segunda-feira, 2 de julho de 2018

Comentários a Ética a Nicômaco – Aristóteles




Comentários a Ética a Nicômaco – Aristóteles.1


Na vida, nos fazemos ou participamos de coisas que nos levam a um fim, mesmo que desejemos uma coisa que leva a outra, considerando que, se fosse infinito, isso seria inútil, portanto, o fim disso tudo é um bem, ou mesmo o sumo bem. Este sumo bem deve ser primeiramente entendido em sua ciências ou faculdades constitutivas. E os estudos que isso determinam, estão os mais prestigiosos, sendo entre eles a política, pois essa é a determinante das demais ciências que devem ser estudadas, as quais o cidadão deve aprender e sua extensão. A política então, como utilizadora das demais ciências, atua sobre o devemos ou não fazer, de forma se constituir o bem humano, no sentido mais completo, o bem do Estado.
Esclarece que há necessidade da instrução, e que esta é que determina o bom juízo sobre as coisas; quanto aos jovens, não se preocupam tanto com a principal dessas instruções, a política, pois seu movimento está na ação.
Todo nosso labutar tem seu objetivo de possuir os mais diversos tipos de bens, entendido que estes são afetos aos fins particulares imaginados em acontecer, portanto, deveriam toda essa procura resumir-se na procura do bem em si, aquele que não é conseguido nas ações. Tal bem final, que se eleva sobre nossos próprios fins é o bem absoluto, o sumo bem; sua procura se reveste da condição de ser uma procura mestra, que deveria estar no ideário não só dos indivíduos, mas também no seu coletivo, dentro da ordem da política.
No item III, considera que a política (a arte de conduzir bem a pólis) tem dependências éticas que podem relativizar esse bem supremo, em função mesmo do complexo resultante de seus frutos, pois para os corajosos, o martírio, bem como os doentes e os que não tem moderação. Nesse aspecto, não se deve exigir muito dos jovens, pois estes por falta de experiência e preparação, tem grande dificuldade na finalização também desse bem, motivados pela sua forma que é o agir e não meditar.
Na continuidade, é lembrado que o final da ética é o obter a felicidade, sendo esta percebida ou tomada de consciência forma diferente seja pelo sábio ou pelo comum, sendo para este tomada como felicidade ao prazer, obtenção da riqueza ou se ostentar. Entretanto, pode haver entre os comuns a percepção de que sobre os bens de natureza imediata, deve existir um que continua a existir e sede da bondade entre todos os que o precedem. Por influência de Platão, admite que existem caminhos para isso, sendo um o que emana das ações para o que principia ou, como segunda via, do que principia para o agir. Aristóteles, mesmo nessa concordância, no move a ideia de podemos ou devemos começar pela nossa prática própria dos atos, lastreados por exigência no conhecimento e nos respeitos aos hábitos, esclarecimentos, uma boa educação.
Sobre a Vida.
A vida classificada por Aristóteles se dispõe em a) a identificação da fruição de prazeres com o sendo a felicidade, sendo que neste caso tida pelo filósofo como uma vida animal e de escravidão; b) a vida pública – política – que oferece honrarias e privilégios, como sendo a felicidade, neste caso considerada com algo negativo, pois é uma coisa concedida pelo Estado, mas também imaginando que existe aqueles que, não obstante ser concedida, pensarem na honra como uma confirmação da sua bondade, sendo essa o espelhamento da sua vivência ; e, c) não muito distante de todos, a vida de contemplação.
Entretanto, na continuidade, deixa claro a contrariedade existente entre o filósofo e o ideário platônico relativamente ao que seria ou como poderia se apresentar a ideia do bem universal, do sumo-bem. Para tanto, enumera-o como podendo assumir a característica de substância (um algo tangível de alguma forma), por exemplo, Deus; ou de qualidade, como as virtudes, ou mesmo ainda, como um bem de relação, ou seja, aquele que utilidade no momento que se faz necessário; o que resta disso é que, assim sendo, isso não suporta uma conceituação que se mostra como uma ideia comum. Considerando esses aspectos peculiares, entende que não pode haver um único conhecimento, uma única ciência que totalize a ideia de um bem universal de forma imaginada, abstrata, mesmo que entre os seguidores de Platão tenham a sagacidade de diferenciar entre os bens produzidos em si mesmos daqueles subsidiários, constitutivos ou mesmo preservativos dos anteriores, resolvendo assim a situação de identificar o bem procurado em si daquilo que o condicionou, sendo por utilidade ou por gozo. Isso resulta outras questões, pois se bem idealizado é um resultado de uma expressão comum derivada da casualidade ou por analogia, tornaria - se tanto vazia como inatingível.
Nossa percepção que achar um fim absoluto que abarcou todas as finalidades relativizadas, as quais foram assim submetidas pela nossa variedade de atos. Neste aspecto, o filósofo chama de bem absoluto ou incondicional aquilo que é desejado em si mesmo e não de forma subsidiária ou interesse de outra coisa, portanto, cabendo nessa definição o que denominamos de felicidade. Dai, considera que esta é algo absoluto e autossuficiente, considerada como a finalidade de nossas ações, no caso do homem, como bem supremo, o seu trabalho intelectual, exatamente por que isso nos distingue na criação, mostrado esse trabalho no exercício da virtuosidade.
Nota, na complementação, a existência de duas classes de bens: aqueles do exterior; e aqueles do interior, sendo que postula a procura pelos bens da alma, na expectativa de que o homem desfruta de uma felicidade no viver bem e no agir bem. Nesse aspecto, também pode ser comparada a felicidade as virtudes cultivadas, o saber do dia a dia, o saber do pensar – filosófico, bem como o prosperar, o ser honrado. Mas isso é conquistado na ação, que exige uma complementação do prazer e de alegria por que e pelo que se faz, tornando a felicidade o bem mais nobre e aprazível, com todos os seus atributos juntos, jamais separados. A felicidade não está apartada também dos bens exteriores.
Por fim, cabe a Aristóteles responder como se obtém a felicidade, questionando se isso não passa pelo aprender, treino ou hábito, ou mesmo um presente dos deuses. Por considerar que seja o melhor dos bens, também pode ser um dom divino, mas que pode ser obtida pelo estudo e metodismo, como uma prática da vida da cidade, na qual serve de orientação para que os cidadãos possam ser conformados a bondade e da nobilidade de suas ações, pois, não sendo um estado natural, pré-existente, fica nos braços da superação das vicissitudes cotidianas.
Ainda nesse contexto, não é a morte a mediadora do entendimento se fomos felizes ou não, pois a felicidade deve superar todos os percalços de nossa existência, os quais podem contrariá-la, conformados nós a prática constante das virtudes como um bem o mais duradouro em vida, subjugando mesmo o bem do conhecimento das ciências, e dai nenhum homem poderia ser diminuído pelo fato de nunca praticar ações classificadas como de ódio ou de mau caráter. Assim sendo, no descanso do túmulo somos afetados muito pouco pelos acontecimentos em vida.
Compreende que a felicidade deve ser louvada de forma sempre emular a prática das virtudes, e, por ser um princípio primeiro, infere a necessidade de muito mais estima e a perfeição de nossos atos da bondade.
Portanto, como visto, a virtude tem uma natureza de etapas a serem vencidas, pois está sob o jugo da conjugação de funcionamento perfeito do corpo e da alma, sobrando para o homem, na conceituação do verdadeiramente político, como sendo o que tem a honra reconhecida de ter entendido pelo zelo do estudo a virtude como algo acima das coisas, pois assim será um farol para seus demais concidadãos na prática da bondade e no seguimento da Lei, na contribuição aos demais conselhos tanto dos pais como amigos, que mitigam as irracionalidades de nossa alma.


1Claret, Martin. Ética a Nicômaco – Aristóteles. Tradução: Pietro Nassetti. A história do livro e a coleção "A Obra-Prima de Cada Autor". UFES 2018.

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