cartesiano. Disponível em <
http://www.acervofilosofico.com/dualismo-cartesiano >. Acessado em
19 de fevereiro de 2018.
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