segunda-feira, 2 de julho de 2018

Considerações sobre o Capitulo IV de Totem e Tabu de Freud - O RETORNO DO TOTEMISMO NA INFÂNCIA

*Incesto!


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Considerações sobre o Capitulo IV de Totem e Tabu de Freud - O RETORNO DO TOTEMISMO NA INFÂNCIA1.

Na sua publicação Totem e Tabu, Dr. Freud se ocupa em discutir os vários aspectos do nascimento da religiões, primeiramente considerando a questão do Totemismo entre várias populações da Terra, em particular na Austrália, América do Norte e na África, indicando que os estudos sobre isso foram apresentados por McLennan em 1869, até ai então encarado como curiosidade, e que em outra publicação Elemente der Völkerpsychologie, de Wundt, acreditada como sendo a cultura totêmica como a preparadora da civilização mais adiantada. Cita também o esboço de doze artigos sobre a realidade totêmica de Reinach, de 1900 no seu Code du totémisme”. Ainda cita J. G. Fraze, autor de Totemism and Exogamy, de 1910, este último conceituando o totem como “uma classe de objetos materiais que um selvagem encara com supersticioso respeito, acreditando existir entre ele e todos os membros da classe uma relação íntima e inteiramente especial”, na essa relação homem e totem é mutuamente benéfica.
Baseado nesses autores, alude as suas ideias de como o totemismo se apresenta, em particular sua representação por animais, e daí as normas de conduta em relação a essas representações, onde o animal-totem não pode ser morto ou consumido ou mesmo se isso é feito, mas a condição que pode ser feito. A principal função observada nisso é que o totem abarca conceitos de proximidade familiar, de pertença dos seus membros a uma realidade totem-povo.
Aparece nesse contexto a proibição do casamento ente os membros de uma mesma tribo totêmica, fundada no conceito da exogamia, mas fixando o caráter de ser o animal totêmico ser tomado como o animal ancestral dos grupos que o reverenciam.

Discute a questão da origem do Totemismo, dividindo-a em:
a) Teorias Nominalistas: no geral, o totem respondia a questão da necessidade de haver um nome pela qual os membros do clã pudessem ser reconhecidos. Essa ideia foi recorrente desde Garcilaso de la Vega no Século XVII, também em Keane em 1899, que os reconhecia como “insígnias heráldicas” as quais eram identificadoras dos seus membros familiares. Há menção também da necessidade no desenvolvimento humano da existência de um nome que permitisse ser mantido pela escrita, entre outros.
b) Teorias Sociológicas.
Advoga seus defensores que o Totem é o representante visível da religião social entre os povos que estão relacionados com ele, na corporificação da comunidade, que é o seu verdadeiro objeto de adoração.
Na sequência do texto, Freud faz várias objeções aos entendimentos de autores sobre isso.
c)Teorias Psicológicas
Seus defensores baseavam-se na crença de uma “alma externa”, onde o totem seria um receptáculo seguro de depósito da alma, e nesse aspecto, quanto o homem primitivo confiava sua alma ao totem, se confundia com ele na invulnerabilidade, e por isso, protegia o totem. Isso resultaria em um respeito aos diversos animais, já que não sabia em qual que representava o totem estaria o depósito protetor de sua alma. Tais ideias foi abandonada posteriormente em face de novos conhecimentos sobre o assunto. Outra teoria que se fez presente em G.A. Wilken 1884, vincula o totem a transmigração das almas, ou seja, o clã aceitava os animais achados certos para serem o novo repositório da alma como membro do próprio clã. Outra, de pesquisadores norte americanos, que o Totem antes era o espírito guardião de um antepassado.

Freud, na sequência, examina a questão da origem da exogamia e sua dependência ao totemismo.
Examina a questão dos dois pontos de vistas opostos na questão: o primeiro, que a exogamia constitui parte integrante do sistema totêmico; o segundo, a negação disso.
Trata então do tabu de relacionamento sexual da mulher com membros do próprio totem, fornecendo explicações do porque, entre eles, questões de sangue do totem ser o mesmo do clã, portanto, não se poderia haver perda desse sangue, por exemplo, na menstruação. Mas isso também era uma ampliação de outros tabus, como por exemplo, a proibição do homem sentar-se sob a sombra de sua própria árvore totem. Pegunta qual é a fonte do horror ao incesto que tem que ser identificada com sendo a raiz da exogamia. Responde que sua explicação de antipatia instintiva de relacionamento sexual entre os parentes consanguineos é insatisfatório, mesmo porque isso sempre foi tolerado, em particular nas classes dominantes. Mesmo aplica-se aos próximos, defendendo a posição que horror ao incesto não é um sentimento inato.
Freud apresenta então sua compilação teórica, na forma de um mito, sobre o que ele entende como realidade na questão totêmica. Apoia-se em Charles Darwin sob o estado social dos homens com paralelos aos dos símios superiores, na qual o macho dominante mantém suas fêmeas, por “ciume”, contra as investidas dos demais machos.
A observação psicanalitica lembra que o relacionamento das crianças se assemelha com a dos homens primitivos com os animais,aceitando-os como seus iguais, mas que, havendo alguma neurose fóbica no seu relacionamento com os animais, isso se referirá sempre a conflitos com seu pai, referindo-se a isso com o Édipo infantil.

A Horda e o Pai Primevo – O que é o totem

Feita as considerações acima sobre a origem dos totens, a exogamia (como forma de proibir o incesto), Freud apresenta a sua própria formulação do que o totem é, a partir da consideração que havia uma refeição totêmica, a qual permitia, pelo sacrifício de algum animal, que todos participassem daquele ato, firmando-os como pertencentes ao mesmo clã, grupo social.
A partir de Darwin, imagina o homem vivendo em pequenas horas, liderados por um deles que tem o privilégio de ter todas as fêmeas, proibindo o comércio sexual dos demais machos com as fêmeas sob sua guarda.
Isso evita o incesto, ou seja, o relacionamento sexual entre parentes e com as mães, de forma que o Pai primevo era o tirano. Em algum momento, os irmãos daquele clã, reuniram-se, e mesmo amando seu pai, o odiavam pelas suas proibições, juntos, armaram-se e o mataram, além de o devorar na esperança de receber nesse ato, seus dotes de Pai.
Feito isso, o caminho para as fêmeas se abriu, mas, ao perceberem o porque a proibição do Pai, sentiram-se com remorso sobre o que fizeram, e impuseram eles mesmos as mesmas leis que seu Pai tinha ordenado.
A consequência disso foi a instituição de um totem que lembrasse seu Pai e também lembrasse do que fizeram, de forma que o Pai morto venceu e ficou ainda mais poderosa suas proibições.
Esses são os mesmos sentimentos da criança que deseja a mãe, mas vê no pai o seu competidos, ao mesmo tempo que tem que eliminá-lo para ter seu objeto de gozo. Nesse interim de coisas, entende o seu amor e identificação com o seu pai, ao mesmo tempo que o odeia.
Essa ambiguidade de sentimentos é o que acontece no período em que se complementa o Édipo na criança. É nesse ordem que Freud vê os primitivos humanos com seus sentimentos infantis.

A importância do Pai

Na psicanálise, o Pai é a Lei, portanto, a fonte da interdição dos desejos incestuosos que acometem ao sujeito infantil, que tem como objeto a mãe. Ao analisar a horda primitiva e seu Pai Primevo, Freud, nesse mito, elabora a situação da infância em aspecto que provavelmente aconteceram na história, já que isso tem ampla influência na sociedade humana, com a religião sendo o sucedâneo da religião totêmica.
As implicações do Pai, seu sacrifício, sua vitória mesmo morto, sobrevivem nos aspectos das religiões. O enigma do Pai tem sido o fundante de nossa relação social, seja pelos chefes de tribos ou aldeias; seja pela imagem do Estado e suas Leis, seja no patriarcado, enfim, essa constituição que dirige nosso relacionamento.
É nesse conflito de amor e ódio ao Pai, que nascem nossas neuroses, segundo Freud. No Édipo temos tomado o nosso objeto de nosso poder, nos transformando de autoerotizados em erotizados, e o Édipo é exatamente isso: a tomada do objeto de gozo de nosso poder, pela ação do Pai.
Por fim, imaginamos nossa constituição a luz do fenômeno Cultural, tendo a figura do Pai sua centralização mais imediata e necessária.


1Freud, Sigmund. Totem e Tabu:algumas correspondências entre a vida psíquica dos selvagens e a dos neuróticos. Porto Alegre. L&PM Editores. 2013

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