A
Angústia em Lacan, Heidegger, Kierkegaard
Para
entendermos a angústia, mister se faz não tentar entendê-la de
forma estritamente conceitual, taxativa, pois não obstante ela se
manifestar na ausência de significantes (o que para Lacan é fonte
do significado), não pode se expressar por não ser simbolizada,
como nos observa a psicanálise; isso não quer dizer que ela possa
ser reduzida a uma simples compreensão. O pensamento filosófico é
pródigo em apresentar vertentes que tentam desvendar esse papel da
angústia, que parece ser a necessidade necessária, premente,
inadiável e não reduzível do ser ai no mundo, pois, se de um lado,
conceitualmente, pode-se chamar de angústia aquilo que se desenha no
abafamento, na insegurança, na falta de empatia, no ressentimento,
na dor, da qual, por poder ser “conceituada”, toma o título de
doença e então pode ser “tratada” com os fármacos da
psiquiatria; por outro lado, existe nela uma natureza não facilmente
decifrável, do existencial, quase que incógnita, que se faz
presente no sentir, indecifrável.
A
situação se coloca como um problema e este entendido tanto como
assunto controverso, de discussão acadêmica ou não; como também
de um emergir, de um aparecer, sendo que, no primeiro caso, existe
como uma materialização do saber ou do pensar filosófico/da
pesquisa, antecipativo, mas que é antes um agora entre um antes e um
depois; no segundo, o que aparece, faz-se presente, tem forma e
conteúdo e nos força a tomar consciência, responsabilidade,
mediados pela ação da violência que se apresenta e que o
movimenta; o do não esperar.
São
essas faces que a coisa também se apresenta, e nem sempre entendida
assim, pois, tomada essa “angústia” como um afeto, consciente,
há de se considerar como a isso se coloca a verdade do inconsciente
psicanalítico.
O
pensamento de Lacan se norteia na oposição a tecnociência, ou
seja, a oposição ao contexto social e tecnológico da ciência
(esta é codificada e sustentada no meio social; e mantida e
estabilizada por outras redes não humanas); Lacan, mantém o
indivíduo em sua singularidade. Heidegger se direciona em entender a
angústia em oposição a metafísica; já em Kierkegaard, opõe a
angústia à organização de Hegel da filosofia.
Em
Freud, a angústia é relacionada ao perigo e ao desamparo, pois esta
surge como uma reação a um iminência achada perigosa ao sujeito,
ou seja, pela sua avaliação do risco e seu desamparo diante dele. O
processo do nascimento inaugura a angústia, concluindo que, na
continuidade, a falta da mãe (objeto) e a satisfação que ela
poderia causar, constitui-se que o quê primeiro investe a angústia
é a perda do próprio objeto, situação que certamente se repetirá
no exercício da vida. Essa angústia toma então o caráter de ser
uma reação a percepção de uma perda. Não deixa de ficar evidente
o das Ding, a coisa perdida para sempre nesse processo. Mas, se em
Freud há a perda do “objeto”, Lacan vai discordar desta posição
de Freud, afirmando que esse objeto necessário a angústia é o
objeto “a”1.
Essa aparente contradição se esclarece nas conjunções do desejo,
como discurso do outro, porque, para o psicanalista francês, o afeto
da angústia está atrelado a percepção do desejo do Outro, sendo
então o signo do desejo do Outro.
Portanto,
para Lacan, a percepção/aproximação do objeto “a”, ou seja do
desejo do outro, não simbolizado, além da evidente aproximação em
Freud do das
Ding ,
traria ao sujeito a ameaça do desvanecimento, da angústia.
Para
nos articularmos com Heidegger, devemos ter em conta que ele
preocupa-se com a existência, não com o existencialismo, ou seja,
pensar além do homem tido como animal
racional,
pois entende que o quê se transparece no homem não é a medida de
um ser dotado de razão, mas sim de como ele lida com esse um ser e
como ele guarda isso, ou seja, o homem é o guia do ser e a sua
linguagem é a morada do ser. Portanto, preocupa-se com a verdade ou
o sentido do ser, admitindo que desde a antiguidade sempre houve a
confusão entre o ôntico, que trata do “ente” e o ontológico,
que se volta ao “ser”. Delineia que a única possibilidade de
questionar o ser é o próprio homem, pois este compreende o ser, o
sentido do que aparece que ele é, de que tem existência. Esse
homem, ente privilegiado, que tem o senso de perguntar sobre o “ser”,
que compreende esse “ser”, é denominado por ele de “ser-ai”
- em alemão: Dasein. E é desse “ser-ai” - Dasein – que se
inicia a analítica existencial. Resume que a questão do “ser-ai”
deve ser investigada tanto segundo o mandato da fenomenologia, quanto
da hermenêutica.
Há
a compreensão de que somente o homem existe, é e existe!, ou seja,
entender o ser a partir do ser. Essa existência pode ter a
característica da inautenticidade, ou seja, o cotidiano do homem
pode manter uma situação de encobrimento do seu ser, possuindo
então uma noção não acertada de seu processo de existência,
mantido camuflado, não revelado. Esse encobrimento é originado na
tradição desde muito tempo já nos primeiros pensamentos sobre o
ser no mundo antigo. Então, o processo de análise da existência,
enquanto ontologia é a de ser uma destruição da tradição, pois a
jornada diária é dominada por um esquecimento do ser.
Na
colocação de todos os aspectos existenciais que dão forma ao
“Dasein”, o traço de sua totalidade, o qual define a sua
essência, é a angústia,
base compreensiva que dá ao fenomenológico hermenêutico a
apreensão do todo originário do “ser-ai”. A angústia é de
cunho existencial somente humano, pois animais não se angustiam. Não
deve a angústia ser confundida com um temor, medo, que é a nossa
fuga do “ser-ai”, e esse temer nos abre ao mundo, sendo a
angústia mais ampla que o temer, pois, no temor temos o objeto a ser
temido, já na angústia, esse não é revelado, manifestado como um
tédio, um estar farto dos entes que nos rodeiam. Como ameaça, a
angústia nos perpassa sem uma materialidade. A angústia se angustia
pelo próprio ser no mundo, nas suas relações de existência,
portanto, a angústia nos revela o nada a que somos, obrigando-nos a
questionar o ser. Não sabemos por que nos angustiamos e a angústia
pode ser o puro fato de existir, o ser-no-mundo ( o mundo em que o
ser é, o quem que é no mundo, e o modo de ser-em em si mesmo), o
mundo como mundo. O que nós sentimos como angústia é um nada que
nadifica de forma contínua, entendido esse nadificar com uma
indulgência de rejeição ao ente em sua fuga, exibindo-o a sua
estranheza como o totalizante outro diante do nada. E é nessa
situação que a angústia que se revela a abertura do ente enquanto
tal, colocando a existência humana diante de si mesmo em sua
finitude.
Colocado
diante do inautêntico de sua vida – a comum, a opinião comum- a
angústia torna-se a possibilidade da virada da existência humana,
dando chance de sair o homem da inautenticidade e viver a
autenticidade.
Voltemo-nos
para Kierkegaard, ou mais precisamente Sören Kierkegaard, filósofo
dinamarquês. Mas, para entrarmos no mundo de Kierkegaard, há
necessidade de localizá-lo na sua própria vida e nos contextos que
o envolveram. Sobre a angústia, ela aparece aqui mais com uma
estreiteza, ou seja, a nossa própria penosa existência, assim
reconhecida como tal. E a angústia é um acontecimento que não se
deixa mascarar, portanto, revelador.
A
angústia, respeitado todas os entendimentos anteriores aqui de
Lacan, Heidegger, só se tornou sua notação quando se pensou, na
nossa história, na subjetividade, ou seja, as dimensões de nossos
interior, com sua parte consciente e inconsciente.
Partimos
agora para a doutrina cristã, cujas afirmações, além de marcarem
toda a Idade Média europeia, indicam que o homem, velado pelo pecado
que o obscurece, tem ‘saudade’, desejo do bem supremo, Deus. Essa
nostalgia é indicada por uma angústia, ou seja, reconhecemos nossa
finitude que deve ser voltar ao infinito. É nesse interregno, ou
seja, entre o humano e o divino e suas preocupações, que se firma
Kierkegaard, atormentado, angustiado pelos seus dissabores
existenciais, colocado diante da cultura religiosa de sua época, na
qual seus conterrâneos se diziam cristãos, mas não tinham as vidas
de renúncia e sofrimentos que atestassem suas condições de
seguidores de Jesus Cristo. Conclui-se que, a identidade do cristão
autêntico é o seu sofrimento no seu próprio existir. Portou-se em
uma vida solitária e escondida, lançando-se na necessidade interior
de estar a serviço da verdade, o que leva as considerações que sua
vida era atormentada pelas vozes da angústia, a qual não obstante
serem dolorosas, tornou-se também condição da compreensão do ser
humano na sua colocação a Deus.
São
nessas linhas que Kierkegaard enuncia seu conceito de angústia, a
partir da investigação o mito cristão do pecado original, na
acepção de que, o entendimento sobre o que é angústia deve ser
colocado a extensão da compreensão do pecado e qual sua ação na
vida.
Por
ecos do pecado original, somos pecadores no nosso âmago, de forma
que nosso espírito animador se faz perceber no nosso sentido de
incompletude, e essa falta é percebida como que meio consciente, a
qual não conseguimos preencher. Esse pecado nasce mesmo antes de
existir em nosso interior uma disposição para a possibilidade de
pecar, isso como condição pétrea de nossa existência.
A
partir do mito adâmico, devemos considerar que havia uma
possibilidade de efetuar uma escolha, comer ou não determinado
fruto. Mas a fonte desse fruto estava disponível, a mão, tentadora.
Tanto Adão e Eva, antes do ato em si, se fizeram experimentar da
angústia, portanto, a situação antes da transgressão foi sentida
como uma angústia e assim repetida na humanidade como um todo.
Percebemo-nos em nossa incompletude, mas também na nossa capacidade
de sintetizar um “completo” através de nosso criador, Deus. Mas
observe-se que somente Deus pode fazer essa “recriação”; então,
seria ilusório para nós a completude? A resposta de Kierkegaard
para isso é que sim, podemos ser completos se nos voltarmos para
Deus, na condição de completos e finitos. É essa aparente
contradição que nos causa um constante tensão, sendo portanto esta
a mancha visível que o pecado original nos legou, a qual nos conduz
a compreensão de consciência de nossa “culpa”, com seu
sucedâneo, a angústia.
Essa
condição de pecaminoso – angustiado – do homem, facilita seu
entendimento da possibilidade da escolha, e as fazemos pois temos
certeza do leque de possibilidades em torno delas e que podem
excluir-se mutuamente. Portanto, não existe escolha que não tenha
um componente angustiante, e que a angústia é um mal estar no
processo da escolha. E é nessa angústia que nos damos conta de
nossa finitude, incompletude, e que temos pouca chance de reverter
esse quadro.
Concluindo,
o que podemos ver de comum nas percepções de Lacan, Heidegger e
Kierkegaard?
Não
é difícil ver “a coisa” perdida para sempre; o nosso estado
inicial de desamparo; da nossa necessidade do desejo do outro para o
nosso próprio. A angústia então, em todos os pensadores aqui, é o
algo que nos revela o nada, e de onde podemos entender o ente, o
ser-ai, o real inatingível de Kierkegaard. Desce-nos as profundezas
da existência, na revelação do âmago do mistério do existir, ser
consciente, fazer ilações… como também nos revela nos nossos
mecanismos de defesa, quando temos uma vida inautêntica, aliás,
proposta por Kierkegaard quando apela ao sofrimento para se mostrar o
ser cristão autêntico: seus conterrâneos eram inautênticos no
melhor sentido de Heidegger.
Ficamos
com Lacan: a angústia é a insinuação do outro, e este outro, pode
ser o modelo, o transcender de Heidegger ou mesmo Deus em
Kierkegaard.
1Objeto
“a”: Como em Hegel, Lacan coteja sua concepção de desejo como
sendo o desejo do homem “o desejo de desejo, na medida em que é
desejo de reconhecimento por parte do Outro”. Esse outro em Lacan
é tido como inconsciência. Nesse aspecto de Lacan, o outro é o
marcado pelo significante, dividido por uma inconsciência
necessária, o qual é sede de um movimento contínuo de desejo. E
dessa divisão, igualada a entrada da linguagem, sobra uma parte que
não entra no domínio do simbólico (linguagem), sendo portanto
essa parte, fora do simbólico, o objeto “a”.

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