Comentários
a Ética a Nicômaco – Aristóteles.1
Na
vida, nos fazemos ou participamos de coisas que nos levam a um fim,
mesmo que desejemos uma coisa que leva a outra, considerando que, se
fosse infinito, isso seria inútil, portanto, o fim disso tudo é um
bem, ou mesmo o sumo bem. Este sumo bem deve ser primeiramente
entendido em sua ciências ou faculdades constitutivas. E os estudos
que isso determinam, estão os mais prestigiosos, sendo entre eles a
política, pois essa é a determinante das demais ciências que devem
ser estudadas, as quais o cidadão deve aprender e sua extensão. A
política então, como utilizadora das demais ciências, atua sobre o
devemos ou não fazer, de forma se constituir o bem humano, no
sentido mais completo, o bem do Estado.
Esclarece
que há necessidade da instrução, e que esta é que determina o bom
juízo sobre as coisas; quanto aos jovens, não se preocupam tanto
com a principal dessas instruções, a política, pois seu movimento
está na ação.
Todo
nosso labutar tem seu objetivo de possuir os mais diversos tipos de
bens, entendido que estes são afetos aos fins particulares
imaginados em acontecer, portanto, deveriam toda essa procura
resumir-se na procura do bem em si, aquele que não é conseguido nas
ações. Tal bem final, que se eleva sobre nossos próprios fins é o
bem absoluto, o sumo bem; sua procura se reveste da condição de ser
uma procura mestra, que deveria estar no ideário não só dos
indivíduos, mas também no seu coletivo, dentro da ordem da
política.
No
item III, considera que a política (a arte de conduzir bem a pólis)
tem dependências éticas que podem relativizar esse bem supremo, em
função mesmo do complexo resultante de seus frutos, pois para os
corajosos, o martírio, bem como os doentes e os que não tem
moderação. Nesse aspecto, não se deve exigir muito dos jovens,
pois estes por falta de experiência e preparação, tem grande
dificuldade na finalização também desse bem, motivados pela sua
forma que é o agir e não meditar.
Na
continuidade, é lembrado que o final da ética é o obter a
felicidade, sendo esta percebida ou tomada de consciência forma
diferente seja pelo sábio ou pelo comum, sendo para este tomada como
felicidade ao prazer, obtenção da riqueza ou se ostentar.
Entretanto, pode haver entre os comuns a percepção de que sobre os
bens de natureza imediata, deve existir um que continua a existir e
sede da bondade entre todos os que o precedem. Por influência de
Platão, admite que existem caminhos para isso, sendo um o que emana
das ações para o que principia ou, como segunda via, do que
principia para o agir. Aristóteles, mesmo nessa concordância, no
move a ideia de podemos ou devemos começar pela nossa prática
própria dos atos, lastreados por exigência no conhecimento e nos
respeitos aos hábitos, esclarecimentos, uma boa educação.
Sobre
a Vida.
A
vida classificada por Aristóteles se dispõe em a) a identificação
da fruição de prazeres com o sendo a felicidade, sendo que neste
caso tida pelo filósofo como uma vida animal e de escravidão; b) a
vida pública – política – que oferece honrarias e privilégios,
como sendo a felicidade, neste caso considerada com algo negativo,
pois é uma coisa concedida pelo Estado, mas também imaginando que
existe aqueles que, não obstante ser concedida, pensarem na honra
como uma confirmação da sua bondade, sendo essa o espelhamento da
sua vivência ; e, c) não muito distante de todos, a vida de
contemplação.
Entretanto,
na continuidade, deixa claro a contrariedade existente entre o
filósofo e o ideário platônico relativamente ao que seria ou como
poderia se apresentar a ideia do bem universal, do sumo-bem. Para
tanto, enumera-o como podendo assumir a característica de
substância (um algo tangível de alguma forma), por exemplo, Deus;
ou de qualidade, como as virtudes, ou mesmo ainda, como um bem de
relação, ou seja, aquele que utilidade no momento que se faz
necessário; o que resta disso é que, assim sendo, isso não suporta
uma conceituação que se mostra como uma ideia comum. Considerando
esses aspectos peculiares, entende que não pode haver um único
conhecimento, uma única ciência que totalize a ideia de um bem
universal de forma imaginada, abstrata, mesmo que entre os seguidores
de Platão tenham a sagacidade de diferenciar entre os bens
produzidos em si mesmos daqueles subsidiários, constitutivos ou
mesmo preservativos dos anteriores, resolvendo assim a situação de
identificar o bem procurado em si daquilo que o condicionou, sendo
por utilidade ou por gozo. Isso resulta outras questões, pois se
bem idealizado é um resultado de uma expressão comum derivada da
casualidade ou por analogia, tornaria - se tanto vazia como
inatingível.
Nossa
percepção que achar um fim absoluto que abarcou todas as
finalidades relativizadas, as quais foram assim submetidas pela nossa
variedade de atos. Neste aspecto, o filósofo chama de bem absoluto
ou incondicional aquilo que é desejado em si mesmo e não de forma
subsidiária ou interesse de outra coisa, portanto, cabendo nessa
definição o que denominamos de felicidade. Dai, considera que esta
é algo absoluto e autossuficiente, considerada como a finalidade de
nossas ações, no caso do homem, como bem supremo, o seu trabalho
intelectual, exatamente por que isso nos distingue na criação,
mostrado esse trabalho no exercício da virtuosidade.
Nota,
na complementação, a existência de duas classes de bens: aqueles
do exterior; e aqueles do interior, sendo que postula a procura pelos
bens da alma, na expectativa de que o homem desfruta de uma
felicidade no viver bem e no agir bem. Nesse aspecto, também pode
ser comparada a felicidade as virtudes cultivadas, o saber do dia a
dia, o saber do pensar – filosófico, bem como o prosperar, o ser
honrado. Mas isso é conquistado na ação, que exige uma
complementação do prazer e de alegria por que e pelo que se faz,
tornando a felicidade o bem mais nobre e aprazível, com todos os
seus atributos juntos, jamais separados. A felicidade não está
apartada também dos bens exteriores.
Por
fim, cabe a Aristóteles responder como se obtém a felicidade,
questionando se isso não passa pelo aprender, treino ou hábito, ou
mesmo um presente dos deuses. Por considerar que seja o melhor dos
bens, também pode ser um dom divino, mas que pode ser obtida pelo
estudo e metodismo, como uma prática da vida da cidade, na qual
serve de orientação para que os cidadãos possam ser conformados a
bondade e da nobilidade de suas ações, pois, não sendo um estado
natural, pré-existente, fica nos braços da superação das
vicissitudes cotidianas.
Ainda
nesse contexto, não é a morte a mediadora do entendimento se fomos
felizes ou não, pois a felicidade deve superar todos os percalços
de nossa existência, os quais podem contrariá-la, conformados nós
a prática constante das virtudes como um bem o mais duradouro em
vida, subjugando mesmo o bem do conhecimento das ciências, e dai
nenhum homem poderia ser diminuído pelo fato de nunca praticar ações
classificadas como de ódio ou de mau caráter. Assim sendo, no
descanso do túmulo somos afetados muito pouco pelos acontecimentos
em vida.
Compreende
que a felicidade deve ser louvada de forma sempre emular a prática
das virtudes, e, por ser um princípio primeiro, infere a necessidade
de muito mais estima e a perfeição de nossos atos da bondade.
Portanto,
como visto, a virtude tem uma natureza de etapas a serem vencidas,
pois está sob o jugo da conjugação de funcionamento perfeito do
corpo e da alma, sobrando para o homem, na conceituação do
verdadeiramente político, como sendo o que tem a honra reconhecida
de ter entendido pelo zelo do estudo a virtude como algo acima das
coisas, pois assim será um farol para seus demais concidadãos na
prática da bondade e no seguimento da Lei, na contribuição aos
demais conselhos tanto dos pais como amigos, que mitigam as
irracionalidades de nossa alma.
1Claret,
Martin. Ética a Nicômaco – Aristóteles. Tradução: Pietro
Nassetti. A história do livro e a coleção "A Obra-Prima de
Cada Autor". UFES 2018.

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