segunda-feira, 2 de julho de 2018

Relação do Texto “Totem e tabu” e a função do Pai com aquela contida em “Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise”




Relação do Texto “Totem e tabu” e a função do Pai com aquela contida em “Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise”

 

 

O pedido é muito extenso para uma situação que, se em Freud é bastante direta, para Lacan se tornou um cavalo de batalha do tamanho de quatro seminários 1, mas que nos deu uma compreensão mais aprofundada sobre o que realmente esse pai primevo freudiano é.
Em Freud
Com a emergência das observações de Freud a respeito de uma repetição constante das situações que constituem o complexo de Édipo (não chamado assim nas suas primeiras observações), e logo após o Projeto das considerações sobre a interpretação dos sonhos, há em Freud uma preocupação em estabelecer os mecanismos que isso aconteceram, a partir de uma visão estruturada na cultura, tido como elemento do desenvolvimento social e como marcador de aspectos dos sujeitos.
A partir então de Darwin, propôs a questão da horda primitiva, a do que hoje chamaríamos macho alfa e seu harém, o qual chamado por ele de Pai Primevo, de forma se diferenciar dos demais “pais” que surgiram depois desse. O pai primevo, arrogante, poderoso, ciumento, impedia a promiscuidade sexual entre os membros do próprio clã, ou seja, impedia o comércio sexual. Para tanto, expulsava os membros mais novos assim que chegassem a idade reprodutiva.
Mas, em algum momento, esses filhos reunidos, enfrentaram o seu pai, o mataram e tomaram seu lugar na horda, ou seja, tiveram acesso ao seu gozo. Ao tomarem seu lugar, enfrentaram o mesmo problema, ou seja, tiveram que evocar os mandamentos do Pai, no sentido de proibirem o incesto, e com isso, impuseram os tabus: a proibição de matarem o Pai e de se acasalarem com os mesmos membros do clã. Por essa situação, ao se encontrarem debaixo do mesmo aspecto da ordenança anterior, colocaram fim a questão do enfrentamento dos mais jovens ao mais velho para lhes tomar o lugar, lugar esse dito como impossível, pois ele não permite o gozo absoluto. Por fim, esse ato, culminou em sentimentos neuróticos de remorso, e a figura do pai foi figurada no Totem, o qual deixava derivar o banquete totêmico, onde todos participavam do “corpo” do pai, de forma que, o sentimento de culpa fosse igualmente distribuído entre todos 2.
Podemos dizer que tanto em vida, como morto, a “função” do Pai Primevo Freudiano era ser a fonte da Lei, a qual os membros do clã deveriam respeitar no recalque, de forma continuarem participando daquele clã!
Em Lacan, seu desenvolvimento
Primeiro, devemos ser enfáticos: Lacan não encerra esse entendimento, ou seja, a “função” do pai, portanto, tudo está sujeito a considerações ulteriores. Podemos afirmar também isso em Freud.
É nesse espírito que, ao propor respostas para lacunas freudianas, Lacan nos apresenta, diga-se de forma brilhante, entendimentos a luz de considerações do campo da linguagem, o qual tinha sido objeto de avanços no campo da pesquisa quando de suas formulações.
É preocupação de Lacan questões de como o pai intervém na constituição do sujeito, pois não pode ser tomado com um algo concreto ou mesmo biológico: isso é ingênuo epistemologicamente falando. Há toda uma investidura familiar nisso, o valor familiar e sua ação psíquica nas relações sociais, as quais se são os meios da transmissão cultural.
É nessa situação que tenta responder a questão fundamental em Totem e Tabu de Freud: se o completo de Édipo é universal no conhecimento das neuroses, como se dá essa transmissão a todos? Como o ódio ao pai e amor pela mãe -triangulação edípica- podem também ser tão abarcadoras nos sujeitos, se não dependem de uma comunicação hereditária? Portanto, o pressuposto freudiano de assassinato do pai primevo como também a questão da proibição do incesto que permite o nascimento da civilização – cultura- necessita de um arranjo que obriga o relacionamento com o pai à dependência de algum meio de transmissão. Lacan propõe a estrutura da organização familiar como esse meio.
E nessa estrutura organizacional familiar que se figura o Pai, o qual, para realizar suas funções, emerge em várias e sucessivos momentos. As subjetividades observadas, no mundo ocidental, valem-se da instituição da “família patriarcal”, bem como seu declínio, apontado por Lacan com um provável também um fator do nascimento da psicanálise.
A situação que se apresenta não difere da situação Freudiana, ou seja, a função do Pai é ensinar ou impor a Lei, através da castração do desejo incestuoso, de forma garantir o processo civilizatório. Esse “Pai”, nessas funções, entende Lacan, se apresentam de forma “simbólica”, na qual ele chama “nome-do-pai-, como uma metáfora que cristaliza, encerra em si, o valor simbólico de sua função.
Raciocinando
O pai Freudiano é o mesmo pai Lacaniano, tomado nas suas funções real, imaginária e simbólica, enquanto Lei. O que difere Freud de Lacan são as abordagens, mas ambas dentro de um imaginado: o primeiro como um mito, em sua acepção mais objetiva que é a de um entendimento de uma situação histórica; o outro como uma metáfora, uma forma de imaginar/dizer de um algo na qual comporta a necessidade de uma simbolização que pode ser transformado em algum tipo de uma fala. No primeiro, o aspecto cultural; no segundo, o da linguagem, essa como uma estrutura, guardado suas próprias sintaxes, modelo que ocorre no inconsciente, que se estrutura como uma linguagem, que comporta também as figuras da metáfora e da metonímia 3. E é na sua transmissão que acessamos o seu provável conteúdo.




Referências
Bispo, Fábio Santos et al. O que é um pai? A função paterna nos momentos iniciais do ensino de Lacan. Disponível em < https://revistas.pucsp.br/index.php/psicorevista/article/view/30988/23330 > . Acessado em 28 de abril de 2018.
Lacan, Jean Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise – Relatório do Congresso de Roma. Istituto di Psicologia Della Universitá Di Roma 1953. Zahar. Disponível em https://pt.scribd.com/document/339009688/1953-Funcao-e-Campo-Da-Fala-e-Da-Linguagem-Em-Psicanalise-in-Escritos-Jacques-Lacan-OCR >. Acessado em 28 de abril de 2018.
Reis, Júlia. Diálogo em Psicanálise. O pai mítico de "Totem e Tabu". Disponível em < http://dialogoempsicanalise.blogspot.com.br/2012/01/o-pai-mitico-de-totem-e-tabu_06.html >. Acessado em 28 de abril de 2018



1Refere-se ao desenvolvimento que Lacan faz a partir das considerações freudianas, em particular, a questão de como a cultura é transmitida, já que essa se opõe a qualquer situação inata, não aceita por ambos. Bispo, Fábio Santos et al. O que é um pai? A função paterna nos momentos iniciais do ensino de Lacan
2Entendido que, tal ato foi necessário para se redescobrir a verdade do Tabu, da Lei enquanto necessária na função de se viver em sociedade, mas que dependia da morte desse pai primevo, autor primordial da castração do desejo incestuoso.
3Metáfora: metáfora. Substantivo feminino. Designação de um objeto ou qualidade mediante uma palavra que designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma relação de semelhança (p.ex., ele tem uma vontade de ferro, para designar uma vontade forte, como o ferro). Metonímia: substantivo feminino. Figura de retórica que consiste no uso de uma palavra fora do seu contexto semântico normal, por ter uma significação que tenha relação objetiva, de contiguidade, material ou conceitual, com o conteúdo ou o referente ocasionalmente pensado. Relação metonímica de tipo qualitativo (causa, efeito, esfera etc.): matéria por objeto: ouro por 'dinheiro'; pessoa por coisa; autor por obra: adora Portinari por 'a obra de Portinari'; divindade: esfera de suas funções; proprietário por propriedade: vamos hoje ao Venâncio por 'ao restaurante do Venâncio'; morador por morada; continente pelo conteúdo: bebeu uma garrafa de aguardente por 'a aguardente de uma garrafa'; consequência pela causa: respeite os meus cabelos brancos por 'a minha velhice'; a qualidade pelo qualificado: praticar a caridade por 'atos de caridade' etc.

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