segunda-feira, 2 de julho de 2018

A Angústia em Lacan, Heidegger, Kierkegaard




A Angústia em Lacan, Heidegger, Kierkegaard
Para entendermos a angústia, mister se faz não tentar entendê-la de forma estritamente conceitual, taxativa, pois não obstante ela se manifestar na ausência de significantes (o que para Lacan é fonte do significado), não pode se expressar por não ser simbolizada, como nos observa a psicanálise; isso não quer dizer que ela possa ser reduzida a uma simples compreensão. O pensamento filosófico é pródigo em apresentar vertentes que tentam desvendar esse papel da angústia, que parece ser a necessidade necessária, premente, inadiável e não reduzível do ser ai no mundo, pois, se de um lado, conceitualmente, pode-se chamar de angústia aquilo que se desenha no abafamento, na insegurança, na falta de empatia, no ressentimento, na dor, da qual, por poder ser “conceituada”, toma o título de doença e então pode ser “tratada” com os fármacos da psiquiatria; por outro lado, existe nela uma natureza não facilmente decifrável, do existencial, quase que incógnita, que se faz presente no sentir, indecifrável.
A situação se coloca como um problema e este entendido tanto como assunto controverso, de discussão acadêmica ou não; como também de um emergir, de um aparecer, sendo que, no primeiro caso, existe como uma materialização do saber ou do pensar filosófico/da pesquisa, antecipativo, mas que é antes um agora entre um antes e um depois; no segundo, o que aparece, faz-se presente, tem forma e conteúdo e nos força a tomar consciência, responsabilidade, mediados pela ação da violência que se apresenta e que o movimenta; o do não esperar.
São essas faces que a coisa também se apresenta, e nem sempre entendida assim, pois, tomada essa “angústia” como um afeto, consciente, há de se considerar como a isso se coloca a verdade do inconsciente psicanalítico.
O pensamento de Lacan se norteia na oposição a tecnociência, ou seja, a oposição ao contexto social e tecnológico da ciência (esta é codificada e sustentada no meio social; e mantida e estabilizada por outras redes não humanas); Lacan, mantém o indivíduo em sua singularidade. Heidegger se direciona em entender a angústia em oposição a metafísica; já em Kierkegaard, opõe a angústia à organização de Hegel da filosofia.
Em Freud, a angústia é relacionada ao perigo e ao desamparo, pois esta surge como uma reação a um iminência achada perigosa ao sujeito, ou seja, pela sua avaliação do risco e seu desamparo diante dele. O processo do nascimento inaugura a angústia, concluindo que, na continuidade, a falta da mãe (objeto) e a satisfação que ela poderia causar, constitui-se que o quê primeiro investe a angústia é a perda do próprio objeto, situação que certamente se repetirá no exercício da vida. Essa angústia toma então o caráter de ser uma reação a percepção de uma perda. Não deixa de ficar evidente o das Ding, a coisa perdida para sempre nesse processo. Mas, se em Freud há a perda do “objeto”, Lacan vai discordar desta posição de Freud, afirmando que esse objeto necessário a angústia é o objeto “a”1. Essa aparente contradição se esclarece nas conjunções do desejo, como discurso do outro, porque, para o psicanalista francês, o afeto da angústia está atrelado a percepção do desejo do Outro, sendo então o signo do desejo do Outro.
Portanto, para Lacan, a percepção/aproximação do objeto “a”, ou seja do desejo do outro, não simbolizado, além da evidente aproximação em Freud do das Ding , traria ao sujeito a ameaça do desvanecimento, da angústia.
Para nos articularmos com Heidegger, devemos ter em conta que ele preocupa-se com a existência, não com o existencialismo, ou seja, pensar além do homem tido como animal racional, pois entende que o quê se transparece no homem não é a medida de um ser dotado de razão, mas sim de como ele lida com esse um ser e como ele guarda isso, ou seja, o homem é o guia do ser e a sua linguagem é a morada do ser. Portanto, preocupa-se com a verdade ou o sentido do ser, admitindo que desde a antiguidade sempre houve a confusão entre o ôntico, que trata do “ente” e o ontológico, que se volta ao “ser”. Delineia que a única possibilidade de questionar o ser é o próprio homem, pois este compreende o ser, o sentido do que aparece que ele é, de que tem existência. Esse homem, ente privilegiado, que tem o senso de perguntar sobre o “ser”, que compreende esse “ser”, é denominado por ele de “ser-ai” - em alemão: Dasein. E é desse “ser-ai” - Dasein – que se inicia a analítica existencial. Resume que a questão do “ser-ai” deve ser investigada tanto segundo o mandato da fenomenologia, quanto da hermenêutica.
Há a compreensão de que somente o homem existe, é e existe!, ou seja, entender o ser a partir do ser. Essa existência pode ter a característica da inautenticidade, ou seja, o cotidiano do homem pode manter uma situação de encobrimento do seu ser, possuindo então uma noção não acertada de seu processo de existência, mantido camuflado, não revelado. Esse encobrimento é originado na tradição desde muito tempo já nos primeiros pensamentos sobre o ser no mundo antigo. Então, o processo de análise da existência, enquanto ontologia é a de ser uma destruição da tradição, pois a jornada diária é dominada por um esquecimento do ser.
Na colocação de todos os aspectos existenciais que dão forma ao “Dasein”, o traço de sua totalidade, o qual define a sua essência, é a angústia, base compreensiva que dá ao fenomenológico hermenêutico a apreensão do todo originário do “ser-ai”. A angústia é de cunho existencial somente humano, pois animais não se angustiam. Não deve a angústia ser confundida com um temor, medo, que é a nossa fuga do “ser-ai”, e esse temer nos abre ao mundo, sendo a angústia mais ampla que o temer, pois, no temor temos o objeto a ser temido, já na angústia, esse não é revelado, manifestado como um tédio, um estar farto dos entes que nos rodeiam. Como ameaça, a angústia nos perpassa sem uma materialidade. A angústia se angustia pelo próprio ser no mundo, nas suas relações de existência, portanto, a angústia nos revela o nada a que somos, obrigando-nos a questionar o ser. Não sabemos por que nos angustiamos e a angústia pode ser o puro fato de existir, o ser-no-mundo ( o mundo em que o ser é, o quem que é no mundo, e o modo de ser-em em si mesmo), o mundo como mundo. O que nós sentimos como angústia é um nada que nadifica de forma contínua, entendido esse nadificar com uma indulgência de rejeição ao ente em sua fuga, exibindo-o a sua estranheza como o totalizante outro diante do nada. E é nessa situação que a angústia que se revela a abertura do ente enquanto tal, colocando a existência humana diante de si mesmo em sua finitude.
Colocado diante do inautêntico de sua vida – a comum, a opinião comum- a angústia torna-se a possibilidade da virada da existência humana, dando chance de sair o homem da inautenticidade e viver a autenticidade.
Voltemo-nos para Kierkegaard, ou mais precisamente Sören Kierkegaard, filósofo dinamarquês. Mas, para entrarmos no mundo de Kierkegaard, há necessidade de localizá-lo na sua própria vida e nos contextos que o envolveram. Sobre a angústia, ela aparece aqui mais com uma estreiteza, ou seja, a nossa própria penosa existência, assim reconhecida como tal. E a angústia é um acontecimento que não se deixa mascarar, portanto, revelador.
A angústia, respeitado todas os entendimentos anteriores aqui de Lacan, Heidegger, só se tornou sua notação quando se pensou, na nossa história, na subjetividade, ou seja, as dimensões de nossos interior, com sua parte consciente e inconsciente.
Partimos agora para a doutrina cristã, cujas afirmações, além de marcarem toda a Idade Média europeia, indicam que o homem, velado pelo pecado que o obscurece, tem ‘saudade’, desejo do bem supremo, Deus. Essa nostalgia é indicada por uma angústia, ou seja, reconhecemos nossa finitude que deve ser voltar ao infinito. É nesse interregno, ou seja, entre o humano e o divino e suas preocupações, que se firma Kierkegaard, atormentado, angustiado pelos seus dissabores existenciais, colocado diante da cultura religiosa de sua época, na qual seus conterrâneos se diziam cristãos, mas não tinham as vidas de renúncia e sofrimentos que atestassem suas condições de seguidores de Jesus Cristo. Conclui-se que, a identidade do cristão autêntico é o seu sofrimento no seu próprio existir. Portou-se em uma vida solitária e escondida, lançando-se na necessidade interior de estar a serviço da verdade, o que leva as considerações que sua vida era atormentada pelas vozes da angústia, a qual não obstante serem dolorosas, tornou-se também condição da compreensão do ser humano na sua colocação a Deus.
São nessas linhas que Kierkegaard enuncia seu conceito de angústia, a partir da investigação o mito cristão do pecado original, na acepção de que, o entendimento sobre o que é angústia deve ser colocado a extensão da compreensão do pecado e qual sua ação na vida.
Por ecos do pecado original, somos pecadores no nosso âmago, de forma que nosso espírito animador se faz perceber no nosso sentido de incompletude, e essa falta é percebida como que meio consciente, a qual não conseguimos preencher. Esse pecado nasce mesmo antes de existir em nosso interior uma disposição para a possibilidade de pecar, isso como condição pétrea de nossa existência.
A partir do mito adâmico, devemos considerar que havia uma possibilidade de efetuar uma escolha, comer ou não determinado fruto. Mas a fonte desse fruto estava disponível, a mão, tentadora. Tanto Adão e Eva, antes do ato em si, se fizeram experimentar da angústia, portanto, a situação antes da transgressão foi sentida como uma angústia e assim repetida na humanidade como um todo. Percebemo-nos em nossa incompletude, mas também na nossa capacidade de sintetizar um “completo” através de nosso criador, Deus. Mas observe-se que somente Deus pode fazer essa “recriação”; então, seria ilusório para nós a completude? A resposta de Kierkegaard para isso é que sim, podemos ser completos se nos voltarmos para Deus, na condição de completos e finitos. É essa aparente contradição que nos causa um constante tensão, sendo portanto esta a mancha visível que o pecado original nos legou, a qual nos conduz a compreensão de consciência de nossa “culpa”, com seu sucedâneo, a angústia.
Essa condição de pecaminoso – angustiado – do homem, facilita seu entendimento da possibilidade da escolha, e as fazemos pois temos certeza do leque de possibilidades em torno delas e que podem excluir-se mutuamente. Portanto, não existe escolha que não tenha um componente angustiante, e que a angústia é um mal estar no processo da escolha. E é nessa angústia que nos damos conta de nossa finitude, incompletude, e que temos pouca chance de reverter esse quadro.
Concluindo, o que podemos ver de comum nas percepções de Lacan, Heidegger e Kierkegaard?
Não é difícil ver “a coisa” perdida para sempre; o nosso estado inicial de desamparo; da nossa necessidade do desejo do outro para o nosso próprio. A angústia então, em todos os pensadores aqui, é o algo que nos revela o nada, e de onde podemos entender o ente, o ser-ai, o real inatingível de Kierkegaard. Desce-nos as profundezas da existência, na revelação do âmago do mistério do existir, ser consciente, fazer ilações… como também nos revela nos nossos mecanismos de defesa, quando temos uma vida inautêntica, aliás, proposta por Kierkegaard quando apela ao sofrimento para se mostrar o ser cristão autêntico: seus conterrâneos eram inautênticos no melhor sentido de Heidegger.
Ficamos com Lacan: a angústia é a insinuação do outro, e este outro, pode ser o modelo, o transcender de Heidegger ou mesmo Deus em Kierkegaard.
1Objeto “a”: Como em Hegel, Lacan coteja sua concepção de desejo como sendo o desejo do homem “o desejo de desejo, na medida em que é desejo de reconhecimento por parte do Outro”. Esse outro em Lacan é tido como inconsciência. Nesse aspecto de Lacan, o outro é o marcado pelo significante, dividido por uma inconsciência necessária, o qual é sede de um movimento contínuo de desejo. E dessa divisão, igualada a entrada da linguagem, sobra uma parte que não entra no domínio do simbólico (linguagem), sendo portanto essa parte, fora do simbólico, o objeto “a”.

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